O legado da família Koeman no futebol holandês

Muitas famílias holandesas ficaram conhecidas no mundo do futebol. Depois de René e Willy van Kerkhof e antes de Frank e Ronald De Boer, dois membros da linhagem dos Koeman escreveram seus nomes com a camisa da Laranja Mecânica. Campeões da Europa em 1988, Erwin e Ronald participaram do único titulo da seleção holandesa.

O primeiro Koeman a pisar em um gramado como profissional na Holanda foi Martin, na década de 1950, quando o país era só mais uma periferia do futebol europeu. Ele passou por alguns clubes secundários e sem tanta expressão, mas algo nele era diferente. Formado como defensor e com capacidade para atuar como meia mais defensivo, defendeu o KFC de Koog aan de Zaan (juramos que o nome não foi inventado), o Blauw-Wit de Amsterdã, o GVAV (refundado como Groningen em 1971), o próprio Groningen e o Heerenveen.

Ao longo de uma carreira de 17 anos, Martin teve algumas convocações para a seleção nacional e se destacou como uma arma nas bolas aéreas. Foram mais de 50 gols pelo Groningen, o que o elevou ao status de ídolo em dez anos servindo a equipe do norte. Ele se aposentou em 1973, com dois filhos para cuidar. Para manter a história da família no esporte, o pai deixou que os dois seguissem o mesmo caminho que ele havia traçado nos anos 50.

E assim, em 1978, o mais velho, Erwin, estreava pelo Groningen. Dois anos depois, Ronald teve sua chance, pelo mesmo Groningen. Erwin era um meia com capacidade de armação, mas especialmente designado com funções defensivas. Ronald, por sua vez, era mais versátil e podia atuar como zagueiro, líbero, volante e meia de criação. E tinha uma capacidade ímpar de cobrar faltas, disparar de longa distância e fazer gols de cabeça, tal qual o pai.

Destinos separados

A única temporada em que os Koeman defenderam o mesmo clube, em 1982-83

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O mundo conheceu a dupla de filhos de Martin ao longo dos anos 1980. Bem entrosados, vestiram a camisa do Groningen juntos em 1982-83. À aquela altura, Erwin já tinha passado rapidamente pelo PSV e voltou para se juntar ao caçula. Ronald era inevitável. Desde cedo marcava seus gols e aparecia como coringa chegando de trás.

Não demorou para que eles superassem os feitos do pai. Sobretudo Ronald, que recebeu um convite de ouro para jogar no Ajax em 1983, separando-se do irmão pela segunda vez. Em 1985, ele faturou o primeiro título nacional para a família, como titular dos Godenzonen. Um ano depois, levou a Copa da Holanda. E chocou o futebol do país ao assinar com o PSV em 1986, ganhando alguns detratores em Amsterdã. A transferência rendeu a ele e os colegas três conquistas da Eredivisie, duas da Copa holandesa e uma da Copa dos Campeões Europeus, em 1988.

Erwin deixou a Holanda em 1985 para assinar com o Mechelen da Bélgica. O que também se provou um acerto na sua trajetória. Na equipe aurirrubra, ele venceu a Copa e a Liga Belga, além da Recopa Uefa entre 1987 e 89, se acostumando a ser campeão todo ano. Aliás, em 1988, os dois se enfrentaram na Supercopa Uefa. Com enorme tranquilidade, o Mechelen venceu o PSV no primeiro jogo por 3-0 em casa e depois perdeu por 1-0 em solo holandês. Mas era pouco para reverter o agregado.

A estrela solitária dos holandeses

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Entretanto, o que mais marcou para o povo holandês foi mesmo a redenção de Rinus Michels. Responsável por levar o Ajax ao topo da Europa e a Holanda até a final da Copa de 1974, ele voltou ao comando da Laranja para a Eurocopa de 1988. Na mesma década, os holandeses sofriam com uma entressafra de craques que ficou de fora da edição de 1984 do torneio e não disputou as Copas de 1982 e 86.

Pois a primeira taça da história da seleção holandesa calhou de ser uma grande arrancada na Euro 1988, com Gullit, os Koeman, Van Basten e Rijkaard em grande fase. Os talentos individuais falaram mais alto e a Laranja passou por cima da União Soviética na final, com direito a gol épico de Van Basten, aquela obra prima de voleio.

Dali em diante, o tempo tratou de mostrar a competência de Ronald. Enquanto Erwin tomava o caminho de volta para o PSV e depois se preparava para sua a aposentadoria pelo Groningen, responsável por projetar sua imagem como profissional. Neste intervalo,  participou da Copa de 1990 ao lado de Ronald e levantou mais dois títulos da Eredivisie, ambos pela equipe de Eindhoven. Em 1998, pendurou as chuteiras, iniciando uma carreira como treinador.

Para Ronald, ainda havia muito o que fazer. Em 1989, seguiu Johan Cruyff para o Barcelona e se tornou um dos medalhões do Dream Team que assombrou a Espanha no fim da década de 1980 e início dos 90. Foi dele o gol de falta que garantiu o título europeu em 1992 contra a Sampdoria, o primeiro do Barça na Champions.

Em seu período no Camp Nou, Tintin (apelido dado em alusão ao desenho animado) foi tetracampeão espanhol, campeão da Copa do Rei e da Supercopa espanhola, jogou as Copas de 1990 e 94 pela Laranja, ganhando espaço no grupo dos gigantes de seu tempo. Também defendeu o Feyenoord de 1995 a 97, sua última parada. Encerrou a sua trajetória como futebolista sendo dono de um recorde: até hoje, é o defensor com mais gols da história, com 253 marcados. Faltas, pancadas de fora da área e cabeçadas eram as formas mais frequentes de ver Ronald comemorando um gol.

Outra parceria de sucesso

Os Koeman juntos de novo, agora no banco do Everton

A relação boa entre os irmãos Koeman facilitou uma reedição da parceria feita nos campos. Em 2014, depois de várias experiências como treinadores, os dois resolveram unir forças. Ronald fez bom trabalho no Feyenoord e foi contratado pelo Southampton, onde daria uma guinada em sua carreira. Erwin o acompanhou aos Saints e também ao Everton, a partir de 2016, como auxiliar.

Martin, orgulhoso de ser pai de duas figuras tão emblemáticas, não teve tempo de ver os filhos juntos outra vez. Aos 75 anos, morreu em 2013 após complicações cardíacas. Mas fez sua parte para preservar a grande paixão dos Koeman. E se engana quem pensa que o legado parou por aí. Os netos de Martin também iniciaram carreira no esporte. Ainda que sem o brilho dos pais e longe dos grandes clubes, Len (meia do RKSV Nuenen) e Ronald Jr. (goleiro do FC Oss) lutam por espaço em divisões inferiores na Holanda.

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