A excentricidade do primeiro título da história do Bayer Leverkusen

Quando se fala em Bayer Leverkusen, logo associamos uma imagem de um clube azarado, amarelão, fama adquirida após tantas derrotas e vices, especialmente na década de 2000. Experiente no quesito “perder campeonatos para si mesma“, a equipe levantou um caneco internacional em 1988, antes mesmo de se sagrar campeã dentro da Alemanha.

Com a campanha vitoriosa na Copa UEFA em 1987-88, os rapazes da farmácia entraram no seleto grupo de clubes alemães a ter conquistas continentais. Mas a história é um pouco mais complexa e interessante do que isso. Imagine que seu time nunca foi campeão de nada, daí, um belo dia, se classifica e vence um torneio continental. Isso quase aconteceu com a Ponte Preta em 2013, na Copa Sul-Americana. Mas o pioneiro desta façanha é mesmo o Leverkusen de Tita e Cha Bum-Kum. Então, vamos por partes.

O sexto lugar na Bundesliga em 1986-87 credenciou os rubro-negros a para a segunda competição de clubes mais relevante da Europa. Na teoria, não era lá um plantel de botar medo nos adversários. Na prática, muito menos. Capitaneados pelo veterano Wolfgang Rolff, com passagens por Hamburgo, Colônia, Strasbourg e Karlsruher, o Bayer ainda tinha como trunfo o brasileiro Tita (ele mesmo), o grego Minas Hantzidis e o lendário coreano Cha Bum-Kum, um cracaço de bola.

Quando o Leverkusen estreou fora de casa contra o Austria Viena, os torcedores viram um insosso empate sem gols. Mas foi no jogo de volta que os germânicos se sobressaíram em relação aos austríacos, com um sonoro 5 a 1 em casa. Naqueles tempos, vale lembrar, a BayArena era chamada de Ulrich Haberland Stadion. Para a fase seguinte, o adversário dos Aspirinas foi o Toulouse, liderado por Stopyra e Rocheteau, astros franceses daquela década.

Apesar de ter oferecido um duelo acirrado contra os alemães em seus domínios, com o placar de 1 a 1, o Toulouse ficou pelo caminho perdendo fora de casa por 1 a 0 (gol de Schreier), definindo o classificado por margem mínima. Naturalmente, o grau de dificuldade foi aumentando conforme o torneio se afunilava. E na terceira fase, a pedreira para o Leverkusen falava holandês e morava em Roterdã. O Feyenoord tornou as coisas um pouco mais complicadas para Tita e seus companheiros. O equilíbrio prevaleceu nos 90 minutos do estádio De Kuip: o 2 a 2 foi um resultado justo para dois oponentes que buscaram o ataque.

O Leverkusen não se assustou e fez a lição de casa, conseguindo um suado triunfo por  1 a 0 graças a Götz, administrando a situação para avançar às quartas de final, contra o Barcelona. Aí o bicho pegou. Como sempre, os blaugranas tinham um elenco forte, consistente e com certo toque de seleção, em virtude de seus craques de nível internacional. Desafiando a própria limitação, o Leverkusen empatou sem gols em casa e partiu para jogar o tudo ou nada no Camp Nou, em um ato inconsequente que lembra muito quando jovens resolvem transar nos filmes de terror.

Tita, o salvador

No entanto, a estrela de Tita brilhou para decidir a favor dos Aspirinas. Ele havia sido campeão mundial pelo Flamengo em 1981 e em 1983 pelo Grêmio. Quando chegou ao Leverkusen, em 1987, ficou por pouco tempo. O bastante para se tornar ídolo da torcida e conquistar a Copa UEFA. Numa tarde onde a torcida do Barça faltou e deixou o Camp Nou praticamente vazio, o jogo estava truncado e não oferecia muitas emoções. Na segunda etapa, no entanto, Tita anotou o gol solitário dos visitantes após trombada de Zubizarreta com Götz, carimbando a vaga para as semifinais.

Faltando quatro jogos até a taça, o Leverkusen encarou um conterrâneo na fase seguinte. O Werder Bremen vivia grande fase e sonhava com a conquista da Europa. Mas o Bayer fez o famoso arroz com feijão para alcançar seu objetivo e impedir a arrancada alviverde: 1 a 0 em casa (Reinhardt) e empate sem gols no Weserstadion para consolidar o papel de finalista. E então, mais um catalão pintava como rival, o Espanyol. É surreal imaginar que os Periquitos cheguem mais longe que o Barça em uma competição europeia, o que reforça a bizarrice do futebol naqueles tempos.

A façanha

Veja bem, isso não quer dizer o Espanyol não era lá um adversário fácil de ser batido. Treinado pelo polêmico Javier Clemente, o time catalão desmontou o sistema defensivo quase infalível do Bayer, marcando três gols com Losada (2x) e Soler, colocando umas das mãos no caneco. O placar de 3 a 0 no Sarriá foi um duro golpe na confiança dos alemães. Afinal, quem conseguiria reverter uma desvantagem deste tamanho?

O que nos leva a 18 de maio de 1988, quando o clima era de preocupação para os comandados de Erick Ribbeck. Forçado a devolver a surra que levara em solo espanhol, o Bayer entrou em campo para fazer uma atuação épica. Depois de um primeiro tempo tenso e com pressão em cima da defesa espanhola, Tita aproveitou o cruzamento de Cha e uma falha de Golobart para inaugurar o marcador, aos 11 da segunda etapa. Era possível. Pouco depois, Tita foi substituído e acompanhou aflito do banco o clímax da decisão.

Com maestria, Täuber (o substituto de Tita) recebeu na esquerda e disparou. Mandou a bola na área e achou Götz, que mergulhou para testar e marcar o segundo da noite. O estádio do Leverkusen tremeu. Faltava um gol para empatar o agregado. De forma heroica, após falta cobrada por Rolff, o coreano Cha subiu mais alto que os oponentes e fez o que parecia improvável antes do apito inicial, 3 a 0. Vieram então os temíveis pênaltis.

O goleirão Vollborn parece ter aprendido com as técnicas de Bruce Grobbelaar, ícone do Liverpool, que desestabilizava rivais com dancinhas toscas. Foi Vollborn a peça-chave para a vitória, sobretudo depois que Falkenmayer abriu a série dos Aspirinas com um chute fraco, defendido por N’Kono. Mais uma vez, os mandantes tinham de correr atrás no placar. A sorte é que os catalães não calibraram bem as pernas e sentiram o peso da ocasião.

Urquiaga, Zuñiga e Losada falharam. O primeiro acertou o travessão, o segundo tremeu na base com as dancinhas de Vollborn e o último chutou pelo alto. De virada, por 3 a 2, o Leverkusen finalmente conhecia o sabor de levantar uma taça. Que bizarramente, veio em título continental, antes mesmo que eles pudessem dominar a Bundesliga ou a Copa da Alemanha. Spoiler para você que viajou no tempo: o Leverkusen ainda não conseguiu ser campeão alemão. E seu outro troféu no salão nobre é da Copa da Alemanha, em 1993. O que torna essa história da Copa Uefa ainda mais excêntrica. Gostamos assim.

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