El Loco Houseman, o artista renegado pelo futebol argentino

Polêmico e com um talento arrasador, René Houseman desfrutou da fama por muitos anos no futebol argentino. Parte do elenco campeão mundial em 1978, foi considerado por Cesar Luis Menotti como “uma mistura entre Maradona e Garrincha“. A arte com a bola nos pés, no entanto, não fez dele uma figura eternamente querida pelo povo.

Você já deve ter esbarrado na internet com a história de que Houseman, um jogador às antigas, jogou completamente bêbado e fez um gol antológico pelo Huracán contra o River Plate. Mas esta é uma forma tacanha -e injusta- de resumir seus feitos no futebol. René foi bem mais que um craque ao acaso.

A carreira do ponta-direita começou no Defensores de Belgrano, mas o seu auge foi mesmo com a camisa do Huracán, sob o comando de Cesar Luis Menotti. Arquiteto de uma das equipes mais vistosas e marcantes da história do futebol argentino, Menotti tinha em Houseman o seu homem de confiança e depositava nele a expectativa de que os dribles e gols levassem o clube ao sucesso.

Em 1973, quando a Argentina se curvou ao talento de Menotti, apreciar a genialidade de Houseman era apenas uma consequência. Em qualquer vídeo que retrata o estilo do ponta, é possível ver uma enorme variedade de fintas, de um futebol veloz e objetivo. Os zagueiros simplesmente não podiam com ele. Ele fintava para um lado ou para o outro com igual competência. Zombava da lentidão de seus adversários que não conseguiam levar a bola.

A imagem irreverente e o futebol alegre naturalmente renderam comparações com Garrincha, que apesar de atuar pelo outro lado da cancha, tinha igual apreço pela “gambeta”, como dizem os argentinos. Houseman era um pouco mais parecido com Garrincha do que se supunha em campo. Fora dos gramados, era como se fosse um menino, apaixonado pela bola, pelos rachões, pelas peladas de bairro. E claro, pelas festas e bebidas.

Ninguém ganha o apelido de “El Loco” fazendo apenas coisas comuns e regradas. Se Houseman foi contemplado com esta alcunha, é porque fez jus a isso, levando sua vida no limite da irresponsabilidade. Como jogava absurdamente bem e era decisivo, ninguém se importava muito se ele bebesse uma ou outra. Sabiam que de alguma forma, ele resolveria o jogo se tivesse a chance.

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Em 1974, Houseman encara os poloneses na Copa do Mundo

O coringa esteve em dois Mundiais pela Argentina, em 1974 e 78. Foi bem importante na sua primeira participação, marcando três gols. Sempre com a bola próxima aos pés, Houseman era imprevisível. Por clubes, defendeu os gigantes River Plate e Independiente, onde fez poucos jogos, mas foi campeão da Libertadores em 1984.

Quantas colunas vertebrais não sofreram abalos quando as suas pernas curtas não passavam ligeiras como um golpe de faca? Ter um talento desses no seu time deveria representar títulos, talvez um pouco de magia e lembranças para guardar com carinho. Não foram poucos os gols que El Loco marcou e ficaram marcados como “aquele lance”. O repertório não se esgotava, ele sempre tinha uma artimanha na mala.

Dizem na Argentina que René poderia ter sido ainda maior se não tivesse pego o caminho do álcool. Mais uma dessas hipóteses em que colocamos monstros sagrados do esporte em pedestais hipotéticos, como se eles cometessem o pecado de não serem perfeitos, cometerem erros que de alguma forma lesaram o potencial esportivo ou a imagem perante a sociedade. E assim, julgamos homens e mais homens no duro tribunal da vida, como se eles já não enfrentassem condenações em outros momentos específicos.

A tal ressaca contra o River Plate

Houseman, autor de um gol contra a Itália na Copa de 1974

A dualidade entre o boêmio que não media copos e o atleta de alto nível começou a cobrar um preço. Depois da conquista inesquecível do Metropolitano em 1973, com o Huracán, a fama não mexeu com a cabeça de Houseman. Ele continuava sendo o mesmo cara simples na mesa do bar.

Em 1974, como conta o próprio, prestigiou um aniversário  em uma noite e tomou todas. Além de arrumar uma briga na festa, voltou para casa, digamos, bem alto. O problema é que no dia seguinte o Huracán jogava contra o River Plate. Deram banho em René algumas vezes, mas nada de evaporar o álcool que estava em seu corpo. Também lhe fizeram tomar café, mais de um litro. Era uma causa perdida. Menotti, claro, quis bancar o seu cavalo de guerra.

O ponta só entrou na segunda etapa, com o placar empatado em 0-0. Em poucos lances, apesar de não estar fisicamente inteiro, driblou três adversários, o goleiro e marcou. Houseman então caiu no chão, rindo, fingiu que estava contundido e pediu para sair. Ele afirma que foi levado para casa e dormiu, mas não se lembra de nada. São todos recortes contados por colegas, em uma lenda que corre há muito tempo no futebol argentino.

A carreira acabou em 1985, dando lugar ao mito. Mas o homem René não foi muito bem tratado pelos seus quando saiu de cena. Tudo que ele queria era voltar para casa, mas continuar trabalhando com o futebol, sua paixão maior. As poucas oportunidades vieram no seu time de coração, o Excursionistas, também no Huracán (onde não recebia salários), ainda que ele diga que foi esquecido por dirigentes. Pobre e dependendo de uma ajuda de custo de um ex-presidente do clube de Parque Patricios, René lamentou publicamente que tenha sido tão negligenciado por quem tanto ajudou no passado.

O futebol era tudo que Houseman sabia fazer. De tanto que aproveitou a fase como atleta, não se preparou para o passo seguinte. Mas isso não é de forma alguma um atestado de culpa pela vida modesta que tem levado. O campeão do mundo, o maestro e o carrasco são partes fundamentais de um triste retrato: o do artista e do personagem que não possuem mais a mínima condição de oferecer o espetáculo que os consagrou.

Os cabelos brancos, as rugas, a fragilidade física e as pernas dão outro recado. Aquele Houseman fantástico que vimos já morreu ao pendurar as chuteiras. Agora quem sobrevive aos dias é o que sobrou dele, entre escombros, traumas e decepções. E a este homem simples só darão o devido valor quando for tarde demais.

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