Antonio Cassano e a luta contra a própria maluquice

Craque italiano revelado no começo da década de 2000 mostrou indiscutível talento em diversas fases da carreira. Mas os problemas extracampo e o temperamento difícil prejudicaram a evolução de Antonio Cassano, ídolo na Roma e na Sampdoria.

Quando Antonio Cassano saiu do Bari em 2001 para se juntar ao time campeão italiano da Roma, jamais poderia imaginar o quanto a sua vida mudaria. Ele tinha só 19 anos e já estava credenciado como uma das maiores promessas do futebol local. Em sua primeira temporada, marcou um gol simplesmente genial contra a Inter, mostrando seu cartão de visitas. Todos sabiam que ele seria um grande jogador naquele momento, se tratado da forma correta.

Chegar no grande time do momento não apavorou Antonio. Dono de uma técnica refinada e de dribles criativos, foi uma figura bem aproveitada no ataque giallorosso. Como a concorrência era grande na sua primeira temporada na capital, precisou esperar algum tempo para se firmar de verdade. Dali em diante, foi irreversível trata-lo como craque e candidato a ídolo da torcida.

Em cinco anos de Roma, Cassano acumulou gols, grandes atuações, aplausos e encrencas. Não demorou muito para que arrumasse problemas com o técnico Fabio Capello, que o deixou de fora do time titular em 2003, logo quando ganhava suas primeiras chances como selecionável pela Itália. A relação dura com os comandantes se repetiu posteriormente com Rudi Völler e Luigi Del Neri, isso em seu último ano na capital.

A postura lhe rendeu afastamento do clube por Del Neri, mas logo o técnico saiu de cena e Bruno Conti, seu substituto, recolocou Fantantonio (fantasista + Antonio) no seu devido lugar. Era uma Roma decadente, que em pouquíssimo tempo saiu da posição de concorrente para lutar contra o rebaixamento em meio a uma crise financeira grave. Se o clube vivia momentos turbulentos, o jovem não estava muito melhor que isso.

Antonio gostava de ficar no olho do furacão. Foi expulso na final da Copa da Itália em 2003, parecia não se importar muito com isso e provocou o árbitro, ganhando um gancho da Federação Italiana. A imaturidade e a necessidade de sempre ser o centro das atenções não caíram bem com os companheiros. Ao mesmo tempo em que via em Totti um mentor para o futuro, Cassano também acabou irritando seu capitão com a sua insolência, o que acabou sendo crucial para a sua fritura.

Nos primeiros meses na cidade, o garoto chegou a morar na casa dos pais de Totti para se adaptar, o que fortaleceu a relação quase familiar entre os jogadores. Nem isso serviu para diminuir a decepção de Francesco com o seu pupilo. E é aquela coisa: quem briga com Totti sai queimado, até hoje. Com Antonio não foi diferente. Cotado para ser vendido ao exterior, foi negociado com o Real Madrid em 2005. Muita gente comemorou.

O grande erro e a volta ao topo

O termo “cassanata” ficou famoso pela boca de Capello, que designou a expressão para se referir aos arroubos de loucura e antiprofissionalismo por parte de Antonio. No Real Madrid, cercado por estrelas, largou relativamente bem. Mas não deixou saudade. Jogava pouco, marcava menos ainda, logo foi apontado como flop pela mídia espanhola. E pior: reencontrou o desafeto Capello, acumulando mais problemas. Nem o presidente Florentino Pérez suportava mais a atitude do italiano, que após dois anos pegou o avião de volta para o seu país.

A Sampdoria lhe abriu as portas e Cassano se reencontrou com sua melhor forma na Serie A. Consistente, se firmou e foi fundamental para uma ótima fase na equipe blucerchiata, até o ponto de classificar a Samp para o estágio preliminar da Liga dos Campeões. Entretanto, o time foi eliminado pelo Werder Bremen e entrou em uma espiral negativa, culminando com o rebaixamento ao fim da temporada.

A dupla com Giampaolo Pazzini, no entanto, foi o ponto alto da passagem de Cassano por Gênova. Os dois foram comparados com Gianluca Vialli e Roberto Mancini, os “irmãos gol”, como dizia a imprensa italiana. Cassano parecia ter a cabeça no lugar, já beirando os 30 anos de idade. Vinha bem na Samp, equilibrado, com boas atuações e uma liderança positiva. Até que…

Se esforçando para ser um sujeito normal

Cassano, em 2012: falou uma enorme bobagem durante a Eurocopa e foi multado

Ao fim de 2010, quando a vaca começou a ir para o brejo e o elenco deu sinais de fragilidade. Toninho foi lá e brigou com o presidente, que o excluiu do plantel e planejava rescindir seu contrato. Por sorte, a história teve outro final, menos amargo do que o óbvio. Em janeiro de 2011, o Milan decidiu comprar Cassano, e com ele, conquistou seu último scudetto. A ideia dos rossoneri era arrumar uma reposição à altura para Ronaldinho, que saiu para o Flamengo.

Apesar do título, Cassano viveu um drama pessoal em Milão, com um quadro de isquemia cerebral, sendo obrigado a passar por uma cirurgia no coração para evitar problemas maiores. O susto foi grande e causou uma mudança radical na forma como Antonio encarava o mundo. O Milan se desfez de algumas estrelas em 2012 e Cassano se mostrou insatisfeito com a decisão, pedindo para ser transferido imediatamente.

Mas não mudou de cidade, apenas pulou o muro para defender a Internazionale, em uma troca-relâmpago envolvendo seu antigo parceiro Pazzini, que seguiu para o Milan. Pensou que ele havia sossegado? Se enganou: Cass viveu outra turbulência, quando vinha de um bom momento com a camisa nerazzurra, entrou em um confronto físico com o técnico Andrea Stramaccioni, dentro dos vestiários, o que acabou com a sua moral dentro do clube. Meses depois, foi dispensado.

Fez duas temporadas satisfatórias com o Parma, que por outro lado, não tinha muito brilho coletivo. Cassano então se viu em um barco furado que estava prestes a afundar. A grave crise financeira dos crociati levou a uma rescisão de contrato do craque, que se destacava no elenco, mas não quis arriscar a ficar sem receber salários enquanto o Parma quebrava até falir. Aceitou outro convite da Sampdoria para encerrar a sua carreira, fez mais uma temporada e teve o contrato rescindido, meses depois de ser afastado para treinar apenas com os juvenis. E não joga há quase um ano.

Agora que o Verona retornou à Serie A e tem em Pazzini seu grande artilheiro, Cassano mira, quem sabe, uma última temporada. Já tem 34 anos e manifestou seu desejo de assinar com os veroneses na segunda metade do ano. Resta saber se eles querem comprar o pacote completo de Cassano, que inclui seu talento, sua experiência e também os problemas de comportamento.

Maluquez misturada com lucidez

Muito tempo depois, já mais maduro, Cassano reconheceu que errou em aceitar a proposta do Real Madrid. Mas de certa forma, isso também foi uma reação ao mau momento que vivia na Roma. Ele não se encaixava em nenhum lugar, era problemático, apesar de talentoso. Contudo, o defeito sempre se sobressaía em relação às suas qualidades. Em 2012, durante a disputa da Eurocopa, com a Itália, foi multado por dizer em uma entrevista que “esperava que não houvessem gays” no grupo de jogadores da Seleção italiana. A Azzurra eventualmente foi até a final, com Cassano de titular.

Dez anos depois de seu retorno à Itália, com tantos episódios polêmicos dentro e fora dos gramados, Fantantonio admite que deveria ter ouvido mais o que Totti tinha a ensinar. Fã do capitão romanista e seu principal aprendiz dentro da agremiação romana, o atacante revelou que poderia ter ido para a Juventus, mas optou pela Roma porque queria jogar com Totti, era seu sonho.

“Se eu tivesse ouvido apenas 10% das coisas positivas que Totti me disse, minha carreira teria sido diferente. Estávamos lidando com uma negociação de contrato e ele me aconselhou: ‘Lembre-se, é melhor ganhar menos e ser feliz do que ir para outro lugar no mundo sem ter certeza disso’. Fui para Madri e depois de um ano e meio, estava de volta. Fui seduzido pela proposta do Real, mas se eu não fosse teimoso, provavelmente teria ficado na Roma por 10 ou 15 anos com Totti. Eu precisava ter seguido aquilo. Foi muito divertido, nós nos entendíamos bem demais, como num piscar de olhos. Eu nunca me senti tão bem jogando futebol quanto naquele tempo, em toda a minha vida”, confessou Antonio, em entrevista ao Corriere dello Sport, em fevereiro de 2017.

Não só por Totti, mas pela carreira de Cassano em si, a cabeça fria teria feito milagres pelo jogador, que em breve sairá de cena de forma definitiva, mas com uma fama muito mais negativa do que seus gols e sua arte possam sugerir. A vida não é feita só de conselhos ignorados, mas sim das decisões que tomamos. Antonio foi vítima do próprio caráter e reconhecer agora que poderia ter sido muito mais feliz talvez traga mais amargura do que autoconhecimento.

3 pensamentos em “Antonio Cassano e a luta contra a própria maluquice”

  1. Mais um célebre caso craque-problema. Jogava tanto quanto criava problemas (mais problemas, pelo visto). Fazer o quê? Tenho uma linda camisa da Sampdoria, da kappa, nº 99, deste maluco.

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