Marzolini, um ídolo que atravessou as décadas pelo Boca Juniors

Considerado o maior lateral-esquerdo da história do futebol argentino, Silvio Marzolini se transformou rapidamente em ídolo no Boca Juniors. Como atleta e depois treinador, conquistou muitos títulos e viu do banco de reservas o nascimento de um gênio como Diego Maradona.

Nos anos 1950 e 60, era difícil alguém conquistar o coração da torcida de um time de futebol. O romantismo e as duras divididas consolidavam a bravura dos que brigavam pela bola, mas idolatria, mesmo, era um caso raro. Até porque eram poucos os casos de gênios da bola, em qualquer posição.

Depois de Pelé, ser o melhor de qualquer posição virou um fardo enorme. E muitos não souberam lidar com isso. Não era o caso de Silvio Marzolini, que saiu do Deportivo Italiano para defender o Ferro Carril Oeste e depois assinou com o Boca Juniors, no que seria o contrato da sua vida. E da vida de muitos xeneizes também, por consequência.

O ano era 1959 e Silvio fazia sua estreia como profissional pelo Ferro Carril, uma equipe mediana que teve seu auge nos anos 80, disputando a Copa Libertadores. E suas atuações, assim como as do goleiro Antonio Roma, chamaram a atenção do Boca, que os contratou no início do ano de 1960. Logo, os boquenses viram que a transferência foi algo de sensacional.

Marzolini se destacava, entre outras coisas, pela classe ao conduzir a bola, por sua precisão e pela visão de jogo. Era raro vê-lo errar um passe ou uma saída, na posição de um defensor que apoiava pelos lados. Como os laterais ainda não eram exatamente um primor ofensivo naquela época, Silvio não era muito visto no campo de ataque ou tentando cruzar uma bola na linha de fundo.

Ao lado de Di Stefano, quando o monstro do futebol foi treinar o Boca, em meados de 1969

Foram 12 anos de serviços prestados ao clube. Cinco títulos da Primera División e um da Copa Argentina, além de duas participações como titular em Copas do Mundo, nas edições de 1962 e 66. Marzolini chegou à segunda na Inglaterra e fez um excelente papel, sendo escolhido como o melhor atleta de sua posição em todo o torneio. Nenhuma surpresa para os argentinos, que já conheciam bem sua capacidade.

Poucos jogavam com a exuberância de Marzolini naquela época. Dentro do país, nenhum chegava aos seus pés. Fora da Argentina, Schnellinger, Facchetti e Nilton Santos eram os principais concorrentes. No coração dos torcedores do Boca, Marzolini era o maior, sem dúvida. Com ele, dominaram as competições locais e viveram um período glorioso nos anos 1960.

Mas o que faz do lateral um ícone do Boca não é só seu talento como futebolista. O homem Silvio Marzolini também fez muito para alimentar sua fama e reconhecimento. Quando vivia seu auge, teve a chance de emprestar alguns de seus melhores anos ao futebol europeu. Equipes como o Milan e o Real Madrid bem que tentaram oferecer muito dinheiro para atraí-lo, mas ele jamais aceitou. Em 1966, logo após a participação na Copa do Mundo, o Real e a Fiorentina quiseram contratar o destaque da ala esquerda, e mesmo que o Boca permitisse sua negociação, ao fim do dia eles jamais teriam a assinatura de Silvio no papel. Ele não tinha intenção alguma de deixar La Bombonera.

Ninguém nasce predestinado a ser bom ou pertencer a algo. Silvio não foi criado entre os juvenis em La Bombonera, provavelmente não respirou da atmosfera enlouquecedora do estádio do Boca ou da torcida mais famosa da América do Sul quando criança. Mas entregou tanto de si naqueles 12 anos, que seria impossível desassociar a sua imagem do Boca ou vice-versa.

Em 1972, quando se aposentou, a lateral-esquerda demorou bons anos para encontrar um substituto à sua altura. José Maria Suárez, bicampeão da Libertadores com o Boca em 1977 e 78, apesar dos títulos, falhou em deixar um legado brilhante como o de seu grande tutor. Mas os dois estiveram juntos em 1981, temporada em que Marzolini conquistou seu último troféu com a equipe xeneize. Do banco de reservas, Silvio conduziu o clube azul y oro ao título do Metropolitano. Em campo, Diego Maradona roubou a cena para sempre.

Marzolini e Maradona: encontro de ídolos rendeu o título do Metropolitano em 1981 ao Boca

Curiosamente, o grande opositor do Boca naquela competição foi o Ferro Carril, equipe que revelou Silvio para o futebol argentino. Com 50 pontos, o Boca faturou a taça, enquanto o Ferro somava 49 na tabela final. Maradona terminou o Metropolitano como artilheiro do time, somando 17 gols. Apesar de ter destruído vários rivais ao longo das rodadas, Diego teve problemas pessoais com Marzolini, a quem considerava rígido demais de acordo com seus princípios. Contudo, foi a postura do treinador que acabou moldando o craque como um astro irresistível naquela década.

No começo da campanha, o Boca foi mal e sofreu várias pressões por parte da torcida. Em um episódio, integrantes de La 12 entraram armados no campo de treino para pressionar a equipe e a comissão técnica por resultados. O susto deu efeito e Maradona respondeu em campo, liderando o elenco rumo ao título, conquistado na última rodada contra o Racing, após empate por 1-1.

O grande jogo da campanha, sem dúvida, foi contra o River Plate, na Bombonera, com vitória por 3-0 de Marzolini e seus comandados. E claro, Maradona marcou seu nome no clássico com um gol humilhante driblando Tarantini e Fillol. A relação entre técnico e camisa 10 não durou muito mais que aquilo: em 16 de dezembro, o comandante se afastou do cargo e deu lugar a Vladislao Cap. Maradona ficou até 1982 no clube, sendo negociado com o Barcelona.

Marzolini se emocionou ao ver a sua estátua no museu do Boca, em 2015

Um eventual retorno foi feito em 1995, justamente em outro momento em que Maradona defendia o Boca, ainda que em fase difícil e decadente. A dupla chegou a se entender, mas não conquistou nada como se esperava. Marzolini passou então a atuar como dirigente e se dedicou a trabalhar com futebol de base nos anos seguintes, pelo Banfield.

Em 2015, o justo reconhecimento a Marzolini foi feito por parte do Boca. O ex-lateral e treinador teve uma estátua feita e inaugurada em sua homenagem no museu do clube. Agora todos saberão o que aquele homem de bronze representa para a identidade xeneize. Da lateral-esquerda para a eternidade.

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