A marca deixada pelo Benfica de 1987, o campeão quase invicto

Um time conseguiu impedir o reinado do Porto em solo lusitano no ano de 1987. Os Dragões conquistaram a Europa em cima do Bayern, mas não foram capazes de deter um irresistível Benfica, que terminou a Liga como campeão e somando apenas uma derrota.

Em Portugal, a temporada 1986-87 foi extremamente disputada pelos dois gigantes. O Benfica rivalizou fortemente com o Porto, que foi até a final europeia em Viena para derrotar o Bayern, iniciando um capítulo marcante em sua história internacional. Além de conquistar a Copa dos Campeões de 1987, os portistas ainda ergueram o troféu do Intercontinental contra o Peñarol, em Tóquio, partida marcada pela neve e pelos gols de Fernando Gomes e Madjer.

Pode-se pensar que o Porto também varreu Portugal naquela temporada, mas o Benfica foi tão competente quanto. Ao menos nas disputas da Liga Portuguesa e da Taça de Portugal, onde se sagrou campeão, dominando o cenário doméstico. Mas o que mais impressiona naquele Benfica, treinado por John Mortimore, é a campanha.

Dos 30 jogos disputados em busca do título, os Encarnados anotaram 20 vitórias, oito empates e uma derrota. Na verdade, a última rodada, contra o Braga, foi anulada em razão de incidentes com a torcida, pouco antes do fim dos 90 minutos. O empate em 0 a 0 foi anulado pela Federação Portuguesa de Futebol mais de um mês depois, implicando uma derrota por 3 a 0 para ambos. Entretanto, em campo, o Benfica sofreu apenas uma derrota. E uma de doer.

A tabela final mostra o Benfica líder e campeão com 48 pontos. Lembramos que naquele ano, ainda valia o regulamento da Fifa que dava apenas dois pontos por vitória. Mesmo sem dispor de um elenco muito promissor, a equipe de John Mortimore superou suas limitações para fazer história. Shéu, Rui Águas, Diamantino e Nunes foram os grandes destaques da arrancada que começou com certa dificuldade. Um empate por 2 a 2 com o Porto na estreia e outro contra o Marítimo, na terceira rodada, pareciam dar o tom de sofrimento para os lisboetas.

Entretanto, uma série de seis triunfos colocou o Benfica no bolo que brigava pelo título, em caráter definitivo. Eles não desgarraram mais da luta principal, alternando entre a primeira e a segunda colocação até a 16ª rodada. Rui Águas, filho do lendário José Águas, se consolidou como o goleador daquele elenco. E vivia grande fase, aos 27 anos. Marcando gols com frequência, contribuiu com 13 tentos para a gloriosa empreitada benfiquista.

Um susto para a história

O único grande obstáculo para a conquista foi mesmo o dérbi com o Sporting, fora de casa, na rodada 14. Ainda lembrado como o grande massacre imposto no clássico, o 7 a 1 para os Leões quase colocou tudo a perder do lado vermelho de Lisboa. O único gol do primeiro tempo foi de Mario Jorge, pelos alviverdes. Na segunda etapa, em 45 minutos desastrosos, o Benfica apenas assistiu o show do rival, que balançou mais seis vezes as redes de Manuel Bento. Manuel Fernandes, craque da noite, marcou quatro.

O Benfica não sentiu a goleada nos jogos seguintes. Vitórias contra Braga e Porto recuperaram a moral que quase foi estraçalhada na goleada de 13 de dezembro de 1986. O outro clássico contra os Dragões, aliás, devolveu a liderança ao time de Mortimore. E eles não saíram mais da ponta até a entrega da taça. Não sem um pouquinho de emoção, é claro.

Entre as rodadas 26 e 28, os Águias passaram por um aperto. Contra Acadêmica, Portimonense e Belenenses, o time empacou. Não conseguia vencer e estava pressionado até o dia 24 de maio, quando enfrentou o Sporting, na vingança que valeu o campeonato. Os benfiquistas podem até não ter vencido por goleada, mas o 2 a 1 serviu para o objetivo de ficar com o troféu da Liga. Três dias depois, em Viena, o Porto bateu o Bayern de virada para conquistar a inédita Copa dos Campeões Europeus.

O Benfica voltou a responder com a conquista da Taça de Portugal, novamente ante o arquirrival Sporting, por 2 a 1, em 7 de junho, no estádio Nacional de Oeiras, região metropolitana de Lisboa, ajudando a apagar um pouco da humilhação da goleada no primeiro turno da Liga.

Não fosse por aquele 7 a 1, o Benfica entraria para a história como a sua última formação campeã invicta no campo, isto claro, se a Federação não tivesse anulado a rodada final contra o Braga. A única vez que os Encernados alcançaram esta proeza foi em 1973. Algum tempo depois, em 2011, o Porto conseguiu a façanha de terminar um campeonato sem sofrer nenhuma derrota sequer, somando apenas três empates.

Em meio a tantas possibilidades de eternidade, aquele grupo de 1987 também representa um passo importante na consolidação dos benfiquistas, que reagiram ao sucesso do Porto com participações em duas finais europeias em três anos. Com Sven-Goran Eriksson, Ricardo Gomes, Aldair, Jonas Thern, Valdo, Shéu e Mats Magnusson, em 1990, o Benfica encerrou a década em que esteve mais próximo de voltar a beijar o troféu mais cobiçado do continente. Eles estiveram a apenas um Milan e um gol de Frank Rijkaard de alcançar o tricampeonato. Coisas da vida.

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