O famoso trote que deu a Aly Dia a chance de jogar pelo Southampton

Senegalês tentou a sorte no futebol inglês e conseguiu 53 minutos em campo pelo Southampton, na Premier League. Mas a farsa foi descoberta pela imprensa, que desvendou o mistério por trás de sua contratação. Depois de um trote, Aly Dia cavou uma vaguinha nos Saints, enganando o técnico Graeme Souness.

O futebol está cheio de picaretas. Eles estão espalhados em todos os cantos, ocupando diferentes funções, às vezes até dentro do campo. São famosos os casos de caras que conseguem beliscar uma vaguinha em algum time sem muito esforço.

Você já deve ter ouvido falar da lenda de Carlos Kaiser, um amigo de Renato Portaluppi que conseguiu engambelar vários clubes sem sequer completar uma partida. Mas até o gaúcho teve alguma dificuldade para encaixar seus golpes. Para o senegalês Aly Dia, que desapareceu do mapa depois de 1996, foi muito mais fácil.

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Pois bem. O ano era 1996, a Premier League dava passos largos para se popularizar ao redor do mundo. E como se sabe, enganar algum clube a contratar um jogador talvez fosse uma tarefa tranquila para empresários e outros tubarões oportunistas. No meio de tantos picaretas e golpistas, um ganhou fama por mais de duas décadas: Aly Dia, que já havia atuado por várias equipes inexpressivas pela Europa, conseguiu fisgar um peixão no Southampton.

O que achávamos que aconteceu

Ele era esperto. E a história resumida e famosa a respeito disso é a seguinte: Dia arrumou o telefone de Graeme Souness, técnico dos Saints na ocasião. Feito isso, o rapaz ligou para o escocês fazendo-se passar por George Weah. O suposto Weah então recomendou a Souness que contratasse Aly, seu primo, pois era bom de bola.

O treinador acatou e ofereceu um período de testes por um mês. Neste intervalo, Dia treinou e jogou apenas 53 minutos, em uma partida contra o Leeds. E nunca mais deu as caras. Matt Le Tissier, ídolo dos Saints, comentou a atuação relâmpago: “Ele corria pelo campo parecendo o Bambi escorregando no gelo. Foi vergonhoso ver aquilo“.

O que realmente aconteceu, segundo a família

Apesar de Weah ter negado enfaticamente que jamais ligou para Souness e sequer conhecia Aly, a mãe do senegalês manteve a versão. Entrevistada por Kelly Naqi, do Bleacher Report, a Senhora Dia afirmou que Weah era amigo de sua filha, Sophie, quando ela morava e estudava na França. Na época do trote, em 1996, Weah havia assinado com o Milan e tinha feito excelentes temporadas com o PSG. Foi daí que Aly conseguiu o contato com o liberiano, explica a mãe.

É claro que a família de Aly iria tentar dar crédito à farsa criada pelo filho. Sophie, a “amiga de Weah” tentou dar um pelé na repórter, dizendo que tinha o telefone de George, mas não podia passar sem a autorização dele. E jamais retornou o contato de Kelly, por razões óbvias. Mas ainda assim, é difícil acreditar como é que um cara consegue cavar uma vaga como profissional em um time de primeira divisão usando apenas um telefone e uma imitação de George Weah.

Para isso, Aly também usou um agente: Sidiba Alassana, também senegalês. O problema é que nem ele é conhecido por profissionais da área na Federação Senegalesa, segundo aponta a reportagem do Bleacher Report. Não é de se duvidar que até isso tenha sido inventado para facilitar o caminho até o Southampton. Naqi, que foi até a casa da família de Ali, tentou traçar um perfil do jogador, mas o que encontrou mesmo foi um diploma genuíno dele pela Universidade de San Francisco. O rapaz se formou em Administração e, nas horas vagas, enganou clubes despreparados.

Outra pergunta frequente: por que Aly teria feito isso? Bem, não há muito mais razões além da vontade de jogar futebol profissionalmente, mesmo sabendo que você não tem capacidade suficiente para isso. A mãe de Aly diz que nunca viu o filho jogar, mas isso tem uma explicação. Ela nunca quis que ele seguisse carreira, em detrimento à sua vida acadêmica. Por este motivo, o “jogador” tentou iniciar uma vida paralela aos estudos, dentro dos gramados, sem que a família tivesse ciência. Não se sabe ao certo se ele enganou toda essa gente ou se realmente chegou lá por mérito. Mas a coisa fica nebulosa, quanto mais pesquisamos.

Um ex-companheiro de faculdade de Aly, Mady Toure, virou representante de uma academia de formação de jogadores em Senegal. E em certo ponto, admite que Dia poderia ter sido um bom atleta, mas nunca levou o esporte a sério como deveria. Daí temos um dilema: estudar ou tentar a sorte no mundo da bola? Toure confirma a versão da mãe do colega,  de que ela preferia ver o filho estudando.

Dia de fato conseguiu entrar em alguns clubes. Inicialmente, em equipes modestas na França, completamente sem expressão. Um belo dia, Aly pediu a Mady que o ajudasse a enganar os dirigentes do Chateaubriant. Ele faltaria ao treino para negociar contrato com outro time. Desesperados e temendo perder o senegalês, representantes do Chateaubriant foram atrás dele e interceptaram o que seria a viagem de despedida. O atleta então conseguiu um aumento para ficar mais tempo lá. Isso era em 1994. Dois anos depois, com passagens pela Finlândia e pela segunda divisão alemã, desembarcou no Blyth Spartans, uma agremiação amadora da Inglaterra. Além da credencial dada por “Weah”, Dia alegava ter marcado gols pela seleção de Senegal.

Kelly Naqi, a repórter designada para resolver o quebra-cabeças, ainda conseguiu falar com o filho dele, Simon, que atuava pelo Saint-Quentin, da França. E o garoto riu da história, confessando que sabia dos fatos e também conhecia o pai o bastante para saber que sim, ele era capaz de fazer tudo aquilo para ter sucesso. Ao menos a fama ele conseguiu. Os títulos e os gols, evidentemente, passaram longe.

Por último e não menos importante, Naqi teve a chance de falar com o protagonista desta história esquisitíssima. Tentando limpar a sua barra, Aly Dia nega que tenha mentido e que, eventualmente, as pessoas saberão da verdade sobre ele. Insiste também que nunca mentiu e que de fato atuou pelo PSG ao fim da década de 1980, inclusive sendo campeão da Taça de Paris, em 1986. Uma passagem pelo Dijon em meados de 1990 aponta que Dia foi mesmo um jogador profissional. A questão é como ele se vendeu para chegar aos Saints. Depois do fiasco breve na Inglaterra, Aly rodou por mais dois clubes e seguiu carreira nos negócios a partir de 1997.

Se ele enganou ou foi enganado, ainda não temos certeza. Mas Aly não tem mais direito ao benefício da dúvida, não depois de ter forjado um telefonema para Graeme Souness.

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