Noite de Libertadores: O instinto selvagem que fez falta à Chape

Foto: GloboEsporte.com

A Chapecoense tropeçou outra vez como mandante na Libertadores e se complicou no grupo 7. Partida tensa contra o Nacional na Arena Condá levantou nova discussão sobre jogadas maldosas. No fim, o gol perdido por Túlio de Melo fez a diferença na noite de Chapecó.

É muito fácil sentar na frente de um computador para escrever uma crônica esportiva, escolher o tema e disparar várias meias-verdades. A mais frequente delas é comentar sobre um jogo de Libertadores e dizer que argentinos e uruguaios conseguiram um resultado somente à base de catimba.

Em um passado distante, talvez tenha sido assim a única forma de desfazer a vantagem emocional que um time brasileiro tem quando joga em casa. É fato que os jogos psicológicos também fazem parte do futebol e são permitidos, independente do fato de gostarmos ou não quando é o nosso time que está sendo enrolado. Um argumento defendido por esta casa é de que a cera não vale mais que um gol, mas continua sendo uma artimanha legal para se segurar um resultado. Ponto.

Quando a Chapecoense entrou em campo na terça-feira para enfrentar o Nacional, sabia que não teria facilidade. Afinal, no ano passado, uma equipe parecida do Bolso acabou com as esperanças de palmeirenses e corintianos na competição. Com um técnico diferente e outras mexidas na formação titular, a equipe uruguaia veio ao Brasil para não perder. E conseguiu isso com maestria.

Se esse empate em 1-1 veio com justiça, só na bola e sem nenhuma atitude criticável, é outra história. O que se precisa saber sobre o confronto é que a Chape encarou de frente o adversário, trabalhou bem para construir sua vantagem e merecia ter vencido. Mas merecer algo não quer dizer que você está a um passo de conseguir o objetivo. Reinaldo, de pênalti, abriu o placar. O Nacional empatou com Silveira, na segunda etapa, em um vacilo da defesa, um acidente.

Agora, o que se pode (e deve) questionar é a perna que sobra em dividida, a solada desnecessária, o chute na cabeça de um adversário que está no chão. Esqueça a palavra catimba por alguns minutos. Não foi disso que se tratou este jogo. Mesmo porque, o Nacional pouco enrolou quando esteve com a bola e atuou de forma a se defender dos ataques da Chape. Se retrancar não é errado e está longe de ser um crime, aliás, são poucos os times no mundo que partem dessa proposta e encontram o sucesso ao apito final.

O Nacional bateu mais do que deveria e em contextos desnecessários. Não se reclama do empurrão em dividida, do jogo de corpo, mas sim daquela entrada violenta por meio de uma solada na canela, de um chute de Polenta na cabeça de Andrei Girotto quando os dois caíam (não briguemos com a imagem, foi intencional), entre outros solavancos que ultrapassam o limite do jogo limpo e adentram a seara da brutalidade. E nenhuma dessas jogadas de alto risco resultou em cartão vermelho. A arbitragem deixou rolar como se fosse normal alguém levar um golpe de calcanhar no rosto em uma partida de futebol.

Não é normal e isso também não é uma declaração de guerra. Nessa hora, transbordam os comentários sobre as práticas sujas dos uruguaios enquanto visitantes, mas ninguém se lembra de que brasileiros também sabem e dão botinadas, cotoveladas fora do tom (abraço, Vitor Hugo) e carrinhos por trás (olá, Fagner). A Chape, nesse contexto específico, não tem muito a ver com essa cultura de entrar por cima da bola e acabou punida fisicamente durante a tentativa de intimidação por parte do Nacional.

Ainda que nenhum atleta da equipe catarinense tenha saído ferido ou lesionado de campo, é de se injuriar a postura violenta dos comandados de Martin Lasarte, que depois do jogo admitiu que o seu time “teve a vantagem mental“. O que é verdade, tendo em vista todos os lances mais ríspidos. Provocar, enrolar e pressionar é uma tática bem efetiva para pilhar um adversário. Muito cedo no jogo, o atacante Rossi provou deste veneno e fez exatamente o que o Nacional queria: parou de levar perigo e começou a se envolver em encrencas.

Diferentemente do Peñarol na semana passada, que apenas gastou tempo e tentou entrar na cabeça dos palmeirenses, o Nacional não poupou a Chape de alguns hematomas, discussões acaloradas e o famoso empurra-empurra nos momentos de maior tensão. Faltou à Chape a cabeça fria e a competência para empurrar aquela segunda bola para a rede diante de um adversário que não conseguiria buscar um novo empate. No frigir dos ovos, a culpa verdadeira recai no atacante Túlio de Melo, que teve a bola e o gol a menos de um metro de distância e acertou a trave, de frente para as redes.

Dois pontos foram esmigalhados com aquele erro. Logo depois, a bola rolou cruelmente em cima da linha e mostrou que, na Libertadores, nenhum santo se cria. Quem quer vencer isso aí tem de ser mais do que um simples herói, mas sim um guerreiro que flerta com a vilania e consegue suportar as mais diversas provações, sejam elas emocionais ou físicas.

Agora a Chape tem quatro pontos, ocupa a terceira posição da chave e precisa vencer o Nacional dentro do Gran Parque Central, na próxima rodada, além de visitar o Lanús (líder e em boa fase) em seu quinto compromisso no torneio. Dois adversários ferrenhos e que podem representar a despedida da equipe de Vagner Mancini da competição. Espera-se que pelo menos em Montevidéu a Chape saiba proporcionar um pouco de inferno ao Bolso. Vai ser preciso mais do que bola para sair de lá com os três pontos.

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