A gênese da rivalidade entre Holanda e Argentina em Copas do Mundo

Goleada da equipe de Cruyff na Copa do Mundo de 1974 deu início a uma série de confrontos memoráveis entre Holanda e Argentina nos Mundiais. A rivalidade entre as duas seleções se estendeu ao longo das últimas quatro décadas.

Era o início de um sonho coletivo. O encanto que a Holanda proporcionou ao mundo em 1974 era a utopia de um futebol diferente para conquistar o esporte. Um futebol pensado, revolucionário, de muito mais movimentação do que as equipes ao redor do globo estavam acostumadas. O tetracampeonato de times holandeses na Copa dos Campeões escancarava que uma nova força estava surgindo no horizonte.

Primeiro, com o Feyenoord de Ernst Happel, depois com o Ajax de Rinus Michels/Stefan Kovacs. De 1970 a 73, a dupla dos Países Baixos tomou conta da Champions e fez vítimas famosas como Celtic, Juventus e Internazionale. Quando a mescla destes talentos formou uma inesquecível Holanda entre 1974 e 78, era hora de provar em uma Copa do Mundo que o país realmente havia aprendido algo com as conquistas, ou se poderia se apresentar como um grande centro do futebol europeu.

Baile no Uruguai não refletiu no placar: o 2 a 0 foi uma ilusão, já que a Holanda desmoralizou a forte seleção celeste

Com esta proposta eficiente e de enlouquecer qualquer marcador, a Holanda chegou para o Mundial de 1974, na Alemanha, com o objetivo de fazer história. Vencendo ou perdendo, eles queriam ser lembrados. Na primeira fase, o arrasador selecionado de Rinus Michels varreu o seu grupo, com exceção da Suécia, única equipe além da Alemanha a não ser derrotada pela Laranja Mecânica naquele torneio.

Ao lado de Bulgária, Suécia e Uruguai, a Holanda deu show e venceu dois de seus três confrontos por boa margem: 2 a 0 contra os charrua e 4 a 1 diante da Bulgária. O empate em 0 a 0 contra os suecos não mudou muita coisa no caráter intimidador que a Holanda criava a cada partida. Os uruguaios experimentaram da loucura do futebol total na estreia, nem viram a cor da bola. Rep marcou os dois gols da Laranja.

Enquanto Cruyff ganhava fama como o líder da geração dentro de campo, trocando muitos passes, driblando meio mundo e aparecendo para finalizar, a Copa ia se afunilando. Na segunda fase, outro grupo se desenhava para definir o classificado para a decisão. A Alemanha era ampla favorita do outro lado, enquanto os holandeses ainda tinham de superar a Argentina, a Alemanha Oriental e o Brasil, defensor do título mas com uma formação bastante diferente da que levantou o Tri no México, em 1970.

O massacre de Gelsenkirschen

Primeira rodada do Grupo A, um dos quadrangulares semifinais do Mundial. Em Gelsenkirschen, Holanda e Argentina se enfrentaram no dia 26 de junho de 1974. E o placar foi o maior de toda a história dos confrontos entre eles, nas Copas: 4 a 0 para a Laranja Mecânica, uma lição de futebol dada com dois gols de Cruyff, um de Krol e outro de Rep.

A humilhação começou a ficar evidente quando os holandeses encontravam caminhos quase indecentes na defesa argentina. Em um deles, Cruyff recebeu na cara do goleiro Carnevali e aplicou um drible rápido antes de marcar. O massacre continuou aos 25 minutos, com Krol, em sobra de bola parada. O defensor mandou uma bomba rasteira para vencer o bloqueio que os argentinos faziam na pequena área. Não era nem metade do primeiro tempo e o jogo já estava definido.

Anoiteceu em Gelsenkirschen e a Holanda seguiu martelando. A etapa complementar se aproximava dos 20 e poucos minutos quando Cruyff subiu pela intermediária esquerda e inverteu a jogada pelo alto. Na área, com espaço, Rep subiu de cabeça e testou, vencendo o marcador, que até escorregou no lance. Cruyff fechou a conta após uma bela triangulação e finalização de Rensenbrink. Carnevali deu rebote e o capitão bateu do limite da área para marcar o último gol da noite.

A Argentina de Houseman, Perfumo, Wolff, Heredia e Yazalde praticamente se despedia do campeonato, sem muita chance de reagir após a goleada sofrida. Somaram apenas um ponto, vindo do empate com a Alemanha Oriental, na última rodada. A Holanda liderou a chave, bateu o Brasil e os alemães da DDR para fazer a final com a anfitriã Alemanha Ocidental. O placar de 2 a 1, de virada, consagrou os germânicos diante da fervorosa torcida em Munique.

A vingança sangrenta

Quatro anos depois, em solo argentino, a Albiceleste teve seu troco. A Holanda de Ernst Happel, apesar do vice em 1974 e de não contar com Cruyff em sua nova empreitada, não era menos assustadora, mas sofreu para se classificar na primeira fase, com três pontos. A vitória contra o Irã foi o único momento de alegria antes do empate com o Peru e a derrota amarga para a Escócia. A Argentina, por outro lado, não teve tanta dificuldade, mesmo em um grupo mais complicado. Duas vitórias contra Hungria e França, uma derrota para a Itália.

Quando foi a hora de lutar por uma vaga na final, a Holanda passeou e bateu a Áustria (5 a 1) e a Itália (2 a 1), empatando apenas com os carrascos alemães, em 2 a 2. Mesma coisa para os argentinos, que golearam o Peru (aquele jogo polêmico), mas bateram a Polônia e seguraram um empate com o Brasil, sem gols. A decisão tinha mais uma vez a Holanda contra os donos da casa. E sem a liderança de Cruyff, ficou difícil barrar o ímpeto dos argentinos, que mantiveram a lembrança do 4 a 0 de 1974 bem fresca.

A final foi truncada, brigada, e teve até uma ameaça de boicote. Willy Van Kerkhof irritou os argentinos por estar com uma das mãos engessada. Autoridades tentaram impedir que ele jogasse, e aí foi a vez da delegação holandesa ameaçar abandonar o campo. A questão só se resolveu com uma nova bandagem. O que não alterou muito o clima pesado entre as seleções: a promessa de futebol ofensivo logo se transformou em agressividade. Pancadas por cima da bola, entradas desleais e gente sangrando marcaram os 120 minutos de um verdadeiro clássico.

Entre papeis picados e rolos de papel higiênico atirados no gramado, a Argentina saiu na frente e fez a festa com Kempes. Mas Nanninga adiou o sonho local por alguns minutos, empatando de cabeça aos 37 minutos da segunda etapa. Kempes bagunçou a defesa holandesa e só não fez um golaço porque Jongbloed impediu. Entretanto, o goleirão espalmou e a bola voltou para os pés do camisa 10, que só cutucou para dar nova vantagem aos anfitriões.

Bertoni garantiu o título inédito dos argentinos em jogadaça de Kempes, que só não entrou com bola e tudo porque o colega trombou nele e ficou com a posse. Ao menos o gol saiu, assim como o grito de campeão que o povo tanto esperava em Buenos Aires.

Os novos protagonistas

 

Um novo encontro entre Holanda e Argentina só ocorreu em 1998, já que a Laranja ficou de fora das Copas de 1982 e 86 e não cruzou o caminho dos argentinos em 1990 e 94. Nesta ocasião, Bergkamp foi o nome do jogo, com um golaço no último minuto da partida de quartas de final, evitando um confronto sul-americano entre Brasil e Argentina nas semifinais.

Oito anos depois, em 2006, novamente na Alemanha, os dois fizeram o grupo da morte, que contava também com Sérvia e Montenegro e Costa do Marfim. Apesar do aspecto promissor, o que se viu em Frankfurt, na rodada final, foi um empate decepcionante em 0 a 0, contrariando todos os outros duelos históricos. Como ambos já estavam classificados, o resultado não importava muito.

O último capítulo desta história particular é de 2014, na Arena Corinthians, quando o clássico completava 40 anos. Outro empate sem gols, mas que valia vaga na decisão da Copa, contra a Alemanha. Vlaar e Sneijder desperdiçaram suas cobranças e a Argentina teve outro triunfo (4 a 2 nos pênaltis) sobre os rivais laranjas. Mas o desfecho não foi exatamente feliz para eles, no Maracanã. Se der a lógica, o próximo embate terá a Holanda vitoriosa, sabe-se lá quando, se dentro de um ano, cinco ou mais anos…

Um pensamento em “A gênese da rivalidade entre Holanda e Argentina em Copas do Mundo”

  1. A não-ida de Johan Cruyff para o mundial sediado pela Argentina tem muitas controvérsias. Pelo que já li até hoje, as informações repassadas é que ele discordava do regime ditatorial militar em vigor na Argentina. Essa é uma atitude muito nobre da parte dele, que foi um verdadeiro líder e revolucionário inteligente por onde passou, seja como jogador ou treinador; mas isso inevitavelmente me faz refletir a respeito de sua defesa da própria Holanda, seu país, mesmo com a atrocidade histórica que impugnou à África do Sul, com o apartheid e todas as colônias holandesas. Talvez porque ele não enxergasse além de si, dentro do centro, os outros com as mesmas características e importância que os holandeses, e maior os europeus, têm. Não que enxergar o outro como igual seja a saída, mas o ponto é enxerga-lo com a importância equivalente.

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