Hakan Sukur, o goleador que elevou o patamar da Turquia no futebol

Lenda do futebol turco, Hakan Sukur marcou quase 400 gols em longa carreira. Responsável pela grande fase do seu país nos anos 2000, o camisa 9 fez muito sucesso pelo Galatasaray, mas não conseguiu se firmar em clubes do exterior.

Em 1987, a Turquia ainda era uma seleção sem tanto prestígio internacional e que só havia disputado uma Copa do Mundo. Naquele mesmo ano, surgia um homem capaz de modificar esse status. Revelado pelo Sakaryaspor, o atacante Hakan Sukur começava a se destacar por sua altura, bom cabeceio e faro de gols.

Essas são características comuns a grande jogadores da posição, mas que ajudaram a impulsionar o seu sucesso na década seguinte. Em três anos com a primeira equipe, ganhou projeção e assinou com o Bursaspor em 1990. Apesar da média de gols não ser excelente, algo nele chamava a atenção. Talvez a capacidade ímpar de passar por cima de marcadores com muita força. Esta tendência foi o que construiu a sua reputação como um tanque.

Anos mais tarde, Sukur foi para o Galatasaray e iniciou uma relação bem duradoura através das décadas. De repente, o “Touro do Bósforo” era uma realidade dentro da Turquia. No principal time do país, era ele quem colocava a bola na rede. Os três primeiros anos foram bem sucedidos e Hakan já era um selecionável. Em 1996, disputou o primeiro torneio internacional com a Turquia, na Eurocopa. Por outro lado, teve de esperar outros seis anos para estrear e brilhar em um Mundial.

A glória não demorou tanto assim. Pelo Galatasaray, manteve a média de mais de 20 gols por ano antes da primeira despedida. Em 1995, aceitou um convite e foi jogar no Torino. A estadia na Itália não foi um mar de rosas, muito pelo contrário. Em pouco mais de seis meses, Sukur só fez cinco partidas e um gol, retornando prontamente à Istambul para defender o Galatasaray. Ele já tinha o respeito da torcida, dois títulos da Liga e um da Copa da Turquia. Regressava como um astro.

Mais cinco temporadas e Sukur deixou de ser um simples mortal para se transformar em um ícone. Com o número 9 às costas, levantou mais quatro vezes a Liga e conquistou a inédita Copa Uefa em 2000, contra o Arsenal. É, até hoje, o maior feito de uma equipe turca em competições europeias. Recheado de estrelas, aquele Galatasaray contou com o talento e a determinação de Gheorghe Hagi. Hakan foi tão crucial quanto o romeno, marcando gols nas partidas decisivas, conforme o time avançava.

De todos os adversários do Gala na Copa Uefa, Sukur só não marcou contra o Arsenal, na decisão. Eliminados na fase de grupos da Champions, os turcos foram parar na outra competição e fizeram uma ótima campanha. O duro duelo com o Bologna de Signori e Ventola foi decidido nos mínimos detalhes, com um gol fora na primeira partida. Sukur salvou os colegas de uma derrota e no jogo de volta, o Gala fez a lição de casa, batendo os rossoblu por 2-1. Não fosse aquele golzinho na Itália, o destino teria sido outro.

Contra o Borussia Dortmund, em Istambul, nova vitória dos turcos, pelas oitavas de final. Sukur e Hagi puniram os aurinegros por 2-0 e só administraram um empate sem gols na Alemanha. Diante do Mallorca, nas quartas, a vida foi mais fácil. O centroavante marcou nos dois jogos, vencidos pelo Galatasaray sem nenhum transtorno. O roteiro se repetiu nas semifinais contra o Leeds, com mais um gol de Sukur em cada confronto. Desta vez, os ingleses ofereceram maior desafio, empatando em 2-2 no estádio de Elland Road após um revés por 2-0 na Turquia. Com a força de seu goleador, o Gala chegou à final.

De Istambul para o mundo

Um zero a zero disputado em Copenhagen chamou as penalidades para decidir o campeão daquela edição de 1999-00 da Copa Uefa. Do outro lado, um Arsenal cada vez mais confiante treinado por Arsène Wenger. As defesas trabalharam muito, especialmente a dos Gunners. Logo no começo, uma blitz ofensiva dos turcos trouxe muitos problemas para o goleirão David Seaman. Inclusive Sukur, que emendou uma bicicleta em determinado momento. O arremate, no entanto, foi para fora.

Com a igualdade no tempo normal, os times foram forçados a uma prorrogação com gol de ouro. A tensão era evidente e Hagi, grande destaque do Gala, acabou expulso por agredir Tony Adams. O Arsenal merecia ter saído dos últimos 30 minutos com um gol, mas o destino quis que as cruéis penalidades resolvessem a questão.

A verdade é que os ingleses não tiveram tanto preparo emocional para a decisão e perderam por 4-1, diante de um tranquilo adversário que bateu com muita competência os seus pênaltis. Apenas Parlour acertou seu chute, enquanto Suker e Vieira desperdiçaram as outras chances. Foi do zagueiro Popescu o último e capital chute que deu a taça à agremiação de Istambul.

Foi uma grande temporada para o Galatasaray, que conquistou a Tríplice Coroa com a Liga Turca, a Copa da Turquia e a Copa Uefa. As 29, Sukur saboreava seu prestígio com grandes atuações e títulos, que o colocaram definitivamente na história do clube e no coração de cada torcedor.

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Dois anos mais tarde, já consolidado e trintão, Sukur chegou com grandes expectativas na Ásia para jogar a Copa de 2002. Mesmo fazendo só um gol, ele foi titular e uma referência na inexperiente seleção turca que chegou até a semifinal daquela edição.

Ele botava medo em muita gente. E chegou a dar alguns sustos no Brasil nas duas vezes em que encontrou a seleção de Luiz Felipe Scolari. O encontro com Ronaldo colocou duas gerações frente a frente. A escola de Sukur estava em seus últimos momentos, enquanto Ronaldo experimentava o auge e a superação depois de comer o pão que o diabo amassou com contusões sérias no joelho.

O turco só foi às redes contra a Coreia do Sul, na disputa do terceiro lugar. Mas seu nome é até hoje recordado em meio à jogadores que ficaram conhecidos mundialmente pela excelente arrancada no Mundial. E como a Turquia vendeu caro aquela semifinal. Sem aquele gol dramático com o bico da chuteira de Ronaldo, poderíamos muito bem ver uma zebra na final contra a Alemanha.

Hakan saiu revigorado da Copa, aos 31 anos. Naquele interim, havia defendido a Internazionale e o Parma, sem sucesso, entre 2000 e 2002. E muitos se perguntavam se ele era mesmo o fenômeno que se pintava fora da Turquia. Os raros gols na Serie A queimaram um pouco o filme do atacante, que ainda em 2002 acertou com o Blackburn. Mas a sorte lhe abandonou: Sukur quebrou a perna em um treino pelos Rovers e demorou meses para se recuperar. Quando voltou, sem a mesma potência, marcou apenas dois gols e voltou para a terra natal. Outra vez nos braços do Galatasaray.

A volta do ídolo foi um sucesso. E ele prometeu nunca mais partir de novo enquanto fosse atleta. Os gols voltaram a acontecer, ajudando o Gala a levantar mais duas vezes a Liga e outra Copa da Turquia. Veterano, prejudicado por lesões e pelo visível declínio físico, Sukur encerrou em 2008 uma carreira repleta de altos e baixos, mas que é incontestável quando se fala no seu desempenho dentro da Turquia. Autor de 290 gols com a camisa do Gala, ele se aposentou como o segundo maior artilheiro do clube, atrás apenas de Metin Oktay, craque dos anos 60 com 349.

Depois dele, surgiram outros caras que poderiam ter o mesmo protagonismo. Mas nenhum causou o impacto esperado e a Turquia segue à espera de um novo matador que a devolva ao caminho para uma outra Copa do Mundo. É sonhar demais esperar outra campanha de semifinal. Por isso a geração de Sukur é tão aclamada e querida pelo seu povo.

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