A mística do Estádio da Rua Campos Salles, primeira casa do América-RJ

A história do Estádio da Rua Campos Salles acabou em 1961, pouco mais de uma década depois que o Maracanã foi inaugurado. Os anos no coração da Tijuca, no entanto, jamais serão esquecidos pela torcida do América.

Por Charles Teixeira

Nenhum estádio de futebol, ou melhor, nenhuma edificação da municipalidade é mais carioca do que o antigo estádio do América na Rua Campos Salles. Colocaria em segundo lugar na construção do imaginário carioca nem mesmo o Maracanã, mas sim o edifício nº 107 da Rua Nascimento Silva em Ipanema.

O estádio encravado no coração da Tijuca foi a encubadora do América mítico e apaixonante, pois ficava a um ponto de ônibus de qualquer amante do futebol com tempo disponível para uma hora e meia de botinadas. E algo que não falta nessa cidade em tempo nenhum são pessoas disponíveis para o lazer.

O estádio da Rua Campos Salles não existe mais, foi demolido em 1961 para dar lugar à sede social do clube rubro. Neste lugar, começou a famosa história do Fluminense com o apelido de pó-de-arroz, em 1914. A lenda dá conta de que Carlos Alberto, então no Tricolor, foi descoberto depois de usar pó-de-arroz no rosto para clarear a pele.

Como ainda não era comum que atletas negros jogassem por clubes de elite no Brasil, Carlos Alberto encontrou uma forma de se disfarçar para continuar atuando. Mas a torcida do América o reconheceu e começou a gritar, provocando-o. O “apelido” caiu em desuso, mas é uma das marcas mais fortes do racismo dentro do contexto do futebol no começo do século passado.

Foi no Estádio da Campos Salles que o América faturou seus sete títulos cariocas, entre 1913 e 1960. Curiosamente, depois que passou a ocupar o espaço no Estádio Wolney Braune, no Andaraí, em 1961, jamais repetiu o feito. O único título relevante do América depois disso foi Torneio dos Campeões em 1982, uma competição criada pela CBF com todos os vencedores e vices de campeonatos nacionais e oficiais até aquele momento.

Este Rio de Janeiro romântico se perdeu com o Maracanã já no seu auge apoteótico de maior estádio do sistema solar, sugando para si todos os jogos possíveis e imagináveis desde Portuguesa da Ilha do Governador x São Cristóvão, ou até servindo de preliminar para Flamengo x Bangu à chegada do Papai Noel de helicóptero.

O Maracanã já nasceu trilhardário, poderosíssimo, decidindo Copa do Mundo, levando dedo na cara no Schiaffino e cusparadas de Obdulio Varela. Dependendo do jogo, conseguia facilmente arrastar para suas arquibancadas de cimento multidões de 100, 150, 200 mil pessoas. Qualquer domingo poderia virar carnaval se a bola resolvesse estufar as redes.

Sou prova viva desse turbilhão chamado Maracanã. Minha mãe entrou em trabalho de parto na hora da final do campeonato carioca de 1979 entre Flamengo x Botafogo. Nasci na madrugada bêbada de segunda-feira, enquanto as pessoas que saíam para trabalhar ainda tropeçavam nas outras, comemorando ou tentando esquecer.

Ninguém sai do Maracanã nem do útero de alguém impunemente. Somos uma nação fadada à eterna sina de amar o futebol, mesmo com Ghiggia ou David Luiz em nossos caminhos. Vamos combinar que ninguém se apaixona simplesmente porque viu o craque do seu time driblar todo mundo ou por causa de uma publicidade engenhosa. O coração bate mais forte mesmo é quando você está lá e descobre que não está sozinho nesse mundo.

Volto à Campos Salles para uma pequena viagem no tempo e pelo que restou dos estádios pequenos do Rio de Janeiro. Lugares que estão abandonados ou que ainda conseguem juntar duas mil pessoas num dia apoteótico. Banheiros quebrados, vendedores ambulantes rebolando pela arquibancada pedindo licença com a venda do dia e na saída uma grande quermesse com cheiro de churrasquinho no ar e a famosa liquidação de cerveja “pra acabar, patrão”.

É, meu amigo, só me resta uma certeza: é preciso deixar esse padrão FIFA pra inventar de novo o amor.

Um pensamento em “A mística do Estádio da Rua Campos Salles, primeira casa do América-RJ”

  1. Brilhante texto. Parabéns. A mística e a história dos estádios pequenos não pode ficar destinada ao limbo. Parabéns à quem buscou reavivar tudo isso neste texto maravilhoso.

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