Os dias desastrosos de Massimo Taibi no Manchester United

Contratado para ser um dos substitutos de Peter Schmeichel, o italiano Massimo Taibi deixou o modesto Venezia para estrear na pomposa Premier League. Mas em poucos jogos, sua carreira desmoronou e ele nunca mais foi o mesmo. O que diabos aconteceu com ele?

Imagine que você está tendo o grande momento da sua vida em um time pequeno de seu país. Com dez anos de carreira, o estrelato finalmente bateu à sua porta. Um gigante quer lhe contratar e você nem hesita em dizer não. Quando o Manchester United chama, é melhor aceitar. Só que você não pensa se pode estar dando um passo maior do que a perna. Aliás, no alto da confiança, isso nunca ocorre em todas as hipóteses que aparecem na mente.

O ano era 1999. O Manchester United era campeão europeu e perdia seu goleiro, o lendário Peter Schmeichel. Para substituir o dinamarquês, Alex Ferguson havia pensado no australiano Mark Bosnich, que estava em boa fase no Aston Villa. A outra opção contratada era o italiano Massimo Taibi, que estava no Venezia, mas tinha passagens pelo Milan, Piacenza e outras equipes irrelevantes no cenário local. Em dado momento, Bosnich e seu reserva Raymond Van der Gouw ficam fora de combate, por lesão. A terceira opção, Taibi, precisou ir ao jogo. A sua vida estava prestes a mudar radicalmente. Para pior.

Doze anos antes, em 1987, Massimo começava a sua jornada profissional pelo Licata. Somente quando assinou pelo Trento, em 1989, conseguiu certa relevância. Levado para o grande Milan de Arrigo Sacchi, foi reserva durante toda a temporada de 1990-91. Isso não abalou a sua confiança. O arqueiro sabia que se tivesse chance, poderia mostrar o verdadeiro potencial.

Cedido ao Como, Taibi rodou por mais dois clubes antes de chegar ao Venezia, incluindo um breve retorno ao Milan, onde conseguiu finalmente defender a meta rossonera, entre 1997 e 98. Pouco menos de 20 jogos não serviram para convencer a diretoria milanista que ele de fato servia para continuar no clube, e então, novamente, foi vendido. O Venezia fez uma campanha mediana, ficando em 11º, mas o camisa 1 se destacou. Aos 29 anos, ele finalmente sentiu o gostinho do auge.

Problemas de adaptação e raciocínio

Apresentado com a camisa 26, Taibi posou satisfeito ao lado de Alex Ferguson. A chance de sua vida estava ali, diante dos olhos. Pegar ou largar. Na ocorrência de desfalques no gol, o italiano foi chamado às pressas. E a torcida não esperava dele os milagres de Schmeichel. Apenas que ele não comprometesse quando fosse titular. A bizarrice da situação é que Ferguson estava entre Taibi e Francesco Toldo, da Fiorentina. Mas preferiu o primeiro, por acreditar que Massimo era mais experiente.

Seria trágico demais esperar que logo na estreia descobrissem que ele não era tudo isso. Ou que estava no lugar errado e na hora errada. Essas pequenas peças pregadas pelo destino fizeram de Taibi uma vítima do acaso. Ele jogou apenas quatro partidas, pouco para analisar um profissional. Mas com falhas tão clamorosas, era difícil defender sua permanência. O pesadelo de Massimo no United começou contra o Liverpool, em 11 de setembro de 1999, pela Premier League.

Os Red Devils, enquanto visitantes, saíram na frente com 2 a 0 no placar. Mas o Liverpool reagiu e fez o primeiro com Hyypia, após saída ruim de Taibi pelo alto. Eventualmente, o goleiro se recuperou da falha e fez defesas cruciais para salvar o seu time da derrota. Os visitantes triunfaram por 3 a 2. Massimo saiu de campo como o melhor da partida, provando nos primeiros 90 minutos que Ferguson estava certo ao escolhê-lo em vez de Toldo.

O segundo dos quatro jogos de Taibi foi um pouco mais tranquilo: empate em 1 a 1 com o Wimbledon, com direito a gol de Jordi Cruyff pelo United, em Old Trafford. Líder na classificação, a equipe de Ferguson recebeu o Southampton de Matt Le Tissier na rodada seguinte. Foi aí que o barraco de Taibi desabou, em 25 de setembro de 1999.

Os Saints saíram na frente, com Pahars, um gol digno de placa. Mas Sheringham e Yorke viraram para os donos da casa. O segundo gol visitante veio dos pés de Le Tissier e de um frangaço de Taibi. Um chute fraco e despretensioso do craque vinha rasteiro na área. Massimo se abaixou para agarrar e deixou passar, sofrendo um gol vergonhoso.

Abalado, Taibi perdeu totalmente a confiança, apesar do United ter retomado a vantagem. Ele sofreu o terceiro gol em um lance comum, mas com péssimo posicionamento. A mídia inglesa falou daquele frangaço por semanas. Pior ainda quando ele fez sua última aparição no gol do clube, na rodada seguinte.

Taibi afirmou, anos depois, que recebeu total apoio do elenco e do treinador. Disse que teve problemas com o idioma, com a adaptação à Inglaterra e que isso pesou para o seu insucesso na ocasião. Mas Taibi não ficou marcado só pelo gol de Le Tissier. Sua despedida, contra o Chelsea, em Stamford Bridge, foi o último capítulo de um pesadelo repleto de turbulências.

Em 2 de outubro, o United de Ferguson visitou o Chelsea em Stamford Bridge, pela décima rodada. E tomou um vareio para nunca mais esquecer, por 5 a 0. Poyet (2x), Sutton, Berg (contra) e Morris marcaram para os Blues, que definitivamente colocaram a pá de cal na carreira inglesa de Taibi, o pobre goleiro que calhou de estar em dias ruins quando experimentava o ponto alto de sua vida.

Analisando o clipe com os melhores momentos de Chelsea 5-0 Manchester United, não se pode dizer que Taibi levou nenhum frango. Assim como não dá para absolvê-lo de sair mal em pelo menos três deles. O último, de Morris, foi um chute muito rápido que passou por baixo das pernas do goleiro. Arrasado pela tarde terrível, ele só teve como alegria genuína o título do Intercontinental, ao fim de novembro, contra o Palmeiras. E vendo tudo do banco de reservas, enquanto Bosnich fechava o gol e se assegurava como titular.

Massimo foi emprestado ao Reggina e ficou por lá, como titular e capitão, mas sem o mesmo reconhecimento de antes. E até fez história com um gol de cabeça contra a Udinese. Após longa passagem pelo Torino e transferências para Atalanta e Ascoli, Taibi se aposentou em 2009, aos 39 anos, uma década depois de virar motivo de chacota na Inglaterra.

Ele não passou vergonha outra vez, mas jamais atingiu o patamar que se esperava quando deixou o Venezia em 1999. Herói, mesmo, apenas para o Reggina. Muito pouco para o homem que era mais bem cotado do que Francesco Toldo para assinar com o Manchester United…

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