Noite de Libertadores: Vergonha, sangue e glória

Nova guerra entre Peñarol e Palmeiras termina com virada alviverde e batalha campal no Campeón del Siglo. Felipe Melo ficou no olho do furacão e virou alvo dos uruguaios. Em outras partidas menos caóticas, o Atlético Paranaense se vingou do Flamengo e o Atlético Mineiro derrotou o Libertad. Apenas mais uma noite de Libertadores.

Impossível ganhar em paz

Impossível escrever uma crônica sobre Peñarol x Palmeiras sem flertar com a insanidade. Pela terceira vez seguida, o time de Eduardo Baptista testou os limites da torcida e venceu de forma dramática: 3-2 no placar, atuação ridícula no primeiro tempo e uma reação sem precedentes no segundo. Jean, Mina e Willian tiveram papel fundamental. E é tudo que quem não viu a partida precisa saber.

Vão falar por anos da briga, vão culpar única e exclusivamente Felipe Melo pelo soco desferido em Mier. Vão falar que o meia palmeirense provocou, bateu e correu. Mas a história é mais complexa. Falemos de quem não tem mais nada a perder e parte para a agressão após o apito final. De quem conta com uma polícia conivente para fechar os portões em cima dos visitantes que estão encurralados como numa operação de gangue. A reação de Felipe em São Paulo pode até ter sido engraçada para alguns, mas o que se esperava de alguém que sofreu ofensa racial? Não se justificam jamais os atos de selvageria, apenas não se pode esquecer a raiz de todo o problema.

Felipe não se ajudou na história do “tapa na cara de uruguaios”. E tampouco o chiste racista se sustenta como uma resposta ao jogo mental do volante brasileiro. O Palmeiras que saiu para o segundo tempo em Montevidéu tinha outra cabeça, outros nervos, trouxe culhões. Nem toda a intimidação do Peñarol foi capaz de impedir a virada e a vitória triunfal. Em tempos onde a crise está a apenas uma derrota de distância, a imprensa amplifica e endossa as intrigas, minando qualquer possibilidade de paz. Em tempos onde é fácil colocar um alvo no peito do vilão, todo caos é culpa de palavras desmedidas vindas de um personagem criado e alimentado por polêmicas.

Nunca foi tão fácil manter um rótulo como o que está acima da cabeça de Felipe Melo. Ele é o bandido perfeito. O catalisador e a causa de qualquer briga que vá acontecer no Palmeiras enquanto ele estiver em cena. Esquecem de toda a pressão colocada neste caldeirão alviverde, que transborda em ocasiões decisivas como esta. Infelizmente, a noite de quarta-feira não foi apenas sobre futebol, mas a respeito de um episódio vergonhoso onde um time foi levado ao seu limite e sobreviveu por um fio. Porque se dependesse da polícia uruguaia, estaríamos relatando um massacre.

Sobraram os dentes e as histórias para contar, dos dois lados. Um deles, com toda a força das manchetes e das invenções sensacionalistas, vai se esquecer convenientemente do contexto de intimidação e selvageria vivido pelos palmeirenses em Montevidéu. E mais: também vai explorar por semanas o descontrole emocional deste mesmo elenco que quase foi espancado no Campeón del Siglo. Por puro corporativismo, proteção aos que denigrem e não dão a cara a tapa. Valentes ou covardes, meus amigos, fiquemos com o lado humano dessa questão.

O Palmeiras não é vítima de nada. É só a ponta do iceberg de todo um sistema asqueroso. Que no âmbito futebolístico, o mais importante, fez história. Quem alimentou essa raiva agora vai ter de lidar com ela. E sem apelar para a maldita pós-verdade.

Por falar em Furacão


Em Curitiba, outra revanche teve lugar na Arena da Baixada. O Atlético Paranaense se vingou do Flamengo com o mesmo placar que havia sido derrotado no Maracanã. Não foi tranquilo, não foi sem algum sufoco diante do bom time de Zé Ricardo. Mas deu certo e os atleticanos encerram a rodada na liderança da chave, um baita alívio para a sequência do torneio.

Os nomes da noite na capital paranaense foram Thiago Heleno e Gedoz. Durante um bom tempo da partida, o Atlético fez por merecer sua vantagem, mas quando o placar parecia satisfatório, relaxou demais e deixou o Flamengo esquentar até acordar de vez. Por pouco os cariocas não puniram a equipe de Paulo Autuori pela inércia. O gol de Willian Arão deixou um gostinho de quero mais para os visitantes, que tentaram impor a superioridade técnica, mas esbarraram na postura firme da defesa dos donos da casa.

Todo jogo é uma batalha neste grupo tão acirrado. Para o Atlético, dar o troco em um rival direto é questão de vida ou morte. Ainda favorito, o Fla segue sua caminhada contra a Universidad Católica, no Rio, e encerra sua participação visitando o San Lorenzo, que provavelmente já estará eliminado na última rodada.

Dois jogos restantes. O Atlético volta a respirar e pode encaminhar a vaga se bater o San Lorenzo na próxima semana. Ao Flamengo, resta recuperar o bom caminho traçado no primeiro turno para demolir a Católica dentro de seu covil. Tudo desenhado para uma dupla festa brasileira, colorida em rubro-negro.

São Victor ataca novamente

Foto: Bruno Cantini/Atlético Mineiro

Victor voltou. Em dia difícil, o Atlético Mineiro recebeu o Libertad no Independência para apagar a péssima impressão deixada pela derrota de semana passada em Assunção. O goleiro alvinegro, com toda a sua importância histórica para o Galo, exerceu papel de liderança e salvou o time de sofrer gols que teriam desmoronado o lado emocional dos comandados de Roger Machado.

Como este Galo é muito experiente e rodado em competições internacionais, foi possível contornar o abafa que os paraguaios iam fazendo em campo. Mas os gols que tranquilizaram a massa atleticana só saíram na segunda etapa. Primeiro Robinho, depois Cazares. Os craques que dão asas ao sonho do bicampeonato. Vai ser bem mais difícil do que naquela incrível arrancada de 2013, mas eles não se importam. Se tem algo que o Galo gosta de fazer é quebrar a desconfiança.

O Libertad não vende barato seus pontos. E batalha com garra, superando seus próprios limites. Contudo, quem manda no Independência durante a Libertadores é este Atlético, um time letal e que atua em alto nível quando corresponde ao seu potencial. Lá atrás, o santo limpava a barra da zaga. Na frente, o Rei das Pedaladas abandonava as firulas da juventude para fazer um jogo maduro.

Mais três pontos para a sacola do Atlético, que se aproxima da vaga nas oitavas. Com um pouco mais de emoção do que a encomenda, é verdade, mas respeitando a sua tradição e a força de seu plantel.

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