A dura vida de Joe Cole, o rei das lesões crônicas

Queridinho da Inglaterra na década de 2000, Joe Cole despontou como um grande meio-campista e teve grandes anos no Chelsea. Dono de joelhos de papelão, foi vítima de várias graves lesões e acabou virando um nômade da bola em clubes ao redor do mundo.

Naquelas gloriosas jogatinas virtuais, era difícil ter algum amigo seu que optasse por Joe Cole como referência no meio campo. Na vida real, Joe Cole era sempre aquele reserva que se machucava. Entretanto, é justo que o coloquemos como ídolo do Chelsea pelos sete anos de serviços prestados ao clube, que vivia sua primeira grande fase com ele no elenco. Acontece que a carreira do garoto londrino poderia ter sido ainda mais brilhante, não fossem as repetidas contusões que o tiraram de combate.

A carreira de Joseph John Cole começou em 1998, no West Ham, da mesma forma como Frank Lampard, outro craque formado nos Hammers e que ganhou enorme prestígio com a camisa do Chelsea. Diante de grande concorrência, o garoto não teve tanto espaço e acabou ficando de lado, mas aprendeu o básico enquanto esperava uma oportunidade maior.

Joãozinho se estabeleceu a partir de 1999 no West Ham e sua maturidade era visível. Com  a bola nos pés, sabia tudo: era um excelente passador, tinha boa visão de jogo e usava os dribles como recursos criativos. Basicamente, quando virou profissional, já era um atleta completo. O Manchester United estava de olho nele desde o segundo ano no time principal dos Hammers, mas quem levou mesmo foi o Chelsea.

Cole foi convocado para o Mundial de 2002, na Coreia e no Japão, seguindo a política britânica de recrutamento para jovens talentos abaixo dos 18 anos. Wayne Rooney, Gareth Barry e Theo Walcott são bons exemplos de caras que foram chamados muito cedo para participar de Eurocopas ou Mundiais. Cole, em especial, chamou a atenção com seu bom futebol e ficou insustentável mantê-lo em Boleyn Ground. Quando o West Ham caiu, então, pior ainda. Joe mudou de clube, mas permaneceu em Londres, onde traçava um importantíssimo passo para sua carreira.

Estrela em Stamford Bridge

No início da era Roman Abramovich, a estratégia de torrar milhões e milhões em contratações marcou o perfil do novo rico Chelsea. Nos anos 1990, a equipe também teve craques mundiais, mas o elenco quase sempre era modesto e sem tanta badalação. Saindo de uma fase de jogadores como Marcel Desailly, Emmanuel Petit, Claude Makelélé, Mario Stanic, entre outros que brilharam na década anterior, a agremiação londrina resolveu acreditar no potencial daquele rapaz de 1,75m que vinha detonando no futebol inglês.

Rapidamente, Cole conquistou a confiança e a simpatia da torcida azul, que clamava pelo seu nome na seleção. Sua segunda chance pelos Três Leões foi em 2004, na Eurocopa em Portugal. Quem não se lembra daquele time incrível dos ingleses, David Beckham pegando fogo, Lampard inspirado, Steven Gerrard um tanto abaixo da crítica e, claro, do famigerado escorregão de Beckham no pênalti decisivo contra os donos da casa, nas quartas de final?

Joe disputou apenas uma partida naquela Euro, contra a Croácia, ainda nos grupos: o placar foi de 4-2 para a Inglaterra, que já tinha vaga garantida para a próxima fase. A eliminação dramática não abalou a mente do garoto. Ele manteve as boas atuações, mas já naqueles tempos, sofria com afastamentos por lesão. À parte disso, Cole tinha carisma e bola suficientes para se manter em bom nível na Premier League, no papel daquele jogador que entrava no segundo tempo.

Comendo banco para o irlandês Damien Duff, o reserva vislumbrou a titularidade com a lesão do próprio Duff e de Arjen Robben. E assim, se firmou como uma peça do elenco de Mourinho que levantou a taça da Premier League em 2004-05. Além de ser campeão inglês, Cole também participou da campanha de título da Copa da Liga.

Um ano depois, Sven-Goran Eriksson incluiu mais uma vez Joe Cole em sua lista para o Mundial de 2006, na Alemanha. Titular em todos os cinco jogos do English Team, deixou boa impressão apesar da eliminação diante de Portugal, nas quartas, uma triste reprise do que havia acontecido na Euro 2004. Fadado ao insucesso internacional, tal qual Gerrard, Lampard e Beckham, Joãozinho foi peça importante para o Chelsea até 2008, quando voltou ao banco de reservas. Com 28 anos, começou a experimentar uma descida vertiginosa na carreira.

Ladeira abaixo

Joe Cole no Liverpool: decepções, muito tempo lesionado e sem nenhuma identificação com a torcida

Em precoce decadência técnica e quase sempre lutando contra contusões complexas, Joe passou um dos momentos de maior vergonha na sua carreira, ao ser trocado por Yossi Benayoun no Chelsea e se transferir para o Liverpool. Logo na sua estreia, foi expulso num lance com Laurent Koscielny na peleja contra o Arsenal. Já nos Reds, a sensação era que os bons tempos e a sorte haviam lhe abandonado.

Depois de três anos encostado no Liverpool, somando apenas 26 partidas, Joe foi emprestado ao Lille, então campeão francês. Os quadros clínicos não eram bons: ele foi operado algumas vezes entre 2008 e 2011, o que tirou grande parte de sua potência física. Para reanimar um pouco a vida do inglês, a temporada na França até que deu para o gasto. Ele entrou em campo 43 vezes e anotou nove gols. Mas o empréstimo acabou e ele foi forçado a retornar ao Anfield.

Surpresa! No comecinho da temporada 2013-14, sofreu uma contusão no músculo posterior da coxa. Apesar de ser bem cotado por Brendan Rodgers, foi negociado com o West Ham com contrato de um ano. Mais lesões abreviaram seu retorno ao Boleyn Ground, que terminou com um gosto um tanto amargo. Depois que entrou na casa dos 30 anos, Joe Cole se submeteu a atuar por clubes fracos dentro do cenário inglês, como o Aston Villa e o Coventry City.

Em 2016, saiu do Coventry para jogar no futebol dos Estados Unidos. Aos 35 anos, assinou com o Tampa Bay Rowdies e disputou a NASL, a liga paralela à MLS que ninguém acompanha. O contrato vale até o fim de 2017, mas pode ser renovado. E diferentemente de suas frustrações adquiridas na Inglaterra, Cole finalmente se viu outra vez como importante peça de uma equipe.

É verdade que o nível competitivo caiu demais, mas para quem está a um passo da aposentadoria, brilhar em qualquer campeonato é a forma mais fácil de se despedir do esporte com um sorriso no rosto. Um sorriso amarelo, de quem poderia ter construído muito mais que isso.

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