Os melhores roteiros de ficção jamais teriam inventado Willie Johnston

Escocês teve longa carreira nos Rangers e saiu como um dos grandes da história do clube. Mas as passagens pelo futebol inglês e pela NASL ajudaram a derrubar a moral do craque, que se notabilizou por episódios grotescos até sua aposentadoria.

O Rangers parece ser um time perfeito para jogadores com fortes traços de personalidade. Ao longo da trajetória da equipe de Glasgow, muitos atletas foram eternizados por títulos e atuações especiais. Um deles é Willie Johnston, ponta-esquerda que jogou entre os anos 60 e 70 e retornou em 1980, já sem o mesmo brilho de outrora.

Fato é que Willie iniciou uma verdadeira peregrinação pelo esporte depois de 1972, quando acertou sua saída do Rangers. Visado por oficiais da Federação, encontrou uma transferência para a Inglaterra como forma de escapar de uma perseguição que vinha sofrendo. Conquistou apenas um título nacional de expressão, a Copa da Liga da Escócia, em um período amplamente dominado pelo Celtic.

Johnston, um legítimo craque com pavio curto, foi cedido em 1972 ao West Brom e fez sucesso em seis temporadas. Décadas depois, em 2004, foi eleito como um dos 16 maiores jogadores dos Baggies. Sua carreira degringolou depois disso e consistiu em passagens apagadas por Vancouver Whitecaps, South China, um breve retorno ao Rangers, além de Hearts e East Fife, dentro da Escócia. Em 1972, conquistou a Recopa Uefa pelo Rangers e em 1979 ergueu o título da NASL com o Whitecaps. É tudo que se precisa saber sobre o seu histórico como atleta. O personagem Willie Johnston rende um texto à parte.

O furacão escocês

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Alguns especialistas em futebol escocês afirmam que desde muito novo, Willie tinha enorme talento e explodiria de qualquer forma, mas certamente sofreu influência de jogadores mais velhos e não necessariamente caras certinhos. Quando foi campeão da Copa da Liga, em 1965, membros da comissão técnica disseram que ele ficasse longe de Jim Baxter, um outro craque problemático que acumulou problemas com bebida. Mas talvez fosse tarde demais e, aos 17 anos, Johnson já sentava com o seu “mentor” para tomar algumas cervejas.

Aí temos o temperamento, um fator crucial para diferenciar um bom jogador de um encrenqueiro. Em seus primeiros anos, repetiu capítulos de impaciência e explosão, com várias expulsões e suspensões por mau comportamento ou após revidar pancadas. Era um bad boy notório. Houve até um amistoso contra a Fiorentina em que Willie foi expulso e precisou ser escoltado por policiais até que resolvesse sair de campo. Um destes oficiais apontou uma arma para Willie, que entendeu a seriedade da situação, se calou e foi para os vestiários.

Briga em clássico? A rivalidade ferrenha entre Celtic e Rangers já levou centenas de atletas dos dois lados a confrontos físicos na história do dérbi de Glasgow. E Willie também acrescentou uma confusão desta magnitude ao seu currículo. Em 1971, cansado de humilhar os defensores com dribles rápidos, o representante dos Gers ficou isolado na esquerda e nem sequer era marcado, justamente porque os do Celtic não queriam sofrer mais dribles.

Tamanha era a liberdade no setor, Willie em certo ponto sentou em cima da bola com o jogo rolando. A atitude foi vista como desrespeito pelos adversários, que partiram para a briga. A diretoria do Rangers o multou em 40 libras pela atitude antidesportiva. Em 1970, ele foi banido por dois meses depois de socar o rosto de um zagueiro do Partick Thistle. A justificativa era que o adversário estava o tempo todo atingindo Willie nos joelhos, o que irritou o ponta.

Willie, pelo Vancouver: campeão nacional em 1979, ele caiu nas graças da torcida

Anos depois, defendendo a seleção escocesa, foi banido da Copa do Mundo de 1978 por doping. O uso de Reactivan, uma medicação para rinite alérgica, foi visto com maus olhos pela Fifa, que foi rigorosa após o teste positivo para estimulantes. Willie jamais admitiu culpa pelo uso do remédio e ainda se defendeu dizendo que fez um jogo horroroso contra o Peru, que a substância não serviu para melhorar o seu potencial. A Fifa não perdoou.

Quando foi para Vancouver defender os Whitecaps, em 1979, a fama e o perfil de garoto-problema deixaram os dirigentes malucos. Mas era uma fase de muito carisma e pouca seriedade. Craques do mundo todo jogavam na NASL, mas nem eles tiravam o caráter de pelada de fim de ano da competição, um reflexo do amadorismo que ainda reinava nos Estados Unidos e no Canadá.

Em certa partida, em 1979, contra o San Jose Earthquakes, Johnston ia cobrar um escanteio, mas decidiu tomar um gole da cerveja de um torcedor que estava escorado no balaústre ao lado do campo. O escocês bateu e cruzou bem na cabeça de um colega, que marcou o gol. “Me lembro que foi um outro escocês que me perguntou se eu estava com sede antes de bater aquele escanteio. Eu disse que sim, mas a cerveja estava muito quente“, disse o ponta-esquerda ao site do Vancouver Whitecaps, em 2014.

A fase na NASL rendeu um título, idolatria eterna e até mesmo a criação de uma pequena torcida em seu nome, a “Willie’s Corner”, naturalmente uma homenagem ao episódio da cerveja em San Jose. E ele não saiu do Canadá sem uma encrenca memorável: o Whitecaps enfrentou o New York Cosmos de Giorgio Chinaglia, outro esquentadinho de marca maior.

De tanto provocar o italiano, Willie conseguiu iniciar uma briga campal com mais de 20 jogadores. Do meio-campo, o pacífico Franz Beckenbauer observava e se divertia com as pancadas, ao lado do inglês Alan Ball, que atuava por Vancouver. Se algum roteirista famoso resolvesse inventar uma história de um jogador de futebol, ainda assim ela seria bem menos surreal do que a de Willie, que também chegou ao ponto de fechar negócio por uma estufa (!!!) enquanto defendia o Whitecaps. A compra foi resolvida em dois jogos com um torcedor que ficava na primeira fila da arquibancada, bem perto do campo. A cada vez que passava pelo setor, o escocês avançava na conversa, até que fez uma proposta final, prontamente aceita pelo torcedor.

Um breve retorno ao Rangers em 1980 foi marcado por um episódio que poderia ter sido fatal. Em um clássico com o Aberdeen, Willie teve desavenças com John McMaster e, levado ao seu limite, derrubou o adversário e pisou em sua garganta. McMaster precisou ser atendido às pressas pelos médicos e recebeu respiração boca-a-boca para não morrer em campo. Este é o único feito que Johnston não se orgulha e reconhece que se excedeu, mas com o ponto de que pensava que estava atingindo Willie Miller, outro beque com fama de coisa ruim.

A carreira de Willie, nos bons tempos, foi quase que resumida a apanhar e dar o troco. Isso fez com que ele fosse visado pela Federação Escocesa, que levou muita grana com suas multas. O humor ácido e insolente ajudou a consolidar a fama de vilão para as autoridades. Contudo, ele nunca abaixou a cabeça. Nos anos 1960, ele foi sumariamente impedido de fotografar suas contusões, gerando assim provas para limpar a sua barra, afinal, poucos saíam do gramado com tantos hematomas e inchaços como ele.

Forçado a pagar 200 libras por sua má conduta, se virou para um árbitro e disse: “Vocês vão usar esse dinheiro para jantar, eu sei. Apenas estou pagando pelo vinho“. Esse era Willie Johnston. Um personagem que se não tivesse existido no futebol mundial, certamente teria de ser inventado.

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