Ademir é nome de craque para jogar em time grande

Falar de futebol e ouvir o nome Ademir pode causar certo saudosismo em duas torcidas particulares do Brasil. Vascaínos e palmeirenses aprenderam a idolatrar diferentes gênios da bola que infelizmente nunca contracenaram. Mas dividem de alguma forma o mesmo batismo.

De Pernambuco para a eternidade

Ademir Marques de Menezes nasceu em 1922 na cidade de Recife, em Pernambuco. Começou sua carreira pelo Sport, antes mesmo de completar maioridade, chamando a atenção de dirigentes cariocas em 1942, ano em que assinou com o Vasco. Pela equipe cruzmaltina, encantou a torcida com apenas três temporadas.

Ademir, o Queixada, fez parte do inesquecível “Expresso da Vitória”, que reinou nos campos brasileiros enter 1942 e 52. Altamente ofensivo, tinha nele o grande atacante e responsável por colocar a bola na rede. Pela propensão aos gols, virou um fenômeno da pequena área e ganhou lugar com vários companheiros vascaínos na Seleção que disputou e perdeu a Copa de 1950 no Maracanã.

Uma fera da maior qualidade entre os craques que marcaram a história do futebol nacional antes do período glorioso pós-Pelé. Mesmo sem ser campeão mundial antes de 1958, o país era riquíssimo em talentos dos gramados. Ademir certamente figura em listas dos maiores gênios do Vasco, tudo isso com muita regularidade e 12 anos de serviços pela equipe. Nem mesmo uma passagem pelo Fluminense deu cabo dessa relação dele com o clube de São Januário.

Expressivo com as palavras, cunhou frases memoráveis durante e depois de sua carreira. Foi pentacampeão carioca (quatro com o Vasco, uma com o Flu), vice-campeão mundial, campeão do Campeonato Sul-Americano de Campeões (que pode ser considerado um embrião da Libertadores) e unanimidade entre outros avantes, pontas e centroavantes nos seus tempos. Do pouco que ainda há registrado dos anos 40 e 50 do futebol carioca, sabe-se que Ademir, o Queixada, foi um dos primeiros atletas a ganhar enorme fama e reconhecimento pela sua capacidade de balançar as redes.

Os seus mais de 300 gols aconteceram em um tempo em que os beques e outros defensores não tinham a menor vergonha de descer a botina. Sobreviver a aquela época sendo um atacante é um mérito incontestável. A carreira do pernambucano acabou em 1957, em um breve retorno ao Sport, próximo aos seus 35 anos de idade. Depois disso, era visto sempre pelos lados da Colina, aconselhando e ajudando a descobrir jovens talentos na base. Ídolo maior de sua geração, também serviu de inspiração para pais vascaínos batizarem seus filhos.

Em uma divertida história contada à revista Placar em 1970, já vivendo distante do futebol, Ademir emendou um de seus causos:

Teve um sujeito que me chamou para batizar o filho, em 1946. Fui lá, batizei. Ademir, claro. Uma semana depois, fui para o Fluminense, apareceu o tal cara: “Quero desbatizar, você traiu o Vasco”. E mudou mesmo o nome do garoto. Um ano depois, quando voltei ao Vasco, não é que o cara foi me procurar para batizar de novo o mesmo garoto? Mas aí eu não topei mais.

O Ademir carioca que enfeitiçou os palmeirenses

Seu Domingos não era vascaíno e jamais rebatizou seu filho, até onde sabemos. Ele passou pelo clube carioca duas vezes em sua trajetória profissional, mas não deixou pública sua preferência clubística. Zagueiro dos bons, daqueles que saíam jogando sem a menor vergonha e com enorme categoria, o pai deixou o esporte no mesmo ano em que o Brasil perdia a Copa do Mundo para o Uruguai e Ademir, o Menezes, vivia seu auge.

Os irmãos dele, Luiz, Médio e Ladislau também viviam do futebol, todos com passagem pelo Bangu, além do próprio Domingos. A segunda geração dos Da Guia, no fim dos anos 1950, ganhou um herdeiro digno da linhagem: Ademir, como Menezes, nascido em 1942, ano em que Queixada chegou ao Vasco. Estes dois não possuem nenhuma ligação conhecida, tudo que temos aqui é uma coincidência de batismo que une os dois craques de distintas posições no campo.

Assim como o pai e os três tios, Ademir, o da Guia, começou sua brilhante carreira no Bangu. Bastou um ano como profissional para vir o convite do Palmeiras, em 1961. Depois disso, só deixou de vestir a camisa alviverde quando se aposentou, em 1977, mais de 900 jogos depois. Assim como o seu xará vascaíno, Ademir ganhou uma alcunha particular e marcante: era chamado de Divino, pelo fato de ser herdeiro de Domingos da Guia, o Divino Mestre.

A classe com que Ademir conduzia e brincava com a bola era ímpar. Era um acontecimento a cada vez que subia pelo túnel e adentrava o gramado no Jardim Suspenso. Um gentleman que podia ditar o ritmo de uma partida com um ou dois toques, um armador até hoje inigualável na história do Palmeiras. Títulos? O Divino ganhou quase todos em seus 16 anos no Palestra Itália. Cinco vezes campeão nacional, pentacampeão estadual em um tempo amplamente dominado pelo Santos de Pelé, camisa 10 do maior time que já vestiu a camisa palmeirense e outros recordes e taças que se somam à sua lenda.

Da Guia foi o último do seu clã a passar pelo futebol e com a sua aposentadoria, o Palmeiras sentiu o peso da fila e a agonia de não ser mais campeão até a década de 1990, com o dinheiro e os craques trazidos pela Parmalat. Ademir é sinônimo de grandeza, seja em São Januário ou na Rua Turiassu. E como estes dois fazem falta ao nosso engessado e pouco criativo futebol de hoje.

Quarenta anos depois do Divino, não houve outro Ademir que fosse notável. Ele mesmo ainda dá o ar de sua graça em amistosos pelo Palmeiras, como o que marcou a inauguração do Allianz Parque, em 2014. Velhinho, mas ainda com alguns traços de sua juventude. Aliás, Da Guia ainda se comporta como se nunca tivesse envelhecido. Alegre, brincalhão, sem jamais tirar do corpo alguma peça que o remeta ao passado fabuloso que viveu como parte deliciosa da história palmeirense. Simplesmente pelo fato de que ele é a própria história, ali, contada a cada vez que ele se faz presente em público.

Enquanto a Menezes, morto em 1996, o reconhecimento pelos grandes feitos na equipe vascaína ficou nas páginas dos livros que tratam do Expresso da Vitória e também pelos icônicos jogadores que estiveram naquela final de 1950, no Maracanã. Coube a ele, no entanto, o infortúnio de não ter vencido a primeira Copa com a Seleção. Uma injustiça que nunca será reparada.

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