Carlos Kaiser: Quando o futebol foi um lugar seguro para os malandros

História absurda de malandragem fez de Carlos Kaiser um célebre caso de farsante no futebol brasileiro, após a sua aposentadoria. Depois que revelou como conseguia vagas em clubes profissionais mesmo sem jogar bola, o trambiqueiro se transformou em herói para uns e motivo de vergonha para outros. A trajetória polêmica de Carlos vai virar documentário.

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Se você foi um ótimo leitor da Todo Futebol nesta semana, deve ter notado que focamos em tratar de casos famosos de picaretagem. Jogadores que passaram a vida ou ganharam 15 minutos de fama por enganar vários clubes. Importância desportiva, mesmo, eles não têm. É a história que acaba sendo mais envolvente.

Carlos Henrique Raposo. Nascido no Rio Grande do Sul e criado no Rio de Janeiro. Esperança da família de render algum dinheiro no futebol. Mas havia um problema neste plano. Ele nunca quis jogar bola, de fato. A lenda de Carlos Kaiser começa em meados dos anos 1970, quando ele atuava por equipes juvenis do Botafogo.

Como um grande personagem comparável aos do mundo da literatura, parte da narrativa que o envolve pode muito bem ser questionada por não parecer verossímil. Talvez este seja o charme em Kaiser. Você não pode ter certeza se é tudo verdade, mas o enredo é bem interessante. Este cara que surgiu como a salvação da família começou a ganhar dinheiro cedo, diz ele. E vítima de empresários tubarões, agentes cretinos de um futebol cada vez mais milionário, Carlos acabou passando de time em time como forma de render grana aos seus representantes. Foi assim que ele aprendeu a se enfiar em diferentes clubes, sempre dando o seu jeitinho.

Carlos não nega que o futebol não era seu interesse. O que ele queria era a festa, a badalação, o dinheiro, a diversão. E nesse estilo de vida, o atleta se esbalda, tendo todas as regalias que um astro pode experimentar. Por outro lado, Kaiser nunca foi exatamente famoso quando seguia sua carreira. Como nunca jogava, estava em jornada atrás de alguém que quisesse lhe pagar para ficar encostado, treinando, sem precisar entrar em campo.

Carlos, com Gaúcho e Renato Portaluppi: convivência com craques fez dele um jogador por aproximação. E ele se beneficiou muito disso

Diferentemente de Aly Dia e Alessandro Zarrelli, nossos outros farsantes retratados esta semana, Carlos tinha um bom trânsito dentro do futebol. Conhecia dirigentes e jogadores famosos. E por causa deles, encontrava portas abertas, era aquele atleta que chegava discretamente como contrapeso em uma negociação, uma espécie de adaptação do conceito de “troco com balinhas”. Nessa toada, Kaiser passou por Botafogo, Fluminense, Bangu, Vasco, América, Puebla, Ajaccio entre outras equipes menores ao redor do mundo.

Safo, sempre conseguia escapar da temida situação de entrar em campo. Enquanto muitos jogadores sonhavam com uma oportunidade, Kaiser fugia dela. Por anos, repetiu o plano discreto de ficar por alguns meses em um clube, recebendo para não jogar. A saída, conta ele, era fingir lesões e ficar o maior tempo possível no Departamento Médico, até ser dispensado. Nos anos 1980, para a sorte do nosso mutreteiro, era muito difícil trocar informações e qualquer um poderia se passar por qualquer coisa. Especialmente um jogador de futebol, com os contatos certos e a aparência de um boleiro.

A proximidade com outros atletas fez dele uma espécie de figura indispensável nos vestiários. Sabe aquele cara bom de truco, campeão do videogame, contador de piada, imitador de passarinho? Kaiser era o festeiro, um simpático malandro que queria desfrutar dos prazeres de um futebolista. O futebol não precisa de mais pilantras. E nem precisou de Kaiser, de certo. A história divide opiniões. Os mais críticos, obviamente, julgam Carlos por sua capacidade de levar adiante as armações.

Infelizmente para o Brasil, a malandragem caminha de mãos dadas com a honestidade, de vez em quando até dando tapinhas nas costas. E ele não foi o último a tentar se perfazer no mundo da bola por meio de mentiras. É de fato uma lenda divertida, e por mais que não seja um exemplo positivo, Kaiser é um personagem com riqueza de detalhes. Que chegou onde queria muito mais por astúcia e esperteza do que por talentos próprios.

Chamado por colegas de “171”, Kaiser queria mesmo era ser personal trainer

Podemos chamar alguém que só quer divertir de má pessoa? Difícil cravar algo assim. Ainda mais quando Kaiser também sempre fez questão de ser um grande companheiro. O que mais se fala sobre ele no meio é que era um cara “gente fina”. Como muitos vigaristas, ele construiu uma reputação positiva, que podia até estar sacaneando clubes ao redor do país, mas não era uma pessoa difícil de lidar. Até mesmo porque, não conhecemos muitos pilantras intragáveis. Parte do jogo de cena para enganar a todos é ser cordial, simpático e amável. Kaiser entendeu isso muito cedo.

No Bangu, em certa feita, estava prestes a ser chamado para o jogo, o time perdia para o Coritiba, conta Kaiser. Temendo ser descoberto, aproveitou-se do fato de foi xingado por alguém na arquibancada para começar uma briga. Foi expulso antes mesmo de entrar. Castor de Andrade, o benfeitor, foi averiguar o que tinha acontecido e ouviu que Kaiser estava defendendo o patrão de ofensas sobre sua dignidade.

O grande Ricardo Rocha, seu conhecido, lembra como Kaiser se comportava em campo quando não tinha como escapar: se escondia atrás da marcação, ia para o lado oposto da bola. O verdadeiro craque sente saudade da bola quando está longe dos seus pés. É com ela que constrói suas jogadas, realiza sonhos, entra para a eternidade. Kaiser não. Kaiser tinha medo da bola, pois ela poderia revelar ao mundo o seu verdadeiro papel.

As mentiras não ficavam só dentro dos vestiários ou dos campos de treinamento. Na noite, Kaiser também deu seus pulos. Renato Portaluppi conta que foi barrado em uma boate porque os seguranças afirmaram que ele já havia entrado. Kaiser se passou por Renato e correu para o abraço da mulherada.

Recorte de jornal que fala sobre o veterano Kaiser em seus tempos de Ajaccio. O golpe também foi internacional

O fim da linha foi no Ajaccio, beirando os 40 anos. Depois de ganhar muitas coisas sendo bom de bico, o lambari ensaboado resolveu se aposentar e seguir carreira como personal trainer, mais especificamente ajudando mulheres fisiculturistas. Depois de tudo isso, não se pode dizer que Kaiser é simplesmente um golpista sem talentos. É preciso ter jogo de cintura para enganar tanta gente por tanto tempo.

Ele nunca foi jogador, que dirá um campeão. Suas maiores vitórias se deram em cima na inocência de quem acreditou na sua palavra. Entretanto, não pintemos ele como um vilão de baixo orçamento. Kaiser foi um malandro de almanaque, claro, mas que nunca quis prejudicar ninguém. Não que isso diminua a sua culpa nas farsas. Mas há aí um fator carismático nas suas jogadas.

Kaiser também tentou colar em si mesmo uma imagem de Robin Hood da bola, o vingador dos jogadores enganados e prejudicados pelos clubes. Mas esse drible ele não conseguiu dar. No mundo dos espertos, Carlos Henrique Raposo foi Rei.

Na vida real, poucos levam a sério a pessoa por trás do disfarce de craque. Quer dizer, entre estes poucos está o diretor inglês Louis Myles, que pretende lançar até 2018 o filme “Kaiser, o grande futebolista que nunca jogou futebol“. Quem sabe assim o mundo não conheça o nosso Carlos Kaiser como a adaptação mais recente e empolgante do clássico Macunaíma.

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