Blokhin, o talento escondido pelo regime da União Soviética

Por muitos anos, Oleg Blokhin não apareceu para o mundo como o grande artilheiro que era no Dynamo Kiev. Em meio à Guerra Fria e um regime que impedia os talentos do esporte de atuarem em outro país, o atacante não pôde ter uma carreira ainda mais brilhante fora da União Soviética.

Muitos outros talentos oriundos da União Soviética tiveram problemas para progredir no esporte. Apesar da plataforma exemplar de desenvolvimento, o governo não permitia que houvesse êxodo de algum atleta durante seu auge. O que acontecia era uma eventual liberação apenas depois dos 30 anos, idade em que a decadência física começa a ficar evidente.

Oleg Blokhin é um grande exemplo disso. Impedido de assinar por clubes do exterior, defendeu o Dynamo Kiev por 19 anos e jogou os dois restantes na Áustria e no Chipre. Quando surgiu, no fim da década de 1960, o atacante se notabilizou pela versatilidade e pelo faro de gols. Não demorou para que ele ganhasse reputação dentro da União Soviética.

O goleador do Dynamo era uma realidade na seleção desde 1972. Os principais astros dos países que compunham a URSS brigavam por espaço e a concorrência era voraz. Mas isso não abalou Oleg, que se converteu em capitão da equipe ucraniana e esperança de gols em competições internacionais.

Ao todo, em sua carreira, Blokhin conquistou oito vezes a Liga Soviética, entre 1971 e 1986. Também faturou a Copa Soviética em cinco ocasiões, um feito raro para atletas da época. Foi graças a ele que o Dynamo se transformou no maior campeão nacional durante a fase de ouro do futebol na região. Das treze conquistas do clube, oito foram com Blokhin, que por sua vez, acabou artilheiro em cinco temporadas.

Blokhin era o principal atacante de sua época na URSS, mas não teve muito brilho em grandes torneios

Fora do território da URSS, o Dynamo também rompeu fronteiras. Foi o primeiro time soviético a conquistar um troféu continental. Em 1975 e 86, levantou a Recopa Uefa, obviamente com os esforços de Blokhin no ataque. Além do bicampeonato no torneio, os ucranianos também ficaram com a taça da Supercopa Uefa em 1975.

Um ano antes, em 1974, Oleg alcançava sua melhor marca em uma só temporada. Marcou 28 gols, sendo 20 na Liga, três na Copa e mais cinco na Copa Uefa, apesar do Dynamo não ter passado das oitavas de final. Com tanta presença de área, muitos clubes ao redor da Europa queriam contratar Oleg, que estava na flor da idade, aos 22. Mas as negativas expressas do clube e do próprio governo impediam que o seu tesouro fosse exportado.

Em 1975, o grande reconhecimento: pela conquista na Recopa, ele foi eleito o Melhor Jogador da Europa em 1975. Naquele ano, marcou 23 gols, cinco deles na campanha vitoriosa. Na decisão, o Dynamo bateu o Ferencvaros da Hungria por 3-0, com dois gols de Onyshchenko e um de Blokhin.

Onze anos depois, eles voltaram ao topo da Recopa e novamente Blokhin colaborou na decisão diante do Atlético de Madrid. Base da seleção da URSS que esteve na Copa de 1986, o Dynamo meteu outro 3-0 para se sagrar campeão. Desta vez, Zavarov, Blokhin e Yevtuchenko anotaram os gols ucranianos.

O mais perto que aquela geração do Dynamo Kiev chegou do principal troféu europeu, a Copa dos Campeões, foi a semifinal na edição de 1976-77. A campanha estava impecável até que o Borussia M’Gladbach cruzasse os caminhos dos ucranianos. Até a eliminação, o Dynamo tirou o Partizan, o PAOK e o Bayern de Munique. Mas no segundo alemão que vinha pelo caminho, a turma de Allan Simonsen e Jupp Heynckes provou ser mais forte para chegar à decisão com o Liverpool.

Blokhin teve sua chance de encantar outros povos. Foi duas vezes medalhista de bronze pela URSS em 1972 e 76. Adentrou a década de 1980 em grande forma. Jogou as Copas de 1982 e 86, mesmo com mais de 30 anos nas costas. Ainda sabia fazer gols, era isso que importava. Seu último título foi em 1987, na Copa Soviética, o seu canto do cisne.

Em 1977, Blokhin entra em campo para enfrentar o Borussia M’gladbach, pela semifinal da Copa dos Campeões Europeus

Mais de 200 gols depois, ele finalmente pôde deixar Kiev, mas o futebol que o esperava não era o mesmo da sua juventude. O próprio Oleg estava muito mudado, com 35 anos de idade e problemas com lesões, mobilidade prejudicada pelos efeitos do tempo. Tinha bola para jogar em qualquer equipe de grande porte no passado, mas a sua primeira transferência foi para a Áustria, que nunca foi um grande centro, em 1988. E a experiência foi decepcionante, pelo Vorwarts Steyr, na segunda divisão. Era pouco para Blokhin.

A última passagem do artilheiro foi pelo Aris Limassol, no futebol do Chipre. Menos de cinco anos depois de jogar a Copa do Mundo pela União Soviética, o grande craque da região encerrava a carreira em 1990, aos 38 anos, longe dos holofotes. Um gigante que saiu tarde demais para tentar a sorte em outros países e naturalmente não encontrou o mercado que merecia na sua juventude.

Outros que vieram depois de Blokhin tiveram sorte diferente. Andriy Shevchenko, considerado o seu sucessor, saiu cedo do Dynamo e fez história pelo Milan nos anos 2000. Em igualdade de condição, Oleg provavelmente teria sido campeão de tudo em alguma liga mais relevante do que a Soviética.

Dentro da Ucrânia, ele e Sheva são deuses. As duas décadas em campo consolidaram essa moral para Oleg, o que pode explicar a evolução de seu país no esporte, após a independência da URSS. Foi sob o comando dele que a seleção estreou em Copas do Mundo, na edição de 2006. A parceria com Sheva se repetiu em 2012, na Eurocopa, durante a despedida definitiva de Andriy do futebol. Duas gerações unidas em torno da mesma paixão: fazer gols.

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