A década de ouro na J-League que alavancou o futebol japonês

A J-League finalmente encontrou seu equilíbrio. Sem a pompa do passado, mas em nível muito superior de organização, a liga japonesa tem um curto e honroso passado, sobretudo nos anos 1990, quando se profissionalizou. Graças a Zico, outros grandes craques passaram por lá.


Em 1993, o futebol japonês deu um salto de qualidade rumo ao profissionalismo. Bem antes disso os times de lá lutavam por dias melhores e experimentavam da glória continental, mas um jogador em especial ajudou a dar este passo rumo à terra firme. Zico resolveu sair de sua aposentadoria em 1991 para voltar aos campos e impulsionar o projeto no país, pelo Sumitomo Metals, que se transformou em Kashima Antlers menos de um ano depois.

César Sampaio, um dos ídolos do extinto Yokohama Flügels

Com o Galinho como ponto focal da revolução, várias empresas de grande porte apoiaram a iniciativa. Antes da fundação da J-League como conhecemos, os clubes eram quase que exclusivamente mantidos por companhias, mas optaram por se unir e assim abandonar a fase do amadorismo. Foram dez os membros fundadores: Gamba Osaka, JEF United, Nagoya Grampus, Sanfrecce Hiroshima, Urawa Red Diamonds, Verdy Kawasaki, Yokohama Flügels, Kashima Antlers, Shimizu S-Pulse e Yokohama Marinos.

Todos eles contavam com patrocinadores/donos e parceiros confiáveis, em uma relação bem estreita com as companhias, que antes davam seus nomes às agremiações. Por exemplo, o Jubilo Iwata pertence à Yamaha, o Yokohama Marinos é majoritariamente controlado pela Nissan, o Sanfrecce Hiroshima é da Mazda, o Nagoya Grampus é comandado pela Toyota, enquanto o Verdy Kawasaki voltou para Tóquio e hoje é controlado pela Tokyo Verdy Holdings.

A parte curiosa é que no novo modelo, a criatividade dos japoneses foi aguçada. E assim foi comum ver clubes com nomes bem esquisitos. Avispa, S-Pulse, Consadole, Vissel, entre outras ideias malucas. Vale a pena dar um Google em todos os integrantes da J-League para conferir as explicações de cada nome.

Com dinheiro e uma liga minimamente organizada, faltavam só os jogadores. O Japão nunca foi, digamos, uma potência para revelar craques e nisso, os brasileiros foram fundamentais. Ruy Ramos, por exemplo, atuava no país desde a década de 1970 e fez toda a sua carreira na Liga, desde os tempos como amador. Ele é um dos maiores ídolos do Verdy Kawasaki, ao lado de Kazu Miura. O investimento em categorias de base e escolinhas auxiliaram a formação de atletas em pouco tempo. O trabalho deu frutos visíveis na atual geração japonesa.

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Dunga foi jogar no Jubilo Iwata um ano após o Tetra nos Estados Unidos

Ah, sim, falemos dos outros craques. Com Zico, que chegou em 1991 e ficou três anos em Kashima -ganhando até estátua-, vieram outros nomes importantes, ainda que em fim de carreira: Dunga (Jubilo Iwata), Dragan Stojkovic (Nagoya Grampus), Txiki Begiristain (Urawa Red Diamonds), Julio Salinas (Yokohama Marinos), Hristo Stoichkov (Kashiwa Reysol), Salvatore Schillaci (Jubilo Iwata), Daniele Massaro (Shimizu S-Pulse), Pierre Littbarski (JEF United e Brumell Sendai), Gary Lineker (Nagoya Grampus), Paulo Futre (Yokohama Flügels), Michael Laudrup (Vissel Kobe), Zinho, Evair, César Sampaio (Yokohama Flügels), Bebeto, Alcindo, Jorginho, Bismarck, Edu Marangon, Leonardo (todos estes no Kashima Antlers) e muitos mais.

Durante os primeiros anos de J-League, a disputa consistia em dois turnos. Apenas em 2004 o modelo foi revisto e passou a coroar um só campeão por ano. Tivemos forças dominantes neste período com duas taças, claro, o que ajuda a explicar a força financeira e de elenco de alguns deles. Só o Kashima Antlers conseguiu seis títulos. Logo atrás temos o Jubilo Iwata, com quatro, o Verdy Kawasaki e o Yokohama F Marinos com três.

De repente, o Japão passou a ser um destino atraente, ainda que em menor escala do que a China de hoje, que desembolsa milhões para trazer estrelas em grande forma para a Ásia. E quantos clubes brasileiros não foram desfalcados pelos japoneses? O Palmeiras foi um grande exemplo, perdendo Evair, Zinho e César Sampaio após o seu bicampeonato nacional em 1994.

Leonardo deitou e rolou com a camisa do Kashima Antlers entre 1994 e 96

Pouco mais de 20 anos depois do “boom” de craques, a situação é bem mais modesta e apenas jogadores de médio porte escolhem trocar qualquer clube da Europa por uma proposta do Japão. Uma prova disso é o Kashima Antlers, que foi vice-campeão mundial em 2016 com o desconhecido Fabrício, revelado no Corinthians. O último clube brasileiro do atacante foi o Botafogo, em 2011.

O elenco de 2017 conta com Leandro (ex-Grêmio, Palmeiras, Santos e Coritiba), Pedro Júnior, Léo Silva e o zagueiro Bueno. O restante é composto por japoneses. E é impossível não lembrar da organização e da disposição do time que brigou com o Real Madrid naquela decisão do Mundial. O técnico Masatada Ishii encontrou uma forma de jogar com eficiência e muita agressividade, como vimos na surra que o Kashima aplicou no Atlético Nacional, na semifinal. O futebol nipônico evoluiu bastante desde 1993 e os técnicos acompanharam as tendências do esporte, com ensinamentos mais modernos e dinâmicos.

Na Champions League

Em 2008, o Gamba Osaka se sagrou campeão asiático e disputou o Mundial de Clubes da Fifa, sendo eliminado nas semifinais

Depois de acrescentar mais talentos à sua liga, o futebol japonês naturalmente ganhou projeção internacional. As equipes iam mais longe na Champions League, isso quando não brigavam pelo título. Cinco equipes japonesas já faturaram o título da competição. Duas delas antes do período da J-League. Em 1986, o JEF United (ainda registrado como Furukawa Electric) bateu o Al-Hilal da Arábia Saudita para ser o primeiro nipônico a erguer o caneco. No ano seguinte, o Yomiuri FC (que se transformaria em Verdy Kawasaki e Tokyo Verdy posteriormente) também passou por cima dos sauditas e manteve a taça continental em solo japonês.

O Yokohama Marinos (então Nissan Yokohama) foi o finalista da edição de 1990, com o zagueiro Oscar e os atacantes Wagner Lopes e Renato (ex-Guarani e São Paulo) no elenco. Eles foram derrotados pelo Liaoning, da China. Em 1999, o Jubilo Iwata do zagueiro Adilson Batista e do artilheiro Takahara rompeu os 12 anos de espera e levou o Japão ao topo do continente outra vez. A equipe celeste quase foi tricampeã em sequência, mas perdeu as decisões de 2000 e 2001 para o Al-Hilal e o Suwon Bluewings, respectivamente.

Eis que, em 2007, o Urawa Red Diamonds chegou com força para ser campeão, impulsionado pelos gols de Washington, Robson Ponte e o talento de Hasebe, Ono e o zagueirão brasileiro naturalizado japonês Túlio Tanaka. O último campeão asiático vindo do Japão foi o Gamba Osaka, que venceu a Champions em 2008. Aquele time contava com o meia Endo em grande fase, além dos atacantes brasileiros Lucas (ex-Atlético Paranaense) e Roni (ex-Fluminense e Cruzeiro).

A seleção também ganhou força

Por mais que hoje em dia seja difícil ver algum japonês atuando na Seleção e defendendo um clube do país, também é possível retratar os Samurais Azuis como uma potência asiática. Para quem nunca havia se classificado para um Mundial até 1998, o progresso é incrível. Do time que engatinhava e morria na praia antes das Copas, sobrou muito pouco. O empurrão final foi a edição de 2002, sediada em conjunto com os sul-coreanos.

Da equipe titular que goleou a Tailândia (4-0) pelas Eliminatórias asiáticas nesta semana, apenas Morishige (FC Tokyo) e Yamaguchi (Cerezo Osaka) não jogam no exterior. A partir do ponto que o Japão começou a fornecer seus talentos para ligas europeias, o panorama mudou consideravelmente. Por este motivo, temos as principais estrelas de lá em grandes centros, como Kagawa (Dortmund), os laterais Gotoku (Marselha) e Hiroki Sakai (Hamburgo), o meia Honda (Milan), o lateral Nagatomo (Inter) e o atacante Okazaki (Leicester), todos com relativo destaque em suas equipes.

Os resultados não mentem: são quatro títulos da Copa da Ásia desde 1992, quando a J-League já estava saindo do papel. As conquistas em 2000, 2004 e 2011 colocaram o Japão como a grande força asiática, superando a Arábia Saudita, que era a maior campeã continental, mas parou de vencer em 1996. Imaginar o Japão fora de uma Copa do Mundo ou indo mal em uma Copa da Ásia é uma realidade bem distante hoje em dia.

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