O jornalismo esportivo brasileiro está colhendo o que planta

A era da fofoca explodiu de vez com um ataque raivoso de Eduardo Baptista após a vitória do Palmeiras no Uruguai. Irritado com especulações e histórias de bastidor inventadas, o técnico protagonizou um momento de fúria que merece reflexão.

Se existe uma torcida que sempre acha que está sendo perseguida pela imprensa, esta é a palmeirense. E por mais que seja uma sensação equivocada em termos gerais, a preocupação não surgiu de repente ou sem motivo algum. A transformação do papel da imprensa esportiva nas últimas duas décadas ajudou a estigmatizar personagens, situações e a criar crises que nem sempre existiam, mas aumentavam a pressão dentro de um elenco.

Não é nenhuma novidade que um simples tema debatido à exaustão nos veículos de grande porte pode derrubar um treinador, para dizer o mínimo. Muitas vezes essa pressão aparece disfarçada de “desejo da torcida”, quando na verdade é um conjunto de interesses obscuros que atendem pessoas protegidas pelo anonimato. Essas pessoas, muitas vezes conselheiros ou membros diretivos de um clube, plantam informações na mídia com a ajuda de jornalistas despreparados ou despreocupados com os efeitos colaterais. O que importa é ver o circo pegar fogo, coberturas de crises sempre são rentáveis.

A bola da vez é Eduardo Baptista, um treinador que chegou ao Palmeiras em um momento importante. O clube paulista tenta subir mais um degrau na conquista da Libertadores e, para muitos, o comandante não está à altura de seus jogadores. Essa sensação começa com uma opinião aqui, outra ali, uma coluna semanal, um jornal endossando esta teoria. E quando vemos, quase tudo o que se sabe sobre a filosofia deste treinador depende apenas de palpites de quem pouco acompanha as suas rotinas de trabalho.

Eduardo está na berlinda. A eliminação catastrófica para a Ponte Preta na semifinal do Paulista e as atuações pouco convincentes do Verdão na temporada consolidaram a noção de que ele não está preparado para o cargo. Pouco se discute a importância de suas variações táticas (virada na raça contra um limitado Peñarol) ou do desempenho individual dos jogadores (salvo Zé Roberto e Borja). A torcida tem o direito de pensar e reavaliar sempre se o técnico é uma boa opção ou não. Assim como a imprensa, que tem profissionais pagos exclusivamente para emitir um parecer sobre tudo o que acontece dentro e fora dos campos. Não existe opinião boa ou ruim. Existe a minha opinião, a sua e a do vizinho, do dono do bar, do taxista e do chefe de repartição.

Não está nas funções básicas da imprensa ouvir uma fofoca e repercutir algo sem que se tenha certeza dos fatos. Mas isso pouco importa na era do factoide, da meia-verdade, do suposto e do “teria feito”. Esse conceito de valor-notícia se distorceu quando algum canalha lá atrás resolveu especular em vez de dar uma informação completa. Com o tempo, notamos que o boato e o sensacionalismo atraem interesse similar ou maior do que a própria verdade oficializada por clubes e fontes. E quem trabalha com jornalismo já foi forçado a escrever matérias nesse sentido, por pura pressão vinda de cima.

A busca por audiência distorceu os princípios que regem a profissão. E não à toa, o jornalista esportivo brasileiro ostenta uma fama de palpiteiro, mentiroso e mal-intencionado. Em quantos repórteres você realmente confia? Quantos comentaristas ainda são levados a sério de fato pelo público consumidor? Quantas colunas você lê e crê cegamente que o jornalista responsável apurou suas fontes e tem certeza do que está informando em seu texto?

Todo mundo tem uma opinião, mas um pequeno grupo de pessoas é pago exclusivamente para este fim. O que diferencia o fanfarrão da TV aberta para o polemiquinho do botequim de esquina é justamente o preparo que o profissional tem (ou deveria ter) antes de abrir a boca para falar qualquer coisa. Mas até isso estamos jogando fora. Para não cair no senso comum, jornalistas disparam controvérsias aos quatro cantos, porque fazer barulho é muito mais rentável do que falar o que se pensa de verdade. Às vezes é melhor falar obviedades do que cair em descrédito por sandices. Com tudo isso, o público foi treinado a sempre dar audiência e palco aos malabaristas argumentativos.

Uma manchete que diz: “Fulano concorda com o juiz após cartão amarelo no fim do jogo” nunca vai receber mais cliques do que algo do tipo “Irritado, jogador xinga árbitro e ironiza cartão amarelo; veja o vídeo“. Simplesmente porque há uma necessidade de amplificar a confusão, se alimentando do eventual descontrole emocional que envolve uma partida. O povo lê isso porque é o que lhe oferecem. Houvesse uma estrutura saudável e uma preocupação com a qualidade, poderíamos reeducar o público. Mas quem consegue escrever um texto bom com tantas funções acumuladas, pressões internas e colegas sendo diariamente demitidos nas redações e afins?

Eduardo Baptista comprou uma briga de cachorro grande. Porque se opôs à prática já comum de boataria onde quem noticia sempre estará amparado por uma fonte secreta (outro princípio básico do jornalismo a ser respeitado) que vazou informações por qualquer interesse que seja. A mentira vale porque foi contada por uma pessoa importante dentro do clube, portanto, a culpa é deste delator desconhecido. Ignora-se o lado pessoal, porque jogadores ganham tão bem que podem ser atirados na lama ou na fogueira, pouco importa o desdobramento.

Técnicos podem ser pressionados por demissão e acusados de serem bundões o tempo todo, simplesmente porque o papel da imprensa é questionar, e quem não incomoda ninguém não está fazendo nada além de assessoria. São muitas desculpas convenientes para preservar a má conduta, mas nenhuma mudança ocorre de fato. E ninguém vai considerar alterar isso de forma séria pois, querendo ou não, não existe má publicidade. Quem concorda ou quem quer malhar o comentarista estará alimentando e servindo ao joguinho que norteia nossos veículos: quem chama mais atenção, ganha.

Não é de se surpreender que cada vez mais técnicos ou profissionais se mostrem perturbados com a forma como são retratados na imprensa. Eduardo é só mais um a aparecer de pavio curto por ter sido injustiçado, e como ele mesmo bradou na coletiva de quarta-feira, poderia ter sido Rogério Ceni, Fábio Carille, qualquer outro cara que ocupe um cargo de destaque em grande clube brasileiro.

Enquanto houver sanha por intrigas, vai haver gente insatisfeita por ser alvo delas. É todo um lado humano ignorado pelos índices de audiência e pela reprodução burra de falácias. Raciocinar mesmo, ninguém quer. Demanda esforço e um tempo que não temos disponível. Agora quem manda são os personagens e cada um rege o seu próprio alter-ego conforme a repercussão.

2 pensamentos em “O jornalismo esportivo brasileiro está colhendo o que planta”

  1. O jornalista novato e despreparado, conhecido por fazer colunas de fofocas foi o Juca Kfouri. Oh, wait…. É um dos mais experientes e respeitados jornalistas brasileiros, não? Parece que o senhor Felipe Portes gosta de dar palpite, mas é desinformado como uma porta.

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