O último scudetto do Bologna ficou marcado por mistério no doping

Equipe campeã italiana em 1964 chegou a ser punida por doping, mas mesmo assim levantou o título após partida extra contra a Internazionale. Cinco jogadores foram pegos por uso de anfetamina, mas ninguém foi punido por isso após a segunda instância.

Sob o comando de Fulvio Bernardini, o Bologna brigava pelo título italiano de 1963-64, pau a pau com a Grande Inter de Helenio Herrera, que se sagraria campeã europeia ao fim da temporada. Em grande fase, os rossoblu chegaram a emplacar nove vitórias consecutivas, até um jogo peculiar contra o Torino, na rodada 19.

Era fevereiro de 1964, e a Serie A estava rolando. O centroavante dinamarquês Harald Nielsen estava com a corda toda e a caminho da artilharia pelos bolonheses. Ezio Pascutti e Giacomo Bulgarelli também faziam grande temporada pelo clube, que sonhava em sair da fila de mais de 20 anos sem scudetto.

Alguma coisa era diferente naquele Bologna. Capaz de golear muita gente, foi fazendo vítimas até o fatídico encontro com o Torino, no estádio Comunale. O placar de 4-1 não surpreendeu quem via a equipe de Bernardini como um fortíssimo candidato ao título. E fato é que os rossoblu assumiram a liderança justamente naquela rodada, em 5 de fevereiro de 1964. Pouco mais de um mês depois, uma sentença chocou o futebol italiano: cinco jogadores do Bologna foram pegos no doping por anfetamina. Romano Fogli, Ezio Pascutti, Marino Perani, o capitão Mirko Pavinato e Paride Tumburus estavam na mira da justiça.

Bulgarelli, o líder técnico daquele Bologna: na década de 1990, o ex-meia reconheceu que vários médicos receitaram a medicação Micoren (hoje ilegal) de forma indiscriminada durante sua carreira, com a justificativa de que ela melhorava o fôlego

A polêmica se estendeu por todo o mês de março e mobilizou a cidade de Bolonha em torno do time. Eles acreditavam ser mais uma conspiração envolvendo equipes de Milão para tirar o título do irresistível selecionado de Bernardini. A confiança era tanta no futebol apresentado pelos atletas que o técnico dizia: “Só se joga assim no Paraíso“. Certo ou errado, o Bologna empatou os três jogos seguintes e deu sorte que Inter e Milan também tropeçaram nas rodadas em questão.

Da rodada 19 até o fim, ninguém mais tirou a liderança dos rossoblu, que recuperaram o fôlego com vitórias diante do Milan (no San Siro), Sampdoria, SPAL e Roma. A série acabou com uma derrota para a Inter, por 2-1 (gols de Mario Corso e Jair da Costa), mas que não causou alteração na tabela.

O problema é que durante o processo de contraprova pedido pelo Bologna na acusação de doping, houve erro no transporte e no armazenamento dos frascos que serviriam para os exames de urina. A polícia afirmou que os recipientes não foram fechados em um refrigerador próprio da Federação Italiana. As provas então foram anuladas e a Justiça considerou que qualquer pessoa poderia ter adulterado as substâncias. Fez-se necessária uma segunda tentativa, e aí que a polícia local ficou encarregada de cuidar dos frascos. Contudo, o novo resultado foi diferente e não apontou a presença de anfetaminas, inocentando os bolonheses da acusação.

Estava tudo muito estranho. Mesmo assim, a Federação decidiu punir o clube com a perda de três pontos e suspendeu o técnico Bernardini por um ano e meio, em 27 de março de 1964. Sugere-se até hoje na Itália que os frascos foram deliberadamente negligenciados em um laboratório no prédio da Federação. A ação eficiente de advogados de defesa acelerou o processo de julgamento em segunda instância, o que livrou a cara dos adversários da Inter. Mais um fato intrigante: a perda dos pontos foi sancionada dois dias antes do duelo direto entre Bologna e Inter, no Comunale.

O Bologna que enfrentou a Inter no jogo extra: decisão controversa da Federação quase acabou com o sonho dos comandados de Bernardini

Apenas um mês depois, em 4 de maio, portanto restando três rodadas para o fim, em um tribunal oficial, a sentença foi anulada e o Bologna teve devolvidos os três pontos, justamente por não ter sido encontrado traço algum de anfetamina nos novos testes. Obviamente, Bernardini também foi absolvido.

A margem provou-se fundamental para os rossoblu continuarem duelando com a Inter até o fim. Um empate com a Juventus por 0-0 e vitórias contra Messina e Lazio deixaram os rivais em pé de igualdade. Ambos tinham 54 pontos na tabela e o regulamento previa jogo-extra entre interistas e bolonheses. Nesta partida decisiva, realizada em Roma no dia 7 de junho, o Bologna levou a melhor e venceu por 2-0, gols de Facchetti (contra) e Nielsen, sagrando-se assim campeão italiano pela sétima -e última- vez na história. Mas a história de 1964 não morre aí.

Uma parte importante da trama foi interpretada por Giuseppe Viani, dirigente do Milan naquela década. Segundo Giampaolo Dalmastri, médico do Bologna por quase 30 anos, Viani admitiu que propositalmente adulterou os frascos da primeira contraprova. A ideia era prejudicar o Bologna de alguma forma. O que de forma isolada não quer dizer muita coisa, mas somado a uma proposta indecorosa, talvez ajude a elucidar a questão.

O presidente do Bologna, Dall’ara, morto às vésperas do título em 1964: ele sofreu um infarto durante uma reunião com dirigentes da Inter

Naquele mesmo ano de 1964, o então presidente do Bologna, Renato Dall’ara, recebeu uma oferta indecorosa de três homens misteriosos para prejudicar a Inter a troco de 30 milhões de liras. Íntegro, o mandatário recusou. Não há uma ligação direta entre o Milan e estes homens, mas é bem estranho que Viani tenha entrado no prédio da Federação para comprometer a amostra de urina meses depois da tal proposta feita a Dall’ara. Isso deixa tudo ainda mais bizarro e abre precedentes para uma grande chantagem malsucedida.

De qualquer forma, Dall’ara – que hoje dá nome ao estádio Comunale – não chegou a ver o Bologna campeão. Ele morreu quatro dias antes da partida de desempate contra a Inter, pois estava com a saúde fragilizada e a tormenta do doping só piorou as coisas. Ele teve um mal súbito em uma sala da Federação, enquanto aguardava o interista Angelo Moratti para uma reunião.

Nenhum dos jogadores compareceu ao funeral porque a Federação Italiana não quis adiar o confronto por motivo de luto. Não há nada habitual naquele título do Bologna. Nem a forma como ganharam, nem o mistério do doping, que dirá o presidente que não escapou vivo de ser uma parte pitoresca da história do futebol italiano.

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