O voo do maranhense Oliverrá no futebol europeu

Lançado ao futebol profissional pelo Anderlecht, Luís Oliveira foi descoberto por olheiros no Maranhão. Anos depois, passou pelo futebol italiano e se naturalizou belga, defendendo até a seleção na Copa de 1998. Mas como ele foi parar lá?

Durante os anos 90, muita gente se perguntava como é que um brasileiro tinha ido parar no futebol italiano sem ter sequer defendido uma equipe em sua terra natal. Completamente desconhecido das torcidas do Brasil, Luís Oliveira trilhou uma longa caminhada.

O futebol corria no sangue da família dele. Filho de Zezico, ídolo do Moto Club nos anos 1960 e 70, Luís começou como atacante nas equipes juvenis do Tupan, de São Luís, cidade onde nasceu. Antes mesmo de fardar como profissional, o garoto já estava tomando o caminho que muitos sonharam: em 1985, com apenas 16 anos, foi convidado para fazer testes na Bélgica por olheiros do Anderlecht. Muito novo e inexperiente, precisou se adaptar às diferenças culturais e de idioma.

Os grandes clubes maranhenses provavelmente não conheciam a capacidade de Luís. E por não perceberem que estavam lidando com um jogador promissor, só tomaram nota quando o viram em uma Copa do Mundo por outro país. Muito cedo, Luís Oliveira se transformou em “Luí Oliverrá” para o povo de Bruxelas. Ele construiu com gols a sua fama.

Oliverrá precisou de três anos para estrear de fato com a camisa do Anderlecht. Foi bem preparado em todas as etapas até que chegasse pronto ao time principal. Bicampeão da Copa da Bélgica e da Liga Belga, não era exatamente um artilheiro, mas sua função em campo era a de auxiliar os centroavantes e, se possível, marcar os seus como uma arma secreta. Com tantos títulos, acabou convencendo os dirigentes do Cagliari com o seu futebol.

Em 1992, já servindo a seleção belga após o processo de naturalização, deixou Bruxelas e se mudou para a Sardenha. A expectativa era grande de estar em uma liga relevante e ganhar alguns pontos para quem sabe jogar a Copa de 1994. À aquela altura, tentava se firmar na Itália como titular. Na temporada de estreia, participou de 29 jogos e marcou gols. A média melhorou em 1993-94, com 39 partidas e 16 gols. Nem isso dobrou o técnico dos Diabos Vermelhos, Paul Van Himst: o comandante optou por não leva-lo à Copa do Mundo nos Estados Unidos.

Foram quatro anos com a camisa dos rossoblu e Oliveira saiu em 1996 para jogar na Fiorentina. Os 45 gols no Cagliari lhe deram o status de ídolo, tal qual a passagem no Anderlecht. A Viola estava tentando se restabelecer depois de uma rápida queda para a Serie B. Sob o comando de Claudio Ranieri, a equipe havia sido campeã da Copa da Itália em 1995 e contava com Gabriel Batistuta em fase iluminada. Para Oliverrá, a disputa pela posição foi complicada, mas ele se virou bem.

Oportunista, veloz e sempre muito bem posicionado, ganhou o apelido de “Il Falco”. O instinto predatório somado à comemoração batendo asas fez dele uma figura muito querida na Itália, tanto pelo Cagliari quanto nos tempos de Fiorentina. Apesar de nunca ter sido protagonista, Luís aproveitou bem seus anos dourados. Aos 28 anos, jogava ao lado de um dos melhores do mundo como Batistuta, recebia passes de um já fora de série Rui Costa. Para quem era tão desconhecido na sua terra natal, estar bem cotado na Serie A era um sonho muito melhor do que ele havia projetado.

A Copa do Mundo e a peregrinação

Agora sim ele era respeitado. Estava naquele timaço da Fiorentina que chegou a sonhar com o título. Ganhou a companhia do explosivo Edmundo para se entrosar melhor com o restante da equipe. Enquanto isso, fazia história pela Bélgica. Era o primeiro não-europeu a defender a seleção dos Diabos Vermelhos e estava despontando com força para jogar a Copa do Mundo de 1998, na França. Os 15 gols serviram como credencial e ele embarcou como titular de sua seleção.

Aliás, nem nos sonhos mais loucos ele poderia competir com os atacantes que foram chamados por Zagallo para 1998. Ao menos na Bélgica gostavam dele, sabiam que ele era importante. Era o que importava. Apesar de ter passado em branco e a Bélgica ter sido eliminada ainda na fase de grupos, houve o que comemorar.

Contudo, depois dos 30 anos de idade, Oliverrá entrou em uma fase que todo futebolista teme: quando o corpo deixa de responder adequadamente aos instintos. Em 1999, voltou ao Cagliari e iniciou uma peregrinação por equipes menores na Itália. No ano seguinte, foi para o Bologna, em seu último ano de futebol na Serie A. Luís então passou por Como (27 gols na temporada, sua melhor marca), Catania, Foggia, Venezia, Lucchese, Nuorese e Derthona, este último na quarta divisão italiana, em 2009. Ainda jogou pelo Muravera, em uma divisão semiprofissional da Sardenha, dividindo-se entre a função de atacante e treinador. Hoje faz parte do hall da fama do Cagliari pelos serviços prestados nas duas ocasiões em que vestiu rossoblu.

O desejo de ser técnico foi levado adiante. Ele começou no próprio Muravera e anos depois, está firme no comando do Floriana, na liga de Malta. Quem sabe pinte em algum campeonato de maior projeção no futuro. Sempre com passos pequenos, assim como fez em sua meteórica carreira no início dos anos 90. Oliverrá é puro folclore.

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