Marinho: A triste história do brasileiro que um dia teve tudo

Em 1985, o Brasil se rendia ao talento do atacante Marinho. Em grande fase, superou várias adversidades para se tornar ídolo no Bangu. Mas a vida não foi sempre generosa com o mineiro. Ele nunca mais se reencontrou com os seus bons tempos, talvez nem na própria lembrança.

Para muitos homens comuns, o sucesso pode ser algo passageiro. Aproveita-se ao máximo a boa onda, a sensação de triunfo, o reconhecimento e o auge. E aí, poucos conseguem manter por décadas o brilho e o alto padrão de vida.

No caso de Mário José dos Reis Emiliano, nunca foi fácil. Mas ele conseguiu superar as adversidades de uma infância pobre para prosperar no futebol. O progresso do atleta caminhou de mãos dadas com a evolução do homem por algum tempo. E assim, Marinho saiu da modéstia para colher os frutos de seu talento com a camisa do Atlético Mineiro. Ponta-direita arisco, habilidoso e que só parava dentro do gol, fez sua fama ainda enquanto juvenil, sendo convocado para equipes de base da Seleção Brasileira. Quando surgiu, em 1976, disputou logo os Jogos Olímpicos de Montréal com o Brasil. Tinha tudo para decolar na carreira.

A fama de desligado que tinha entre os colegas não durou muito. As broncas da mãe eram uma forma de cobrar mais atenção e dedicação. Em pleno potencial, Marinho podia ser um dos melhores do país. Assim se provou anos depois, com maturidade e uma oportunidade clara. Os anos de Atlético o tornaram em uma promessa não cumprida, mas o destino deu suas voltas.

Uma passagem frustrada pelo América de São José do Rio Preto culminou em uma troca com o Bangu. Levado para a equipe de Moça Bonita durante a fase mais ostentadora de Castor de Andrade, o mineiro foi acolhido no Rio e despontou de vez.

O reinado em Moça Bonita

Os grandes anos de Marinho foram durante a década de 1980. Mas tragédias pessoais minaram a alegria e o fim da carreira

O menino que ajudava a completar a renda doméstica catando lixo nas ruas de Belo Horizonte triunfou e se apresentou como um dos grandes jogadores de uma década saudosa para o futebol brasileiro. Entre tantos títulos do Flamengo, do Fluminense e do Grêmio, Bangu e Coritiba roubaram a cena em 1985 para fazer uma final dramática.

Gols, atuações nota 10, o mundo não era o bastante para Marinho. Sensação daquele Brasileiro vencido pelo Coxa, poderia ter coroado um ano inspirado com o título nacional e o do Carioca. Detalhes separaram o Bangu da eternidade, mas os dois vices serviram para erguer a moral da torcida.

As taças não vieram, mas Marinho ganhou seu espaço na história do futebol brasileiro. Foi o Bola de Ouro da Revista Placar e ainda entrou na seleção do campeonato como o melhor ponta-esquerda da competição, em 1985. Aí que ele notou que havia superado os seus sonhos. Estava rico, tinha uma família constituída, não faltava dinheiro (Castor sempre lhe presenteava com grana em espécie), fama, nada. Talvez uma presença na Seleção, algo que um simples amistoso contra a Finlândia não deve ter resolvido. Enfim, Marinho tinha quase tudo e não podia reclamar.

As ganas de vencer na vida se deviam não só à origem humilde, mas ao drama familiar antes de virar jogador. O ponta-esquerda perdeu uma irmã quando jovem, e era ela que fazia questão de leva-lo aos treinos do Atlético Mineiro. Por anos ele se descolava do mundo como forma de esquecer o trauma, daí a noção de que ele talvez não entendesse como as coisas funcionavam.

Do Bangu para o Botafogo, onde foi bicampeão carioca em 1989 e 90. Já não era o mesmo jogador, ofuscado por problemas extra-campo. Em 1988, enquanto defendia o Bota, sofreu uma grave lesão e precisou parar por algum tempo. Enquanto concedia uma entrevista à TV, seu filho se afogou na piscina de casa. A perda de Marlon afetou seriamente o resto da trajetória de Marinho, que entrou em uma decadência irreversível.

Com a mesma velocidade que se consagrou como craque do último grande Bangu, Marinho chegou ao fundo do poço. A fortuna secou, a família se desfez, a fama o abandonou. Os carros chiques e as casas luxuosas também se desmancharam rapidamente. A realidade passou a ser a bebida e o uso excessivo de drogas, razões compreensíveis para que um atleta saia dos trilhos e perca o controle.

A solução não estava no fim do copo. O furacão que encantou o Brasil em 1985 deteriorou rapidamente. Ainda teve mais duas passagens pelo Bangu, mas era difícil remar tudo de novo, enquanto o corpo envelhecia. Apenas em 1996 se aposentou, mas a impressão era que estava parado há muito tempo. A vida não foi muito mais gentil com o craque, que foi esquecido pelo público e vagou pelas ruas de Bangu, chegando a dormir em uma praça da cidade.

Algumas pessoas mais próximas o ajudaram, assim como o próprio clube em que viveu seus melhores dias, oferecendo moradia e uma ajuda de custo. Com o tempo, foi se reerguendo. Virou auxiliar técnico no Bangu, montou uma equipe amadora de futebol para preparar garotos, voltou para perto dos filhos e se manteve em contato com a bola, grande companheira nos bons e maus momentos.

Em 2015, Marinho sofreu com um quadro de tuberculose e ficou internado por algumas semanas. O efeito maior que se deu em sua saúde após o alcoolismo e uso de narcóticos foi a perda de memória. Restaram poucos recortes felizes do passado e o rosto do antes vigoroso atacante alvirrubro hoje é quase irreconhecível.

Os campos de terra e o M-7 (equipe apadrinhada por Marinho) são a esperança de dias melhores para o homem de 59 anos que tem no campo o motivo para seguir lutando, de pé, contra tudo que já enfrentou e ainda há de encarar.

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