Puskas calou meio mundo ao assinar com o Real Madrid

Considerado velho e fora de forma em 1959, Ferenc Puskas foi atuar em um grande centro do futebol. Desprezado por equipes italianas, assinou com o Real Madrid e mudou a história do clube espanhol.

Ser o melhor em qualquer coisa é uma honra que se carrega eternamente. Quando falamos em futebolistas nascidos na Hungria, é impossível pensar em qualquer outro nome que venha antes de Ferenc Puskas. Lembrado pelos grandes feitos com a seleção húngara, como o título olímpico de 1952 e a arrancada até a final da Copa de 1954, no auge da geração dourada dos magiares, o atacante passou alguns anos em turnê com o Honvéd como clandestino, até receber um convite irrecusável do Real Madrid.

De 1955 a 1959, o mundo conheceu o talento do poderoso artilheiro e seus colegas. Eram uma espécie de “Harlem Globetrotters” do futebol, levando a vários cantos um estilo reconhecido pela ofensividade e pela técnica empregada. Foi então que um banimento de dois anos imposto pela Uefa mudou a vida de Ferenc. Desde que se recusou a voltar para a Hungria, virou persona non-grata para dirigentes. Só fazia amistosos e participações especiais e neste intervalo, chegou até a defender o Espanyol em amistosos.

As regras eram tão rígidas que o Manchester United não pôde reforçar seu elenco em 1958 após o acidente de Munique. Quer dizer, não como gostariam. Alguns cartolas dos Red Devils tentaram trazer Puskas, mas o regulamento da Football Association ainda não permitia estrangeiros na liga, pior ainda se eles não falassem inglês, como era o caso de Puskas. Quando foi liberado pela Uefa para competir oficialmente outra vez, o húngaro já estava com 31 anos e havia ganhado algum peso.

Ele também deu com a cara na porta de equipes como Juventus e Milan, que chegaram a sondá-lo, mas desistiram em virtude de sua idade e forma física. Como a preparação ainda não era tão avançada como nos tempos de hoje, era comum que atletas depois dos 30 anos fossem tratados como acabados para o esporte. Ele não podia mais voltar para a Hungria e o único jeito de continuar atuando era aceitar a transferência para o Real Madrid. Naquela altura, um homem reinava absoluto no clube madrilenho: Alfredo Di Stefano.

Alfredo e Ferenc: os dois veteranos pareciam jogadores de golfe cinquentões, mas arrebentaram a concorrência pelo Real Madrid

Muitos relatos dão conta de que Di Stefano, em seu auge, exercia enorme poder e influência nos vestiários, escolhendo quem teria ou não lugar no time. Foi por este motivo que o meia brasileiro Didi teve vida curta na Espanha, muito por causa do ciúme que vinha causando no argentino. Com seis anos de casa, Di Stefano poderia muito bem ter amassado a figura de Puskas, mas a verdade é que os dois se completaram perfeitamente.

LEIA MAIS: Didi, o Príncipe Etíope que causou ciúme na coroa do Real Madrid

Se 1+1 é igual a dois, é justo que Puskas + Di Stefano fossem a equação perfeita para o gol. E em seis anos, a parceria rendeu troféus que encaminharam o Real Madrid como grande potência europeia da história. Com a dupla em campo, foram duas conquistas na Copa dos Campeões, em 1959 e 60, além de quatro títulos da Liga Espanhola e um da Copa do Rei. Di Stefano encerrou seu ciclo de taças no torneio continental em 1960, deixando o clube quatro anos depois, portanto dois anos antes do último título europeu madridista daquela década, em 1966.

Puskas era outro homem desde que deixou de servir sua seleção em 1956 e se naturalizou espanhol em 1961. Devidamente acolhido pela torcida do Real e pelo povo da Espanha, chegou a disputar a Copa de 1962 pela Fúria, mas sem brilho. Di Stefano também estava no grupo, mas a estelar equipe treinada por Helenio Herrera caiu ainda na primeira fase e nenhum dos astros naturalizados marcou.

É incrível observar como o mundo subestimou Puskas em seu período clandestino. Julgaram que ele estava aposentado e que não poderia mais oferecer nada. Não demorou para que se surpreendessem com aquele boleiro. Os quilos a mais não impediram que o húngaro relembrasse os tempos de Major Galopante e levasse o Real ao título espanhol em cinco ocasiões. A habilidade ainda estava lá, o faro de gols e a potência também. Os quatro prêmios do Pichichi como artilheiro do Espanhol provaram o valor do subestimado Puskas na sua era trintona.

Os registros dão conta de que em seus oito anos de Real, Puskas marcou mais de 240 gols com a camisa merengue, um feito impressionante para alguém que já tinha mais de 30 anos e claramente não estava em seu ápice. Mesmo em 1965-66, sua última temporada, o húngaro foi importante para o clube, destruindo o Feyenoord na primeira rodada com cinco gols em dois jogos. O derradeiro adversário de Puskas na Europa foi o Kilmarnock, na segunda rodada, que escapou de ser vazado pelo Major.

Ferenc eventualmente perdeu espaço e viu de fora a campanha do sexto título, disputado em Bruxelas contra o Partizan. Na final, vitória do Real por 2-1, gols de Amancio Amaro e Fernando Serena. Foi o último título de sua carreira.

Ao todo, o atacante ultrapassou a marca dos 746 gols (a RSSSF aponta este número, mas os dados são imprecisos) em 23 anos como profissional. Imaginemos então se os anos de clandestinidade não tivessem diminuído a estatística. A segunda parte da trajetória de Puskas nos faz lembrar de como não se pode jamais subestimar um craque. Jamais.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *