Noite de Libertadores: É isso que a gente quer

Encerramento da primeira fase no grupo 4 trouxe enormes surpresas. O San Lorenzo virou o jogo e eliminou o Flamengo na Argentina, com gol no final. No Chile, o Atlético Paranaense se reergueu e derrotou a Universidad Católica no braço de ferro. A Chapecoense também venceu de forma heroica, mas corre risco de perder pontos. Foi do jeito que o povo gosta a noite de quarta-feira na Libertadores.

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É mais ou menos isso que se espera quando a Libertadores chega na rodada final do mata-mata. Muita gente podendo se classificar, times entrando em desespero, torcedores arrancando os cabelos e muitos gols. Para o grupo 4, dificilmente o drama desta quarta-feira será superado em alguns anos. Na Argentina, o San Lorenzo recebia o Flamengo, e a Universidad Católica era a mandante em uma partida contra o Atlético Paranaense.

Em tese, o Flamengo era o favorito para levar os três pontos, assim como a Universidad Católica. Mas na prática, não foi isso que aconteceu. Os azarões se levantaram e deram muito sangue para sobreviver. Ambos em viradas inesquecíveis. Tudo começou no gol do Fla, marcado por Rodinei, o herói insólito do Rubro-Negro. Mas o Ciclón era superior, criava mais chances e levava muito perigo à meta de Muralha.

O campeão de 2014 demorou a engrenar. Começou tarde sua temporada e correu atrás de uma classificação desacreditada. Era candidato a ser eliminado dentro do Nuevo Gasómetro. Contudo, quem quer triunfar, não pode ter medo de pular as barreiras que o destino e as questões técnicas impõem. O caldo flamenguista começou a entornar aos 29 do segundo tempo, quando Angeleri deixou o seu, com frieza. Ciclón vivo outra vez. Ainda era preciso vencer, para não contar com o infortúnio de depender de outros resultados.

Aos 47 da segunda etapa, ali quando algum flamenguista já comemorava o pontinho, Belluschi enfiou a faca no peito adversário. E causou a terceira eliminação seguida do Fla na fase de grupos. De virada, no penúltimo minuto, na raça, como o San Lorenzo fez em 2014 ao se salvar em situação parecida.

Talismãs atleticanos

Ninguém contava com o abalado Atlético Paranaense. Foram três derrotas gigantescas nas últimas partidas. Derrotado no Estadual pelo seu maior rival e goleado na estreia do Brasileirão, o Furacão chegou desacreditado ao Chile para decidir sua vida na Libertadores.

Coisas do futebol, como não? Jogando para o gasto, mas ainda assim sofrendo demais, o selecionado paranaense de Paulo Autuori não fez por onde sair vencedor da primeira etapa. Santiago Silva, sempre ele, puniu os visitantes com um gol bem característico em sua longa carreira. O tanque uruguaio estava colocando a Católica na segunda fase.

Não se sabe a conversa que houve nos vestiários atleticanos. Mas o espírito foi outro. O experiente elenco que chegou aos trancos e barrancos neste grupo teve de se submeter a uma autoanálise intensiva, entender seus próprios erros e tentar pulverizar suas limitações. Autuori, uma raposa velha do nosso futebol, promoveu a entrada de Eduardo da Silva, Douglas Coutinho e Carlos Alberto na segunda etapa. Sacou Grafite, Pablo e Lucho González, que vinham sendo importantes nesta caminhada.

Fez-se o milagre. O Atlético tirou futebol do desconhecido. Eduardo empatou, provou seu valor, ainda dava. Coutinho arrancou do meio-campo, bateu os adversários na corrida e chutou rasteiro para vencer Toselli: uma virada épica se desenhava. Cansado e transpirando pelas tampas, o Furacão já se ajeitava para a retranca quando foi surpreendido por um petardo de Noir. Um balde de água fria na animação brasileira.

Certos jogadores nasceram com o traseiro virado para a lua. Carlos Alberto, estrela revelada pelo Fluminense, ganhou o mundo com a camisa do Porto, marcando dois gols em uma final de Liga dos Campeões em 2004. Treze anos depois, bem mais experiente e certamente bem abaixo do que se esperava de sua carreira, o meia apareceu de novo. E como tem jogado bola vestindo rubro-negro. Decisivo, Cazalbé recebeu uma bola na entrada da área e acertou o alto da meta chilena: 3-2. Arrumem aquela retranca lá outra vez, nova chance.

A cera não costuma ganhar jogo. Mas desta vez funcionou. Depois de ser ameaçado por uma cobrança de falta na beira da área, o Atlético enrolou e foi matreiro, exceto pela expulsão pouco inteligente de Wanderson. O tempo passou rápido para a Católica, que teve apenas uma chance para empatar e se classificar. E não conseguiu. O corajoso time de Autuori cuspiu fogo e está nas oitavas. Azar de quem não passou deste ponto.

Gigante e querida, mas sem juízo

Segura de que poderia escalar Luiz Otávio, expulso na última partida contra o Nacional, em Montevidéu, a Chapecoense chegou para 90 minutos essenciais na sua caminhada pela Libertadores. O adversário foi o temido Lanús, que pratica o melhor futebol da chave e esperava por detalhes para se classificar nesta quarta-feira.

Esqueceram de combinar com a Chape, a nova paixão de todo brasileiro que acompanha futebol. Esqueceram de avisar a Wellington Paulista, um centroavante em sua jornada rumo à redenção. Pois foi dele o primeiro gol em La Fortaleza. Valente, a equipe catarinense não se intimidou, foi buscar o jogo e ofereceu alternativas para anular o talento granate.

O trabalho de Vagner Mancini ainda engatinha, mas o progresso é enorme. A inferioridade técnica em relação ao Lanús foi reduzida diante de uma atuação intensa e no limite por parte da Chape. Sand chegou a empatar para os donos da casa, após pênalti cometido por Wellington Paulista. A postura defensiva que serviria para garantir o triunfo quase se voltou contra o feiticeiro Mancini, assim como no confronto de Chapecó.

Curiosamente, o herói da noite e que pode ter sido crucial para a classificação foi Luiz Otávio, o homem barrado pela Conmebol. A Chape alega ter sido avisada em cima da hora pela entidade sobre a indisponibilidade de seu atleta. A decisão de escalar o defensor é corajosa e  inconsequente, já que ele pegou gancho de três partidas e cumpriu apenas uma, na Recopa, contra o Atlético Nacional.

De cabeça, o vilão de Montevidéu, expulso por dar uma solada em área sensível do adversário, também limpou a própria barra e a de seus companheiros, que estão muito perto de uma vaga nas oitavas de final, outra reviravolta deliciosa nesta competição. Em campo, a Chape sai confiante e precisa só de um empate contra o Zulia, na Arena Condá. Fora dele, terá de se defender ainda melhor do que fez na Argentina para não perder os pontos deste embate com o Lanús.

Virá das salas da Conmebol o veredicto de mais este enrosco na Libertadores. Que a Chape consiga sustentar sua posição para não ser surpreendida com uma punição. Porque o Lanús tem seus motivos para reclamar e se posicionar como vítima deste episódio. Diferentemente dos jogos emocionantes do grupo 4, este aqui pode manchar a glória e terminar com o gosto amargo do tapetão.

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