As promessas perdidas do Zenit campeão europeu em 2008

A edição de 2008 da Copa Uefa teve algumas surpresas até a decisão entre Zenit e Rangers. Aquele título, com todas as suas polêmicas, marcou uma fase dourada dos russos, que contaram com alto investimento para montar um timaço. E a conquista da Europa foi o melhor jeito de embalar a caminho da grandeza.

O Zenit deu um passo enorme para se consolidar como força continental durante a segunda metade da década de 2000. Liderado por Arshavin, Pogrebnyak e com peças importantes como Zyrianov, Denisov, Fayzulin e o capitão Tymoschyuk, o time de São Petersburgo se reergueu com a ajuda da Gazprom, dona de monopólio no ramo da distribuição de gás pela Europa.

Não há como formar um time vencedor sem gastar nada. A Gazprom apostou que o Zenit seria seu principal case de sucesso se tivesse um plano bem estruturado por trás. Numa edição da Copa Uefa marcada por surpresas, a equipe celeste saiu do quarto lugar no Campeonato Russo para a competição europeia. O salto de qualidade se provou fundamental para o plano de dominação nacional nos anos seguintes.

A caminhada começou na Europa contra os eslovacos do Zlaté Moravce, na segunda fase. Com duas vitórias confortáveis, o Zenit somou 5 a 0 no agregado. Antes de adentrar a fase de grupos, os russos bateram de frente com o Standard Liège, mas novamente tiveram facilidade para avançar, com destaque para o triunfo incontestável por 3 a 0 no Petrovsky Stadion, em São Petersburgo.

Pogrebnyak marcou 10 gols na campanha e terminou como campeão e artilheiro da Copa Uefa, ao lado de Luca Toni, do Bayern

Nos grupos, houve enorme dificuldade para superar uma chave ao lado de Everton, AZ Alkmaar, Nuremberg e Larissa, da Grécia. Foram apenas cinco pontos em quatro partidas, mas como a competição previa classificação dos três melhores colocados de cada grupo, o Zenit sobreviveu, atrás de Everton e Nuremberg. E a vitória única desta fase aconteceu contra o Larissa, por 3 a 2, na Grécia. Pogrebnyak, Zyrianov e Tekke fizeram os gols.

A torcida não estava muito empolgada com o desempenho nos grupos, mas o Zenit tinha de continuar acreditando. Na fase eliminatória, o Villarreal foi um rival acirradíssimo, como a equipe de Dick Advocaat nunca havia experimentado no torneio. Em casa, Pogrebnyak fez o gol solitário que deu a vantagem ao Zenit. Fora, em El Madrigal, o Submarino Amarelo devolveu a derrota e fez 2 a 1 no placar. Pogrebnyak novamente foi decisivo e fez o gol que valeu o critério de desempate no confronto. Os russos estavam nas oitavas, para enfrentar o Marselha.

Niang e Cissé castigaram o Zenit no Vèlodrome. No marcador, 3 a 1 para os franceses, que praticamente estavam celebrando a classificação para o estágio seguinte. Mal sabiam eles que o gol de Arshavin seria a carta na manga dos visitantes. No Petrovsky, para matar ou morrer, os donos da casa atiraram sem misericórdia. Adivinha quem foi o artilheiro? Ele mesmo, Pogrebnyak, com uma dobradinha, garantindo um 2 a 0 memorável para o Zenit, que ganhava ainda mais força na competição.

Depois disso o Zenit passou por dois alemães até chegar à sonhada decisão. Toda a dificuldade estava concentrada na semifinal. O Bayer Leverkusen não ofereceu grande disputa, sofrendo uma derrota inacreditável por 4 a 1 em seu estádio. Arshavin, Pogrebnyak, Anyukov e Denisov balançaram as redes dos Aspirinas, em grande estilo. Na volta, Bulykin fez o gol do Bayer, que venceu, mas passou longe de reverter o agregado.

Uma partida suspeita

O Bayern é apontado como favorito em qualquer jogo que não envolva Real Madrid e Barcelona. Poderoso como é, e ainda disputando a Copa Uefa, quem não teria medo de cruzar com os bávaros? Pois é, o Zenit não teve. Em Munique, Ribéry abriu os trabalhos e viu Lúcio marcar contra para empatar. A coisa mudou completamente de figura na Rússia, com um passeio histórico do Zenit, por 4 a 0. Por muitos anos, o resultado foi cercado de suspeitas e houve até uma operação policial para averiguar irregularidades na partida.

Mais de 20 membros de uma máfia russa foram presos na Espanha após investigação. O promotor espanhol Baltazar Garzon, cabeça da Operação Troika, acreditava piamente que o Bayern aceitou vender o resultado em troca 50 milhões de euros vindos da organização mafiosa Tambovskaya. Gennady Petrov, líder da facção, revelou que de fato entrou em acordo com os alemães para que o placar do jogo na Rússia fosse 4 a 0. Pogrebnyak (2x), Zyrianov e Fayzulin marcaram os gols, em tarde infeliz de Oliver Kahn, que nunca mais esteve em outro encontro internacional.

Os dois clubes negaram o acordo e uma posterior investigação na Alemanha não encontrou provas suficientes para sustentar a tese de manipulação de resultado, portanto, não houve sanções. Com vaga garantida na decisão no estádio City of Manchester, o Zenit ainda teria de passar pelo Rangers para se sagrar campeão da Europa. Tarefa não muito desafiadora se comparada ao feito contra o Bayern e contra o Marselha.

Ouro derretido

Arshavin: protagonista e grande craque saído do Zenit. Mas o baixinho não teve uma carreira como se esperava

Arshavin foi o melhor em campo em uma noite que não teve gols de Pogrebnyak, artilheiro da Copa Uefa, com 10 tentos. Os heróis do Zenit foram Denisov e Zyrianov (nos acréscimos do segundo tempo), que marcaram para aliviar a tensão que já se criava com o empate nos primeiros 45 minutos. O Rangers bem que tentou conter o ímpeto ofensivo dos russos, mas falhou quando foi bombardeado na etapa complementar.

Em 14 de maio, o Zenit se tornava o último russo campeão europeu, igualando o feito do CSKA Moscou, que levantou o caneco em 2005 com um belo time de Zhirkov, Vágner Love e Daniel Carvalho. Depois do título continental, o Zenit foi três vezes campeão da Liga Russa, marcando presença constante no principal torneio de clubes da Europa. E hoje é uma potência no seu país.

Aquele era o auge da carreira de Arshavin e Pogrebnyak, que brilharam como uma dupla letal ao longo da competição. Muitos vão se lembrar de como Arshavin também viveu grandes momentos na Eurocopa de 2008. Mas quase uma década depois da grande façanha do Zenit de Advocaat, o que fica é a sensação de que o fim de carreira destes astros foi melancólico, decepcionante. Arshavin é o maior exemplo disso, famoso por um ano brilhante que jamais se repetiu.

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