A história de Schiaffino, o uruguaio que nasceu para ser campeão

Um dos carrascos do Brasil no Maracanazo, Schiaffino teve carreira vitoriosa por onde passou. Defendeu grandes clubes e honrou a camisa do Uruguai na Copa de 1950. E fez história ao lado de times fantásticos nos seus tempos.

Quando ainda era menino, Juan Alberto Schiaffino, ou “Pepe”, provavelmente já devia saber que ia ganhar fama entre seus colegas de bairro no Uruguai. Defendeu as equipes juvenis do Pocitos e do Palermo enquanto se dividia entre as ocupações para auxiliar a família. Teve alguns anos de experiência como padeiro, isso antes de se tornar profissional com a camisa do Peñarol, claro.

Rodou pelo Olimpia de Montevidéu e até mesmo pelo Nacional, mas não conseguiu agradar os dirigentes o bastante para ficar. Coube ao irmão Raúl, dois anos mais velho, convidá-lo para defender o Peñarol, e ele nunca se arrependeu desta decisão. Em 1946, começava a sua trajetória no time titular, preparando o terreno para fazer história ao lado de outros monstros do futebol local.

Pepe ao lado dos colegas de Peñarol: maestro do time, armava o jogo como ninguém e repetiu o papel até o fim de sua carreira

Em 1949, levantou seu primeiro título com os carboneros, na equipe conhecida como a “Esquadrilha da morte”, juntamente com Ghiggia, Varela, Míguez e Hohberg. Aquela formação varreu o Uruguai e até hoje é aclamada como a maior de toda a história do Peñarol. Houvesse alguma competição como a Libertadores na época, os aurinegros teriam iniciado um período dominante antes mesmo de seu período glorioso na década de 1960.

Ano sim, ano não, o Peñarol era campeão uruguaio. Até 1954, quando deixou sua cidade natal, Pepe foi tetracampeão. E suas atuações cirúrgicas como armador e ponta o alçaram à posição de tesouro do futebol local. Muito pelo que havia feito em 1950, também. O Uruguai era um timaço e calhou de ser subestimado antes da final com o Brasil, no Maracanã. Muito técnico, experiente e um dos precursores do jogo mental, o selecionado celeste se valeu do oba-oba da imprensa que cravava a Seleção Brasileira como campeã, já que apenas um empate serviria para nos dar o primeiro título mundial.

O Brasil saiu na frente, gol de Friaça, logo na volta do intervalo. E a festa tomou conta do Maracanã. Entretanto, do outro lado estava um grupo capaz de surpreender e dominar o confronto. Aos poucos, o batalhão charrua se reergueu e foi buscar o placar que precisava. Schiaffino meteu o primeiro e Ghiggia virou, calando o estádio. O Uruguai conseguia a façanha de se sagrar bicampeão mundial dentro da casa do adversário, contra todos os prognósticos. Um reflexo da frieza e do instinto de Pepe, o motorzinho daquele time, que marcou três vezes em quatro jogos e foi nomeado o melhor jogador do torneio.

Na Copa do Mundo seguinte, na Suíça, Juan repetiu as grandes atuações e jogou o fino da bola, quando o Uruguai terminou em quarto lugar, só perdendo para a Hungria de Puskas, na prorrogação das semifinais. Isso foi o suficiente para atrair os olhares do Milan, que estava querendo construir um esquadrão em torno de seus talentos. Além da técnica inquestionável como meia, Schiaffino também sabia fazer seus gols. Em 1952, anotou 20 gols em 38 partidas pelo Peñarol. Estava vivendo o auge.

O Milan ganhou um baita de um reforço, o homem mais caro do mundo, à época, custando o equivalente a 103 mil euros nos termos atuais. Escalado mais à frente, onde brilhavam Nordahl, Liedholm e Sorensen, o uruguaio chegou para mandar no seu setor. Lá atrás, Maldini, Fontana e Beraldo seguravam a onda.

O ataque milanista tinha Grillo isolado na frente, mas o apoio era fortíssimo com Liedholm, Schiaffino pelo meio e Cucchiaroni e Danova nas pontas. Esta escalação chegou à final da Copa dos Campeões da Europa em 1958 e acabou derrotada pelo Real Madrid de Di Stéfano e Rial. O placar foi de 3-2, com o primeiro gol marcado por Schiaffino na segunda etapa.

Antes disso, o Milan de Schiaffino já tinha dois scudetti e um título da Copa Latina, conquistado em 1956. Era um sucesso estrondoso, que só não foi maior fora da Itália por causa daquele Real Madrid arrasador. E a fase vitoriosa se estendeu até 1959, com o terceiro e último título italiano de Pepe em Milão. Aos 34 anos, ele se aproximava do fim da carreira, mas como parar se você está no topo?

A nova motivação foi assinar com a Roma em 1960. Apesar de não ter sido tão ativo quanto nos tempos de Milan e Peñarol, Schiaffino ofereceu sua excelente visão de jogo aos giallorossi e reencontrou um velho amigo: Alcides Ghiggia, outro veterano. Destacavam-se naquele plantel romanista os gringos Griffa, Manfredini, Angelillo, Dino da Costa, Selmosson, além dos nativos Losi, Pestrin, De Sisti e Menichelli.

Fato é que a Roma não poderia fazer frente à Juventus, ao Milan ou à Inter, mas a quinta posição na Serie A em 1960-61 serviu de consolo. Pela Copa das Feiras, a equipe capitolina sobreviveu até a final e bateu o Birmingham para ficar com o seu único troféu europeu, mas sem Schiaffino e Ghiggia. Eles atuavam basicamente pela Serie A, competição pela qual Pepe acumulou 30 aparições, em sua maioria, como volante ou líbero. A dupla uruguaia, que tinha os dois mais velhos do elenco, sequer foi escalada na competição continental, vendo de fora a conquista e a consagração.

Alcides tomou o rumo contrário e foi para o Milan em sua última temporada na Itália. Juan ficou na Roma para jogar mais um ano e entrou em campo apenas dez vezes, sem marcar. Era a primeira vez que isso acontecia com ele, um sinal de que estava na hora de parar. Aos 36 anos, Pepe calçou chuteiras pela última vez em 4 de fevereiro de 1962, contra o Vicenza, em um empate por 1-1 no Olimpico. A Roma terminou novamente em quinto, mas sem outra taça para compensar. E assim, Schiaffino deixava os palcos onde tanto brilhou para se tornar uma lenda, uma estrela que resume toda a classe e a predestinação do futebol uruguaio do passado.

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