O ano em que o Anderlecht reviveu a maldição do Benfica

Surpreendendo na final da Copa Uefa de 1983, o Anderlecht bateu o Benfica e condenou os portugueses a mais um ano de lamento. A derrota pode até ter uma explicação simples e lógica, mas sempre há o fator místico envolvido: os Encarnados estavam amaldiçoados por um antigo técnico, o húngaro Bela Guttmann.

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Falou em maldição, falou no Benfica. Nenhum outro clube é tão grande dentro de seu país e conta com tantas histórias de azar na Europa quanto os encarnados. Bicampeões europeus em 1961 e 62, os portugueses nunca mais venceram outra taça continental, graças a uma praga de 100 anos proferida por Bela Guttmann, treinador que pediu um aumento para continuar no clube e foi esnobado pelo presidente em 1962. A história completa você pode ler no link acima, isso se já não souber de cor os acontecimentos.

Pois bem, o Benfica já havia experimentado da derrota em outras finais da Copa dos Campeões, em 1965 e 68. Em 1983, com uma equipe quase que inteiramente portuguesa, o clube lisboeta foi surpreendido pelo fenômeno belga do Anderlecht na decisão. Em dois jogos, os comandados de Sven-Goran Eriksson foram incapazes de impedir a façanha dos adversários.

Van Himst: ídolo do Anderlecht voltou em 1983 para conduzir o time ao inédito título europeu

À frente do plantel de Bruxelas estava o experiente Paul Van Himst, ídolo nacional que atuava como centroavante e teve longa carreira pelo próprio Anderlecht. Aposentado em 1977, assumiu no início de 1983 o posto que mudaria a história do clube. No caminho até a final, os belgas passaram com razoável facilidade por: Kuopio da Finlândia, Porto (6-3 no agregado), Sarajevo (6-1 no total), Valencia (5-2 na soma dos placares) e Bohemians, após duas vitórias ante os tchecos. As goleadas conseguidas nas fases anteriores deram moral aos violetas.

Por outro lado, o Benfica só não precisou suar tanto contra o Lokeren e o Zurich, mas enfrentou pedreiras como Roma e Universitatea Craiova até chegar na decisão. Evidente que os Águias desfrutavam de favoritismo, mas só mesmo com a bola rolando é que se saberia quem estava mais pronto para a conquista. O Anderlecht tinha a base da seleção belga da época e contava com uma formação dinâmica.

Quando precisava atacar, usava o clássico 4-4-2. Fora de casa, Himst se fechava bem para conter os avanços adversários e escalava três zagueiros, dois laterais, quatro meias e uma referência na frente. Destacavam-se o líbero veterano dinamarquês Morten Olsen, os meias Coeck, Lozano e Vercauteren, além do atacante Vandenbergh.

Um drible para a história

Em maio de 1983, Benfica e Anderlecht disputaram as duas partidas que decidiram o título daquela edição da Copa Uefa. Independente do vencedor, seria uma conquista inédita. No dia 4 de maio, em Bruxelas, o gol do jogo foi uma obra-prima: o ala De Groote inverteu a jogada, achando Vercauteren na ponta direita. O capitão e camisa 8 fintou dois marcadores rapidamente e cruzou de trivela. A marcação foi frouxa no dinamarquês Brylle, que subiu para testar a bola e garantir a vitória.

Apesar dos esforços de ambas as equipes, o placar ficou mesmo no 1-0 a favor dos belgas, que saíram em vantagem para o duelo de volta. Uma chance perdida por Diamantino, na segunda etapa, acabou com a moral restante dos benfiquistas.

Ataque contra defesa

A proposta do Anderlecht foi totalmente diferente em 18 de maio, no Estádio da Luz. Jogando em campo inimigo, o selecionado de Van Himst fechou a casinha para não sofrer gols e assim ficar com a taça. Mas ela não veio sem um pouco de drama. Eriksson, completamente pressionado pelo resultado de ida, colocou três homens na linha de frente: Diamantino, Nené e Chalana. Filipovic, a esperança de gols, só entrou na segunda etapa.

Logo no começo da partida, Vanderbergh meteu uma bola na rede, mas a arbitragem assinalou que ele estava em posição irregular. Teria sido ainda pior para Eriksson e seus comandados. A cada ataque belga, a torcida local tremia na base. Um gol deles colocaria fogo na partida. Quando o Benfica parou de sofrer um bombardeio, se lançou à frente para tirar o zero do placar. Em uma dessas ofensivas, Shéu recebeu sem espaço no meio da área e emendou um canhão para o fundo da rede, aos 32 do primeiro tempo. Este gol manteve viva a esperança de uma reviravolta.

No entanto, o Estádio da Luz se calou menos de seis minutos depois. Vercauteren, sempre ele, desceu pela esquerda e cruzou. A bola atravessou a área e encontrou Lozano. No dois contra um, o zagueiro Bastos Lopes escolheu errado e deixou o espanhol livre para testar e empurrar para o gol. Com o empate, o Anderlecht se aproximava do título, aos 38 minutos. Eriksson mandou o Benfica para o abafa e, desesperado, o time português deu seu melhor para furar o bloqueio belga. Nené, em uma cabeçada fulminante, esbarrou no goleirão Munaron. Filipovic, que entrou como o possível salvador da noite, chegou a fazer um gol, também anulado por impedimento.

Era desesperador. E o Anderlecht encarou de frente a pressão para levar a taça para Bruxelas. Amargos, os encarnados tinham de se contentar com mais uma derrota na hora H. De alguma forma, as palavras de Guttmann ainda ecoam pelos lados de Lisboa. Foram mais quatro quedas em finais: na Copa dos Campeões em 1988 (PSV), 1990 (Milan) e na Liga Europa em 2013 (Chelsea) e 2014 (Sevilla). Restam 45 anos para que a maldição se acabe.

Para os belgas, a disputa na Europa também não tem sido muito feliz desde então. No ano seguinte, em 1984, tentaram o bicampeonato e esbarraram no Tottenham de Glenn Hoddle. Sem tanta relevância no cenário continental, os bruxelenses remaram até as quartas de final da atual edição da Liga Europa. Agora, o rival é o Manchester United, mas não há a mínima evidência de que o espírito de 1983 ilumine a atual geração.

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