2001: O Mundial de Clubes da Fifa que nunca aconteceu

Estava tudo pronto para a segunda edição do Mundial de Clubes de 2001 organizado pela Fifa. Contando com campeões dos seis continentes, o mundo do futebol estaria concentrado na Espanha entre julho e agosto. Mas a quebra da empresa de marketing ISL acabou com os planos dos envolvidos. O que poderia ter acontecido se o torneio não tivesse sido cancelado?

Os palmeirenses ainda se pegam pensando em como seria se o clube tivesse conseguido disputar o Mundial de 2001, a segunda edição do torneio que a Fifa vinha promovendo. Para substituir o Intercontinental, que teve a sua última edição em 2004, a entidade montou em 2000 o que seria o embrião do modelo hoje utilizado.

Panfleto divulgado pelo Palmeiras em 2001: pacotes de viagem chegaram a ser vendidos para o Mundial que nunca aconteceu

Se na estreia do formato o Corinthians levou a melhor em grande final contra o Vasco, no Maracanã, o Palmeiras esperava disputar -como tinha direito- a edição seguinte. Isso só não ocorreu porque o presidente palmeirense da época, Mustafá Contursi, “vendeu” a vaga em 2000 por algum dinheiro e a promessa de participar em 2001.

Fato é que o cenário era ainda mais desfavorável do que em 2000. E com o fechamento da empresa ISL, que fazia todo o lado comercial da competição, a Fifa não teve outra escolha a não ser cancelar o evento em maio de 2001, alegando adiamento para 2003. O problema é que nem assim foi possível realizar o campeonato, diante dessa situação. Somente em 2005 o Mundial de Clubes como conhecemos voltou a ser realizado.

Cercada por picaretagens, a ISL foi fechada por vários casos de fraude e corrupção, todos envolvendo cartolas brasileiros de alto escalão. E assim, o sonho alviverde de conquistar o planeta se viu adiado. Sonhar é bom, não custa nada. Mas será mesmo que o Verdão teria sido bem sucedido na sua empreitada? Alguns elementos nos mostram que não.

Os adversários

O Real Madrid estava em ascensão após o título europeu de 2000 e caminhava para a taça de 2002

Eram três grupos de quatro equipes. A chave A tinha o temido Boca Juniors (em sua melhor fase), o Deportivo La Coruña (campeão espanhol em 2000), o Zamalek do Egito e o Wollongong Wolves da Austrália, ambos campeões de seus continentes em 2000 e 2001, respectivamente.

No segundo grupo, contávamos com Palmeiras (campeão da Libertadores de 1999), Al-Hilal da Arábia Saudita (campeão da Supercopa Asiática em 2000), o Olimpia de Honduras (vice-campeão da Concacaf em 2000) e o Galatasaray (campeão da Copa Uefa de 2000).

Fechavam a competição o Real Madrid (campeão europeu de 2000), o Hearts of Oak de Gana (campeão da Champions Africana em 2000), Jubilo Iwata (vencedor da Supercopa Asiática em 1999) e o Los Angeles Galaxy (campeão da Concacaf em 2000). Tudo isso para acontecer entre 28 de julho e 12 de agosto, em La Coruña e Madri, período em que os europeus ainda estariam em pré-temporada.

O contexto

Makaay, o matador do “Super Dépor”

Em tese, diante do que cada time poderia desempenhar, os classificados seriam Boca Juniors e Deportivo (melhor segundo) no grupo A, Palmeiras (com sufoco) no grupo B e o Real Madrid no Grupo C.

Apesar de ter sido semifinalista da Libertadores naquele ano, o Verdão não era mais tão competitivo como em 1999 e 2000. Marcos, Arce, Argel, Taddei, Felipe, Pedrinho, Alex, Felipe, Basílio, Fabio Júnior, Muñoz e Lopes eram as esperanças do time de Celso Roth para a temporada. Este mesmo elenco ficou apenas em oitavo no Paulista e terminou o Brasileirão em 12º. Eram os primeiros meses sem a Parmalat no clube.

Desta forma, não seria loucura projetar que o Boca venceria a sua chave, de forma acirrada, sendo seguido pelo Deportivo de Djalminha, Valerón, Mauro Silva e Makaay. E que o Palmeiras conseguiria segurar o Galatasaray do mesmo jeito, em margem estreita, mas goleando o Olimpia e o Al-Hilal para conseguir seu saldo e avançar. Só o Real Madrid teria vida fácil, engatinhando em sua fase galáctica com Florentino Pérez.

O formato das semifinais previa que o vencedor do Grupo A enfrentasse o campeão do B, portanto, Boca Juniors x Palmeiras, numa reedição da Libertadores do mesmo ano. Naquela ocasião, dois empates em 2-2 levaram a disputa para os pênaltis, com vitória de Riquelme e seus colegas. O outro jogo seria Real Madrid, campeão do C, enfrentando o Deportivo, melhor segundo colocado. A semifinal dos sul-americanos teria sido realizada na Galícia, mais precisamente no Riazor, casa do Depor. Os espanhóis duelariam no Santiago Bernabéu.

Guardadas as devidas proporções e somando ao fato de que o Boca era um osso duro de roer, o Palmeiras provavelmente ficaria pelo caminho, mesmo dando o seu melhor e dificultando o trabalho dos xeneizes. Isso se o confronto não fosse decidido novamente em penalidades. Teríamos Boca e Real Madrid na decisão, com amplo favoritismo do Real, que estava diante de sua torcida.

Se você for bem otimista, podemos projetar o Palmeiras vencendo o Boca no sufoco e jogando a final contra o Real Madrid. Contudo, imaginar uma equipe como aquela de Roth enfrentando os merengues em pleno Bernabéu seria, no mínimo, um baile. E então, o destino palmeirense no Mundial de 2001 seria: a terceira derrota emblemática para o Boca em menos de dois anos ou um atropelamento contra o Real Madrid na decisão. Nenhuma delas tem final feliz. A não ser que Alex fizesse chover e colocasse pressão na defesa madridista. Nunca se sabe.

O mais provável dentro de todas estas hipóteses é mesmo apostar em um Boca Juniors x Real Madrid, mesma carga dramática do que o Intercontinental de 2000, vencido pelos argentinos com dois gols de Palermo no Estádio Nacional de Tóquio. Encardido como era naqueles tempos, o Boca Juniors de Riquelme, Delgado e os irmãos Schelotto forçaria o Real de Vicente Del Bosque até limite. Mas os espanhóis contavam com Zinedine Zidane e toda a sua arte, além de Roberto Carlos, Figo, Hierro e Raúl. Uma grande revanche, sem dúvida.

Triunfante, o Real derrota o Boca Juniors por 2-0 com gols de Zidane e Raúl para ficar com o título dentro do Santiago Bernabéu, iniciando assim um ano especial como foi o do Centenário. O Boca não se abalou, já que tinha um novo desafio ao fim do ano contra o Bayern, pelo Intercontinental. Só o Palmeiras que sairia com baixo astral da competição, tendo em vista que a fonte de sua riqueza havia secado e que os anos seguintes seriam bem tortuosos para a torcida.

Tudo isso poderia ter acontecido em uma realidade paralela em que a Fifa não se metesse com empresas obscuras e tomasse conta dos campeonatos que organiza com seriedade. Aí é que seria mesmo impossível para esta história, convenhamos.

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