Só há um Mister Europa: Francisco Gento

Seis vezes vencedor da Copa dos Campeões da Europa, Francisco Gento até hoje é o detentor do recorde individual de conquistas do torneio. Capitão do Real Madrid nos anos 60, o atacante foi o xodó da casa ao lado de Puskas e Di Stéfano.

Ser campeão da Europa não é algo que poucos jogadores tenham conseguido na história do futebol. Até os anos 1970, nos primeiros anos de Copa dos Campeões, um seleto grupo de atletas chegou ao topo da competição mais desejada por clubes no continente. Entre estes felizardos está Francisco Gento, uma lenda do esporte que conduziu o Real Madrid ao posto de maior potência do mundo.

Ao longo de quase 20 anos de carreira, Paco passou por apenas dois clubes: Racing Santander, e claro, o próprio Real Madrid. Quando ele chegou à equipe madridista, ainda nem havia um torneio que concentrasse as principais potências europeias. E quando parou, colecionava seis taças da Champions, vivendo uma entressafra até a sua aposentadoria, em 1971.

Gento posa ao lado de Di Stéfano e Puskas: ser grande em um time daqueles é um feito estrondoso por parte do espanhol

O Real se apresentou para o mundo mais ou menos da mesma forma como faz hoje. Atropelando a concorrência e gastando muito dinheiro com contratações. O limite de estrangeiros, no entanto, barrou o que seria uma constelação internacional. De forma marcante, caras de fora da Espanha como o goleiro Rogelio Dominguez, o meia Raymond Kopa, os atacantes Alfredo Di Stefano, Héctor Rial e Ferenc Puskas deixaram seus nomes como no hall da fama madridista. De 1956 até 60, período de amplo domínio, os estrangeiros mudaram pouco.

No início dos anos 1960, a potência finalmente saiu do pedestal e deu lugar ao Benfica, campeão europeu em 1961 e 62. Em 1966, o Real voltou a vencer, agora apenas com espanhóis na equipe titular que disputou a final com o Partizan. A geração estava mudando e não seria tão impactante quanto aquela de Puskas e Di Stefano. Entretanto, Gento esteve lá para dar à torcida um pouco mais de confiança na vitória. O ponta-esquerda veloz não dava chances aos adversários e fez seu nome como titular de um esquadrão simplesmente fantástico.

Contar a história de Gento é também contar o rico palmarés madridista, no auge de sua forma. A viagem no tempo parte de 1956. Começava a Copa dos Campeões e o Real enfrentava os franceses do Stade de Reims na decisão. O palco era o Parc des Princes, em Paris. Com certa dificuldade, o Real virou um placar de 2-0 contra a partir dos 14 minutos. Di Stéfano, Rial (2x) e Marquitos fizeram os gols que deram a vantagem aos espanhóis no placar.

Gento, o ponta-esquerda, foi um dos quatro homens na penúltima linha de ataque. O que liderava o pelotão, isolado na área, era Alfredo, o Flecha Loira. O Stade de Reims ainda diminuiu na segunda etapa com gol de Hidalgo, mas o estrago já estava feito. O capitão Miguel Muñoz ergueu a taça pela primeira vez, em um gesto que seria repetido várias vezes até 1960.

No ano seguinte, em 1957, lá estava o Real de novo na decisão. Diante da Fiorentina de Julinho Botelho, os madridistas mudaram um pouco a escalação titular. Gento seguia como titular no mesmo ofício, assim como Rial e Di Stéfano. Mas na ponta-direita estava um velho conhecido: Kopa, vice-campeão com o Stade de Reims em 1956. A formação seguia a mesma: um ousado 3-2-4-1 do técnico José Villalonga Llorente. A partida se resolveu apenas na segunda etapa. Di Stéfano abriu o placar aos 69, de pênalti, e Gento ampliou aos 75, fechando a conta. Um 2-0 suado, mais uma taça para Muñoz levantar. O Real se sagrava bicampeão.

Em 1958, nova dificuldade contra italianos. O técnico Luis Carniglia foi obrigado a fazer algumas mudanças na equipe de 1957, perdendo Muñoz, Torres, Marquitos e Mateos entre os titulares. O capitão foi o goleiro Juan Alonso. Diante do Milan de Cesare Maldini, Juan Schiaffino e Nils Liedholm, novamente o Real saiu atrás. Schiaffino, campeão mundial em 1950, abriu o caminho para os rossoneri, mas Di Stéfano, sempre ele, buscou o empate. O Milan respondeu com Grillo, mas Rial empatou, três minutos depois. A partida foi para a prorrogação, e aí Gento decidiu logo no começo da segunda etapa.

A popularidade daquele Real era tanta que a geração ganhou o apelido de “Yé-Yé”, uma alusão ao estilo dos Beatles que arrebatou milhões de corações ao redor do mundo com músicas que grudavam no ouvido. Não à toa, o clipe do tri europeu no canal madridista leva a trilha sonora da banda inglesa.

Passamos então para 1959, ano do tetra. Outra vez, o adversário foi o Stade de Reims. Carregada pelos gols de Just Fontaine, a equipe francesa mudou bastante, mas continuou forte em seu país. Mas quando era final europeia, a coisa mudava de figura. O Real de Carniglia teve Dominguez de volta ao gol e Zárraga como capitão. De resto, a equipe titular era essencialmente a mesma. O placar no Neckarstadion em Stuttgart foi de 2-0 para os merengues, com gols de Mateos (logo no primeiro minuto) e… Di Stéfano, como não poderia ser diferente.

O reinado madridista se estendeu em 1960, com o quinto título e o último de Di Stéfano. E o argentino se despediu com estilo. Muñoz, o capitão bicampeão, assumia como técnico. O adversário na decisão foi o Eintracht Frankfurt. Em Glasgow, uma goleada sem precedentes e com show de Alfredo e Puskas. Três do Flecha Loira e quatro do Major Galopante. Com o placar de 7-3, o Real acenava para se distanciar do trono de único campeão europeu. Apesar das mudanças radicais no elenco, Gento seguia como o ponta-esquerda.

Para encerrar uma fase icônica e jamais repetida, o Real perdeu as decisões de 1962 e 64 para Benfica e Internazionale, ambas com Puskas, Di Stéfano e Gento em campo. A geração vitoriosa estava envelhecida e dava lugar a novas forças no continente. Apesar de marcar três vezes contra o Benfica, Puskas não foi capaz de impedir os cinco gols dos Encarnados, liderados por Eusébio.

As seis taças de Gento: marca do ponta-esquerda até hoje não foi alcançada

Em 1966, mais uma decisão para os gigantes de Madri. Muñoz armou um esquema no 4-2-4 e deu a Gento a faixa de capitão. Ao lado dele, jogaram Grosso, Amancio e Serena, esperanças de um novo Real avassalador. Que nunca se cumpriu, diga-se de passagem. Na partida de Heysel, vitória de virada dos espanhóis, por 2-1. Amancio e Serena marcaram e Gento finalmente pôde experimentar o gostinho de erguer uma taça da Copa dos Campeões como o líder. Um prêmio para um perseverante atleta que pegou o início e o ocaso de uma equipe vencedora na Europa.

Cinco anos depois, em 1971, com seus 38, Gento pendurou as chuteiras e entrou definitivamente para o grupo dos multicampeões. Deixou o papel de atleta para se transformar em uma lenda viva. Doze vezes campeão espanhol (outro recorde isolado), seis da Europa, duas da Copa do Rei, Paco também ergueu duas vezes a Copa Latina e venceu o Intercontinental de 1960 contra o Peñarol.

Falar de Liga dos Campeões pode até remeter ao domínio de Messi, Maldini e outras feras, mas ainda hoje, no topo dessa lista, Gento reina sozinho há mais de 50 anos.

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