O dia em que o Tottenham destruiu o Feyenoord de Cruyff e Gullit

Na edição de 1983-84 da Copa Uefa, Tottenham e Feyenoord se enfrentaram logo na segunda rodada. Em um jogão no White Hart Lane, os ingleses detonaram a equipe holandesa, que contava com Gullit e Cruyff como titulares.

Tão rara é a passagem de Johan Cruyff pelo Feyenoord, que trinta e poucos anos depois, ainda tem gente que não faz ideia de que o ídolo máximo do futebol holandês encerrou a carreira por lá, alfinetando o Ajax em sua despedida como atleta.

O ano de 1984 ficou marcado como o último de Cruyff como um craque, evidentemente deteriorado pela relação com o cigarro e pela idade avançada. Pois, se em 1983 ele deixava o Ajax pela porta dos fundos e assinava com o Feyenoord apenas para se vingar, havia uma outra lenda surgindo no mesmo time, mais especificamente como meia de armação: Ruud Gullit. Mas a história de hoje não é um ponto feliz para a carreira desta dupla.

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O contexto aqui é o seguinte: o Feyenoord foi sorteado para enfrentar o Tottenham na segunda fase da Copa Uefa de 1983-84. O primeiro jogo entre ambos foi no White Hart Lane, em Londres, casa dos Spurs. Para se ter uma ideia do que os ingleses podiam fazer, o time de Keith Burkinshaw despontava com o goleirão experiente Ray Clemence, o lateral-esquerdo Chris Hughton, o zagueiro Gary Mabbutt, o meia Glenn Hoddle e os atacantes Steve Archibald, Tony Galvin e Mark Falco.

Era uma equipe ofensiva, que gostava de tocar a bola e tentar tabelinhas ousadas em meio ao esquema dos outros times. A tendência a forçar a triangulação em velocidade mostrava como eles se posicionavam bem e sabiam o que tinha de ser feito para chegar ao gol. Ponto.

Diante de sua torcida, o Tottenham encarou o Feyenoord como se fosse qualquer outro adversário que não tivesse um revolucionário como Cruyff naquela noite. Em 19 de outubro de 1983, o placar de 4-2 para os mandantes chocou muita gente na Holanda, que acreditava na liderança de Jopi em relação aos seus colegas.

Cruyff tenta, mas não consegue vencer o jogo sozinho para o Feyenoord

O baile começou cedo na casa dos lilywhites. Uma tabelinha entre Hughton e Hoddle abriu caminho na defesa do Feyenoord e o lateral deu uma assistência para Archibald empurrar para as redes. Completamente vendida no lance, a retaguarda holandesa só pôde assistir à troca de passes, aos oito minutos. Depois, Hoddle tabelou brilhantemente com Archibald, foi para a lateral (sob marcação de Cruyff), fez o gênio sambar e cruzou. Galvin apareceu livre para cabecear e ampliar o marcador para o Tottenham.

A missão do técnico Thijs Libregts estava desmoronando: além de designar Cruyff para marcar o jovem e vigoroso Hoddle e preferir uma aproximação de homem a homem, ele perdeu todo o seu poder ofensivo quando Gullit precisou ser substituído aos 34, sem causar nenhum impacto na formação rival. Para piorar, o Tottenham estava em uma grande noite e tudo dava certo nos planos de Burkinshaw.

Archibald, sempre ele, aumentou o drama do Feyenoord no duelo. Hoddle saiu do meio-campo, lançou uma bola perfeita para Falco, que girou em cima do zagueiro e bateu. Hiele defendeu, mas no rebote, Mabbutt levou para a linha de fundo, evitou a saída e rolou para trás. Archibald só complementou para dar ares de espetáculo ao confronto. Em 26 minutos, a equipe de Roterdã estava sendo desmantelada pela proposta ofensiva dos Spurs.

O show não havia acabado. Hoddle ainda contava com algumas cartas na manga. Na narração da BBC, o grande John Motson relatava: “Hoddle está muito ansioso para tomar conta do jogo. Ele está determinado a eclipsar Cruyff nesta noite“. A frase coloriu um lance espetacular, onde Hoddle domina a bola ainda no seu campo, ergue a cabeça e chuta pelo alto. O lançamento cai como uma bomba na linha da grande área. Desarrumada, a defesa holandesa acompanha Galvin dominar com tranquilidade e bater por cima de Hiele, na saída do goleiro. Um sonoro 4-0 apenas no primeiro tempo. A vaga estava decidida.

Não se podia jamais subestimar um time que conta com Johan Cruyff. O mago estava com 36 anos, sem a mesma mobilidade e energia dos seus bons tempos, mas poucos sabiam tratar a bola como ele. E na segunda etapa, o que era um passeio tomou forma de reação para os visitantes. Saiu então um golaço com a marca da genialidade do precursor do “Futebol Total”.

Três passes rápidos e Cruyff recebe a bola dentro da área, sai de cara para Gary Stevens e dá um corte para ajeitar. A finalização é rasteira e indefensável para Clemence. “Típico de Cruyff, justo quando você acha que ele está fora do jogo, ele ainda tem algo a oferecer, mesmo aos 36 anos de idade“, arrematou Motson na narração, 4-1. Restando sete minutos para o fim, um escanteio alcança a área, um passe vai adiante e alcança Nielsen, que completa para as redes em momento de pura desatenção da retaguarda inglesa.

A reação parou ali. O Feyenoord tinha mais 90 minutos em Roterdã para tentar reverter o cenário. Em 2 de novembro, no De Kuip, outra vitória do Tottenham, por 2-0 (Hughton e Galvin), concluindo um agregado arrasador de 6-2. Uma eliminação incontestável.

Depois daquele encontro, os dois times seguiram caminhos parecidos até a glória. O Tottenham arrancou até a decisão e bateu o Anderlecht, se sagrando bicampeão da Copa Uefa e terminando o Inglês em oitavo lugar. Já o Feyenoord, se remontou da goleada geral na segunda fase e juntou forças para ser campeão holandês em uma campanha histórica que colocou Gullit no mapa dos craques de seu país. Três anos depois, ele acertava com o Milan e se tornava uma referência mundial. Já Cruyff, voltou ao Ajax como treinador e em 1988 iniciou no Barcelona sua dinastia.

Em meio a tudo isso, em Londres, horas depois que o juiz apitou o fim daquele 4-2, Hoddle se olhou no espelho e viu, ainda que por um dia, um jogador melhor que o lendário Johan Cruyff. Alguém ousa tirar isso dele?

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