Existem picaretas no futebol. E existe Alessandro Zarrelli, mutreteiro profissional

Italiano inventou que havia sido jogador de vários clubes até tentar passar a perna em equipes de Gales e da Irlanda do Norte. O caso de Alessandro Zarrelli ficou famoso quando um programa de TV desmascarou o falso jogador, um craque na arte de engambelar os outros.

É claro que você, amigo leitor, também já deve ter sonhado em ser jogador de futebol. Quem nunca sonhou com isso? Contudo, existe um limite claro entre os que conseguem exercer a profissão e os que não passam sequer da primeira peneira no time do bairro. Admito que, em um passado não tão distante assim, já tentei arrumar uma vaguinha em um clube da Austrália. Era 2013, eu trabalhava na Trivela e resolvi mandar um e-mail para o Newcastle Jets.

No dia seguinte, recebi uma resposta da secretária, pedindo currículo, histórico por clubes e alguns arquivos em vídeo para demonstrar minhas capacidades. O medo de cometer alguma fraude me impediu de seguir com a empreitada. Não que eu planejasse enganar alguém. Se fosse adiante, seria com a cara limpa. Até porque, estava voltando a jogar bola depois de sofrer uma lesão nos ligamentos do tornozelo, e os quatro anos parado entre 2007 e 2011 me forçaram a reaprender tudo.

Agradeci à Monique Valentine pela resposta, expliquei minha condição, o fato de ser jornalista e sequer ter um plano para viajar até a Austrália. Acabou aí. Hoje em dia, talvez fosse mais fácil cometer uma maluquice dessas e arrumar uma boquinha em um clube mequetrefe em um país esportivamente periférico na Europa. Talvez. Não insisti o bastante e sei que o meu limite é a pelada semanal entre amigos, algum torneio festivo, e só.

Por outro lado, o fato de ser ruim e incapaz de seguir carreira profissional nunca impediu o italiano Alessandro Zarrelli de tentar a sorte. Mas ele foi um pouco além do limite entre a verdade e a picaretagem. Zarrelli tomou o caminho mais perigoso que um atleta aspirante pode encarar: o da mentira.

Vocês devem ter lido aqui no site a história de Aly Dia, um senegalês que resolveu passar um trote em Graeme Souness para arrumar um teste no Southampton. A diferença entre Dia e Zarrelli é que o segundo não quis ir tão longe para ser desmascarado. No alto de sua juventude, Alessandro enxergou uma oportunidade: mandou cartas falsas se passando por um empresário ligado à Federação Italiana (FIGC) que oferecia um promissor atleta a clubes galeses e norte irlandeses.

A mentira era a seguinte: Zarrelli alegava por meio destas cartas e de seu falso agente (o fantasma Matteo Colobase) que havia passado por categorias de base do Sheffield United e do Rangers. Bem mais discreto do que a farsa de Aly Dia, que tentou ir direto para a Premier League. A verdade é que Alessandro só teve alguma oportunidade nos juvenis do modesto Asti, que hoje pena para sobreviver na quarta divisão italiana. Não foi o suficiente para convencer qualquer clube que ele merecia uma chance como profissional.

A fraude se sustentou pelo fato de que Zarrelli se vendia como um atleta em intercâmbio promovido pela FIGC. Os clubes recebiam o tal fax com uma proposta: ofereciam um tempo de testes para Zarrelli e podiam firmar parcerias com agremiações italianas, envolvendo amistosos e troca de jogadores no futuro. Um amigo de Alessandro, em Asti, emitia os faxes e mandava as cartas para os clubes-alvo. Daí então o golpista, em solo inglês, terminava de tramar os detalhes para tentar arrumar um contrato. Por dois anos, Alessandro saiu de porta em porta oferecendo seus serviços. E muita gente caiu na sua lábia.

De 2004 a 2006, ele conseguiu defender equipes amadoras em Belfast e em Stevenston, na Escócia. Foi quando o canal inglês Sky One investigou a fundo sua história para o programa “Superfakes”, uma espécie de caça a golpistas. Zarrelli foi fisgado por uma falsa proposta de um clube inglês, e então foi confrontado por suas mentiras.

A audácia dele foi tamanha, que em certo ponto do programa, foi mostrada uma mensagem abusiva dele para os produtores, onde o pseudo-jogador “agradecia pela fama proporcionada”. Naturalmente, foi um belo tiro no pé. Ele nunca passou mais de um ano em nenhum time, já que não tinha como convencer a comissão técnica de que era um atleta relevante.

A reputação do italiano minguou logo após a exibição do programa. A passagem mais chocante é quando descobrimos sobre sua estadia no Bangor City, de Gales. Os cartolas acharam estranho que ele pedia um salário, contrariando a informação da carta inicial que indicava que a FIGC iria arcar com os pagamentos. Depois que a própria entidade negou a existência de Zarrelli em seus arquivos, ele foi impedido de treinar. Alessandro nunca entrou em campo para uma partida com o Bangor, mas contou com a mamata de ficar hospedado em um hotel da cidade, indicado pelo clube. Quando foi embora, deu um calote e saiu sem pagar a conta. Ah, danado.

O Sheffield Wednesday quase caiu no mesmo conto, oferecendo pouco menos de uma semana de testes a Zarrelli em 2003, mas ele foi dispensado sem passar nem perto da integração ao elenco. Para o azar do italiano, o treinador do Bangor City tinha contatos no Wednesday e nos Rangers, descobrindo que o jovem estava enganando a todos em Gales. Sua queda era iminente. O esquema ficou tão famoso que todos os clubes ingleses em nível profissional fizeram um acordo de não contratar Zarrelli se fossem abordados por ele.

A mutreta quase rendeu um acordo com o Wimbledon FC, que viu no italiano uma bela jogada de marketing, logo  após o estouro do Superfakes. Entretanto, ele jamais foi apresentado. Com a revelação do escândalo, o máximo que Zarrelli conseguiu foi jogar na várzea escocesa, rodando sem parar ou estabelecer um laço com qualquer cidade. Aos 32 anos e arrependido por ter começado do jeito errado, Zarrelli soma 25 clubes em pouco mais de 13 anos de carreira. O crime não compensou e ele não obteve nenhum lucro considerável com o plano.

O destino poderia ser diferente se Alex tivesse relação com empresários ou conhecesse jogadores de verdade. Mas a sua história será lembrada por poucos, e não da forma como ele esperava quando iniciou sua controversa trajetória. Em nome de todos os pernas de pau, encerro a questão: o problema não é ser um péssimo jogador. É ser mentiroso.

1 pensamento em “Existem picaretas no futebol. E existe Alessandro Zarrelli, mutreteiro profissional”

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *