Revisitando o jogo de futebol que parou a Primeira Guerra Mundial

Relatos de que houve uma partida de futebol entre britânicos e alemães durante a Primeira Guerra Mundial ainda dividem historiadores. A versão de que os adversários interromperam as batalhas durante a Trégua de Natal em 1914 ainda é refutada. Mas a lenda permanece viva por mais de um século.

A história é das mais incríveis que já se ouviu. Durante os horrores da Primeira Guerra Mundial, em 1914, exércitos inimigos cessaram fogo durante a Trégua de Natal, proposta pelo Papa Bento XV. A ideia era que os soldados e outros oficiais pudessem respirar e relaxar em paz durante as festividades daquele ano.

Apesar da recusa do alto comando em acatar este pedido, para que o conflito não perdesse sentido, soldados levaram um clima diferente às trincheiras. A foto que você vê na abertura do texto não é oficial, é uma apenas uma reconstituição do que teria acontecido em Ploegsteert, na Bélgica, um dos locais de maior tensão armada naquele ano de 1914. Soldados britânicos e alemães batem bola em confraternização que rompeu um pouco da ferocidade que envolvia a situação na Frente Ocidental.

O ato de jogar futebol para que a guerra ficasse em segundo plano é um marco histórico de como o esporte serviu para pacificar o mundo, o que também ajuda a explicar a sua importância para a sociedade como um todo. Mais de um século depois daquela icônica partida que ilustrou o que foi a Trégua de Natal em 1914, o serviço postal britânico Royal Mail publicou a carta de um veterano inglês à sua mãe.

A amizade em contraponto à violência

O relato do Capitão A D Chater dá conta de que o seu batalhão estava em alerta quando um alemão surgiu no horizonte, com os braços erguidos. Os seus soldados hesitaram em atirar nele até que notaram a ausência de armas. O ato foi visto como uma trégua repentina, o que desencadeou atos de confraternização entre as tropas inimigas.

 

Chater ainda conta que as trincheiras dos dois exércitos ficaram lotadas de inimigos que se desejavam um Feliz Natal e queriam descansar por alguns momentos da rotina massacrante de estar sempre com a vida por um fio, ou a um tiro. Este intervalo de paz também serviu para que os regimentos enterrassem seus mortos sem qualquer risco de confronto armado.

Fotos tiradas por soldados ao lado dos inimigos também são usadas para compreender o que foi aquela Trégua de Natal. Houve troca de cigarros, de cartões postais e até autógrafos. Chater também afirma em sua carta que o plano das tropas era realizar outra trégua no ano novo, pois os alemães queriam ver as fotos tiradas na primeira ocasião. Também surgiu daí a tese de que uma partida de futebol ocorreu entre os homens que estavam na Frente Ocidental. Lindo, não?

A verdade, segundo muitos historiadores deste período, é que as tréguas não foram combinadas previamente e que períodos pequenos de paz ocorreram em vários locais e datas diferentes, não apenas nas festividades de fim de ano em Ploegsteert. Portanto, o relato de que os soldados trocaram cigarros e fotos permanece verídico, mas com alguns detalhes importantes par a se levar em conta.

O alto comando dos exércitos envolvidos não queria trégua alguma. Na verdade, não interessava a eles que houvesse paz, pois isso poderia amolecer o espírito de combate, prejudicando o desfecho das operações. O que entendemos como Trégua de Natal de 1914 foi na verdade uma iniciativa independente e isolada dos envolvidos na Frente Ocidental, algo que irritou profundamente os generais e comandantes.

Depois destes eventos, qualquer manifestação de paz foi tratada como traição e julgada em corte marcial, justamente porque estes homens comprometiam toda uma guerra se não atacassem seus inimigos nas trincheiras. O que não impediu que houvesse um sistema secreto de trégua, conhecido como “Viva e deixe viver”, que se refere a outros encontros entre tropas adversárias sem que nenhum disparo fosse feito. Isso não necessariamente quer dizer que fossem oportunidades para a prática esportiva, já que os soldados tinham preocupações maiores como enterrar companheiros.

A ordem era matar

Foto da partida de futebol durante a Trégua de Natal confirma que o evento não é só mais uma lenda

Versões sobre o tal amistoso também foram dadas por outros veteranos de guerra do exército britânico. Bertie Felstead, fuzileiro inglês presente nas trincheiras da Frente Ocidental, afirma que um colega de batalhão improvisou uma bola de couro e que dois times de 50 jogadores fizeram uma espécie de rachão sem regras, apenas para fim de exercício, no território de Ploegsteert.

Entretanto, após quase uma hora de jogo, ordens expressas os convocaram de volta para a base. Um sargento britânico ralhou com os seus comandados, dizendo que “o objetivo é vencer os alemães, não fazer amizade com eles“. E nunca mais houve um ato oficial de cessar-fogo até o fim da guerra, em novembro de 1918.

O culto ao jogo de futebol na Trégua de Natal é uma das grandes referências ao espírito de solidariedade e paz que o futebol é capaz de trazer. Aquele jogo de 1914, ainda que sem placar ou vencedor, permanece como uma demonstração de esperança na humanidade que destoa completamente do horror das 38 milhões de mortes causadas naqueles quatro anos de conflito.

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