Aldair, o último zagueiro brasileiro fora de série

A classe incomparável de Aldair rendeu muitas alegrias aos torcedores da Roma e da Seleção Brasileira. Capaz de barrar ataques adversários e iniciar contragolpes com muita precisão, o ex-zagueiro marcou época por onde passou.

Se você não viveu ou não lembra de ter visto jogos dos anos 1990, provavelmente Aldair não quer dizer muita coisa na sua memória afetiva. Por outro lado, se você tem seus 27, 28, ou mais de 30 anos, o defensor é uma pedra fundamental na construção do respeito e da admiração que temos em relação ao futebol.

Aldair foi um fenômeno. Porque entre tantos zagueiros que ganharam fama no Brasil e com a camisa da Seleção, foram pouquíssimos os que conseguiam executar sua função com tamanha classe e frieza. Quando se pensa em zagueiro clássico, a primeira imagem que vem à cabeça é o botineiro, o quebra-canelas, o trombador. O baiano de Ilhéus não fazia parte deste grupo, não, jamais.

Oficialmente, a carreira do zagueiro durou de 1986 a 2010, encerrando apenas depois de alguns meses no Murata, de San Marino. Mas Aldair nunca esteve pronto ou disposto a largar o futebol. Como bom filho adotado do Rio de Janeiro, é adepto do futevôlei e das peladas entre amigos. Outra coisa que Aldair ajuda a desmistificar é que todo zagueiro tem um pouco de peladeiro. Aquele cara que pode até ser sério, mas não nega um bom chutão de vez em quando. E justiça seja feita: quando se é amador, o cara só joga na zaga por não ter competência, técnica ou talento suficiente para se encaixar no meio ou no ataque. Pior ainda se for para o gol.

Se alguém um dia fizesse um almanaque para zagueiros, Aldair teria de estar na capa ao lado de Gamarra, já que ambos são a última referência que temos de paredões defensivos, caras que no mano a mano se transformam em tanques de guerra.

O canhão de Aldair não era disparado com frequência. Com isso, não queremos dizer que ele não tivesse força para disputar a bola no corpo ou no pé de ferro. Admirar o estilo do brasileiro é algo como testemunhar a perfeição de fundamentos de um cara nascido para fazer o que lhe rendeu fama. Um perseguidor implacável de atacantes, que não desistia até ser batido ou levar a bola consigo em uma dividida. Não importava quem estivesse do outro lado.

E os carrinhos, claro, são as obras primas de um gênio da arte da intimidação, o último recurso para desarmar um rival, desafiando a própria capacidade e arriscando uma lesão grave em um colega de trabalho. Isso, claro, não acontece quando se leva só a bola. Incrédulo, o atacante se atira e simplesmente não acredita que teve sua carteira batida. Aldair se levanta e segue com o jogo, com a maior naturalidade possível. Ele cumpriu à risca com a sua obrigação.

Além disso, podemos dizer seguramente que Aldair sempre foi um bom passador. Um zagueiro, líbero, cão de guarda e muralha com espírito de meio-campista. Com cacoete de centroavante a cada vez que recebia uma bola dentro da área, pelo alto ou pelo chão. Em termos objetivos, era um jogador completo, com domínio nos principais fundamentos, 1001 utilidades.

No Brasil, o culto a Aldair ajuda a explicar um pouco do que a geração de 1994 representa para o povo. O time que tirou a Seleção de amargos 24 anos sem títulos em Copas, que alçou Romário e Bebeto para eternidade e consagrou outros atletas. Aldair, na verdade, nem teve tempo suficiente para fazer história por clubes brasileiros.

Revelado pelo Flamengo em 1986, saiu três anos depois como grande promessa para o Benfica, campeão da polêmica Copa União em 1987 (não entraremos nessa discussão). Da Copa América de 1989 em diante, só saiu de cena na Seleção em 2000, já com idade considerável e sendo vaiado pela torcida por uma falha contra o Uruguai. Algo que um ídolo deste tamanho jamais mereceria.

Ele esteve em três Copas, de 1990 a 98. Foi campeão da Copa América em 1989 e 97 e também venceu a Copa das Confederações em 97, ao fim de um ano memorável para o Brasil, que prometia muito, inclusive o penta, mas precisou esperar quatro anos mais. Entretanto, a torcida que mais tem a agradecer Aldair é a da Roma. Foram 13 anos de serviços prestados, sempre em alto nível, com paixão e muita entrega.

Com ele, a equipe da capital italiana venceu uma Copa da Itália em 1991 e o lendário scudetto em 2001, o último conquistado pela Roma. Os 330 jogos, a capitania e a garra em campo fizeram dele o primeiro atleta da história do clube a ter seu número 6 aposentado. Nenhum outro teve esta honraria antes dele. Em 2013, o brasileiro aceitou ceder sua camisa para um sucessor de outra posição, o holandês Kevin Strootman. E para se ter uma ideia da simplicidade do ex-zagueiro, ele nunca achou justo que sua camisa fosse imortalizada, enquanto as de outros craques romanistas como Bruno Conti, Roberto Pruzzo, Paulo Roberto Falcão e Agostino Di Bartolomei tivessem sucessores.

Depois da Roma, Aldair viveu outros desafios no futebol. Assinou com o Genoa em 2003-04, com direito a despedida emocionante no Olimpico. Em 2005, assinou com o Rio Branco do Espírito Santo e encerrou seu primeiro ciclo como profissional. Voltou pouco depois, em 2008, para defender o Murata, de San Marino, clube com o qual foi campeão nacional em 2008. A trajetória de Aldair só se encerrou mesmo em 2010, quando ele seguiu para o futevôlei.

Em terra de cego, quem tem um olho é rei. E em um país com tantos zagueiros oscilantes, fanfarrões e com consciência tática nula, Aldair reina com folgas, sem sorrisos de bom moço. Mas é aquela coisa: comparar Aldair com o que temos hoje também é um pouco desleal. É como colocar uma Mercedes de Lewis Hamilton para competir com um Uno Mille ’95.

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