Totti e Buffon são o último elo com o auge do futebol italiano

Goleiro está em grande forma e ainda parece estar longe de parar. Após a despedida de Totti, no último domingo, Buffon é o último elo que sobrou com os anos dourados da Serie A e da própria seleção da Itália.

Quando Francesco Totti chegava a sua segunda temporada completa como profissional, em 1995, Gianluigi Buffon estreava no gol do Parma, com apenas 17 anos. O histórico familiar na posição favoreceu o jovem, que seguiu caminho distinto ao de Lorenzo Buffon, primo de seu avô paterno, que defendia o gol do Milan. Os primeiros anos de Gigi serviram para coloca-lo como uma das maiores promessas do futebol italiano. Duas décadas depois, ele chegou bem mais longe.

O caminho de Totti cruzou muitas vezes o de Buffon. Foram rivais quando Francesco tentava castigar o camisa 1, uma de suas vítimas favoritas, como o próprio Gigi já disse publicamente. Entretanto, o respeito entre eles ajudou a pavimentar o status de lenda para ambos, especialmente depois que passaram dos 30 anos de idade.

Totti teve fase temperamental no início dos anos 2000. Confusões, descontrole e expulsões quase mancharam a carreira do craque

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A experiência fez bem a Totti, que amadureceu e abandonou alguns vícios e comportamentos da juventude. Antes, Francesco era um cara irritadiço e com pinta de bad boy irreversível. Qualquer vídeo no Youtube dá conta de mostrar o seu lado perverso. Felizmente, nos seus últimos 10 anos, Totti se transformou em um líder muito mais positivo e em um recordista de várias modalidades pela Roma.

Subiu até o alto da montanha dos maiores artilheiros da Serie A, ficando apenas atrás de Silvio Piola. Ultrapassou as barreiras da idade fazendo uma grande temporada em 2015-16. Passou dos 40 sendo fundamental para a Roma, ainda é a grande lembrança do último scudetto giallorosso, em 2001. Totti é admirado pelo mundo do futebol pelo que quis construir com esta camisa, por ter resistido às tentações do futebol moderno e acima de tudo por respeitar seus princípios para seguir conduzindo o seu time do coração a um lugar mais digno.

Se a Roma não foi mais vezes campeã italiana, azar da Serie A. Não foi por falta de esforço e talento do seu capitão. Para Buffon, o outro grande destaque remanescente da geração de 2006, o único título que esteve perto e ainda não veio é o da Liga dos Campeões, algo que pode ser resolvido no próximo sábado, em final contra o Real Madrid. Gigi, assim como Totti, ignorou os efeitos do tempo e segue esbanjando sua capacidade de ser um paredão na meta juventina.

A rivalidade não impede que juventinos e romanistas se curvem ao ídolo adversário. O futebol exige que sejamos justos com estes gênios contemporâneos, independente das cores que defendamos. E assim, o que quase sempre é revolta por ver a Juventus ser campeã todo ano, torna-se uma tímida admiração pela grandeza mostrada por Gigi lá atrás. É por causa dele e de seus três cães de guarda que a Juve tem a melhor defesa da Europa em tanto tempo.

Estes dois senhores disputaram de forma ferrenha o recorde de aparições na Serie A, tentando alcançar Maldini. Agora Buffon está sozinho nessa e corre a largos passos para ser o recordista, pulverizando a marca do eterno capitão milanista, que somou 647. O goleiro também é detentor de outro recorde: foi o que mais venceu scudetti, com oito conquistas. Só ele e Giuseppe Furino levantaram tantas taças da Serie A pelo mesmo clube. Curiosamente, Furino também alcançou esta façanha com a Juve.

Se tudo prosseguir normalmente, Buffon vai se isolar no topo desta montanha com o seu nono título, na próxima temporada, e também ultrapassando o número de aparições pela Serie A. Entretanto, o objetivo maior, evidentemente, é o da Champions. E engana-se quem pensa que, aos 39 anos, Buffon é apenas a sombra de seu tempo mais glorioso. O auge tardio do goleiro conseguiu ser ainda mais saboroso do que os tempos em que ele foi campeão mundial com a Itália. Já se sabia que ele era um dos grandes goleiros da história em 2006. Em 2017, ele é tão temido quanto era no começo do século.

Quando Totti brilhava, usava de seus passes milimétricos para encantar o público. Seus gols eram pura inspiração, técnica, oportunismo e posicionamento. É notório que Totti colocava a bola onde bem queria, algo que provou ao longo de suas 24 temporadas como profissional. E como nenhum outro para a Roma, conseguiu incendiar o ânimo de seus companheiros, mesmo quando eles eram limitados demais para entregar algo realmente satisfatório.

O cartão de visitas de Buffon, por outro lado, é a sua capacidade de amassar esperanças de atacantes, toda vez que eles chutam uma bola despretensiosa e o goleirão se atira para espalmar. Também quando eles entendem o desafio e dão o seu melhor para furar o bloqueio, mas antes de balançar as redes, está lá o implacável último homem para salvar o dia. Ou mesmo quando batem um pênalti e contam com muito mais chances de marcar, mas abaixam a cabeça assim que Gigi se estica e tira mais uma defesaça de sua cartola. Apesar de todos estes momentos fantásticos, ele nunca foi um cara espalhafatoso. E isso diz muito sobre o seu perfil como atleta.

A saudade dos anos 90 nos remete aos grandes times montados naqueles tempos. À Juve de Del Piero, Baggio e Vialli, ao Milan de Maldini, Baresi, Savicevic e Van Basten, à Inter de Bergomi, Zamorano e Ronaldo, à Lazio de Nesta, Nedved e Signori, o Parma de Buffon, Verón e Crespo, a Fiorentina de Batistuta, Edmundo e Rui Costa. A Roma não dispôs de tantos craques quanto seus concorrentes naquele período, mas teve em Totti sua estrela e seu redentor em 2000-01, ao lado de Batistuta.

Totti deixou a Roma em definitivo na tarde do último domingo. E recebeu o carinho de seus antigos rivais, companheiros e de seus fãs, espalhados por aí. Com ele, morre todo um ideal romântico de que um jogador pode sim passar toda a sua carreira em um clube só. Como Giggs e Maldini fizeram no passado.

Com Buffon, morrerá de vez o elo com o tempo em que a Itália era o grande centro do futebol e revelava talentos em profusão. Se nós, que estamos aqui de fora, envelhecemos bastante desde que estes dois começaram suas empreitadas no futebol, por qual razão estes caras, protagonistas natos, não sofreriam com os efeitos das décadas que se passam?

O futebol já não empolga mais como antigamente, a experiência mudou muito, para pior. Mas somos e fomos privilegiados de acompanhar semanalmente a história sendo escrita por Totti e Buffon. Lá na frente, durante a nossa velhice, a ficha vai cair. Fomos completos. E aí nos daremos conta de como fomos felizes de acompanhar um pedaço tão peculiar do esporte.

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