Vivendo a Master Liga: Messi não aguentaria um ano jogando pelo Quilmes

Messi assina com o Quilmes por uma temporada. O grande atleta argentino do novo milênio volta para a sua terra em uma manobra ousada para retomar a alegria de jogar futebol. Com a camisa dos Cervezeros, ele vira atração especial nos campos surrados da Primera División. Tudo isso aconteceu em um save especial da Master Liga no PES 2017.

Quando surgiu a notícia de que o Quilmes estava trazendo Lionel Messi, o mundo do futebol explodiu pensando se tratar de um belo boato plantado. Mas quando ele de fato foi apresentado ao clube argentino, meses depois de anunciar a aposentadoria do Barcelona, tudo ficou sério. Todas as atenções do planeta se viraram para o acanhado estádio Jose Luis Meiszner, o Centenario Ciudad de Quilmes.

Construído em 1995, o local que abriga 33 mil pessoas lotou como nunca. Tudo para ver a apresentação do craque que era dado por todos como acabado depois de entrar em depressão profunda com a camisa do Barcelona. Aposentado, Lionel Messi ficou alguns meses sendo acompanhado por veículos de imprensa sem ter a paz que desejava. Foi aí que uma ação ousada de marketing elaborada por empresas nacionais providenciou a contratação do grande mágico dos nossos tempos por uma temporada, aquele que tirou gols da cartola em incontáveis vezes no passado, mas que jamais conseguiu levantar a sonhada Copa do Mundo com a Argentina.

O Lionel Messi que chegou ao Quilmes e apertou as mãos do presidente do clube não era muito parecido com o cara fechado e sério que conhecemos. De poucas palavras e sorrisos raros, o craque que fez o esporte parecer uma gincana vestiu a camisa, posou para fotos, chutou bolas para os 40 mil sortudos que estavam lá e tomaram parte do gramado para ficar perto do último rei da modalidade. O Quilmes vendeu 130 mil camisas em apenas dois dias, um recorde absoluto na sua história. Mas outras marcas notáveis vieram depois. A Heineken patrocinou a iniciativa e quis comprar o Quilmes como uma ação ousada de mercado, mas os diretores recusaram a proposta por respeitarem as raízes do clube.

Lionel começou tímido. Ganhou a faixa de capitão, a camisa 10 e tudo mais que quisesse para reestrear. O palco foi Tucumán, a casa do Atlético, que já vivia grande exposição por jogar a Copa Libertadores. Pela Primera División, eles se enfrentariam em um jogo memorável, ao menos era o que os prognósticos apontavam. Messi estava disperso, distante de sua essência agressiva. A bola que colava nos pés agora era inimiga, estava arisca. Os marcadores não se assustaram em enfrentar o pequeno gigante. Com três em cima dele o tempo todo, o maestro se viu limitado como um prisioneiro. Um refém da própria fama.

Fora do campo, centenas de repórteres clicavam cada movimento seu. Cada respirada profunda, cada olhar, cada cuspe e expressão de lamento. Messi é um astronauta em sua primeira viagem à lua. Os passos pesados carregam anos e anos de provações prontamente vencidas à base do talento e da predestinação. Os primeiros 90 minutos foram um balde de água fria em quem foi a Tucumán esperando ver um show. O artista não entregou emoção, estava engessado. E o Atlético venceu o Quilmes por 1-0.

Treze dias depois, voltaram ao campo. Agora em Córdoba, no Mario Kempes, para enfrentar o Belgrano. Um empate murcho em 1-1, sem participação ativa de Messi, ocupado demais entre dois defensores por onde quer que fosse. Quantos não sonharam com aquele momento e se frustraram ao notar que Lionel era apenas um homem normal com seus anos melhores anos deixados para trás? Dois jogos, 180 minutos e nada. Até mesmo o fraco lateral direito do Quilmes foi mais prestativo e decisivo do que o capitão, ao dar um passe para Torres mandar para as redes. Belgrano 1-1 Quilmes, seguiu a parada.

Na TV, os programas toscos de mesa redonda já questionavam se Messi queria mesmo jogar futebol. Inquieta, a torcida preferia defender o novo ídolo, dar tempo para que ele se adaptar ao duro futebol argentino, onde xerife nenhum domina terras sem disparar um tiro. É preciso balear para matar até que se ganhe fama. Sete dias depois do segundo jogo, o Quilmes recebeu o Defensa y Justicia. O Centenario ficou novamente abarrotado, os ingressos dobraram de preço e era hora de ver o que Messi poderia fazer. Outro empate por 1-1, nada daquele gênio do Barcelona. Chegaram até a publicar uma matéria em um jornal de péssima reputação dizendo que ele estava bêbado em campo, mas a informação não foi confirmada e Messi negou em silêncio as acusações.

A ida para o Quilmes era, em tese, o reencontro com a alegria, com a paz. O atleta quatro vezes melhor do mundo estava longe da insanidade de defender um gigante como o Barça, uma máquina de moer ídolos e de exigir resultados, de cobrar até mesmo quando o seu time vence só por um gol. O senhor que senta no mesmo lugar da arquibancada desde a abertura do estádio Centenario fuma seu cigarro, traga até a chama acesa enquanto olha para o horizonte. O filho, ao lado, o cutuca e pergunta se está tudo bem. Este senhor, resignado, apaga a bituca no concreto e responde: “Não. Nos venderam uma mentira. Esta é só a sombra de Messi, a quem nunca me convenceu de seu patriotismo. E querem nos fazer engolir este rapaz em detrimento de Don Diego“.

Por toda a vida no futebol, Messi ouviu comparações muitas vezes descabidas com Maradona, simplesmente a maior personalidade que já saiu daquela terra. Pois Diego era “de la gente“, era um deles, partilhava de suas dores, exaltava seu hino, comprava suas guerras, vencia suas batalhas e saía exultante do gramado. Sempre perdoaram Diego quando ele falhou, mas jamais perdoaram Lionel por não trazer a terceira Copa ao povo. Por isso e outras questões de identificação, ele jamais teria a mesma representatividade de Maradona. Dentro e fora do campo.

Não param de questionar Messi. Não o entendem. Não conseguem absorver o sofrimento a que ele foi sujeitado, só o apedrejam, não são capazes de aceitar que o maior do mundo teve -está em- uma fase de João Ninguém e precisa se recompor. Com a ajuda de sua família, optou por um retorno à Argentina, mas ninguém esperava que ele demorasse tanto a reagir. Passou-se um mês, três jogos e o danado do Messi não dava sinal de vida. Parecia um zumbi na cancha, um retrato derretido de alguém que estava perdendo a batalha contra a própria mente.

Rodada quatro. Estudiantes e Quilmes em La Plata. La Pulga se apresenta para o jogo. Uma preleção emocionada e gritos -que surpreenderam o goleiro Giovini- deram o tom do desafio na casa pincharrata. Tentaram intimidar Messi com pancadas, joelhadas, marcação cerrada. Ele não sentiu dor. Nem medo. Quanto menos preguiça. Cercado por cinco oponentes, carregou a bola no limite da área, soltou para um companheiro, que correu para o canto, cruzou e… gol de Torres. Para a primeira vitória do Quilmes. Antes tarde do que nunca. Estudiantes 0-1 Quilmes.

Só Messi seria capaz. Lionel estava se reerguendo e precisava contar com a paciência que provavelmente nunca teve do público. Um homem em sua jornada para recuperar a razão de viver. Uma lenda viva que escolheu este pequeno clube argentino para dar o presente de sua genialidade. Com um toque, ele é capaz de vencer o jogo. Não importa que duvidem disso. Que cravem que ele jamais terá o mesmo instinto assassino ou driblará com facilidade uma penca de jogadores no gramado alto de Mendoza ante o Godoy Cruz ou no alçapão de Junín contra o Sarmiento. Que não jogará nem uma partidinha pela Copa Libertadores.

A cruel manchete de jornal que punha em dúvida o interesse de Lionel no jogo foi invertida na rodada seguinte. Messi, em Mendoza, parecia atração de circo. O anão regeu o picadeiro, rolando a bola para uma pancada de Torres no ângulo. O anão foi que roubou a posse adversária, recuou o jogo e após uma longa e paciente troca de passes, um cruzamento vindo de trás achou a cabeça do matador Torres, o nome do gol nos quatro jogos em que o Quilmes marcou.

Messi corre como se tivesse acabado de entrar na partida. Ele acelera em direção aos companheiros que pulam na placa de publicidade na linha de fundo. O capitão quer participar da celebração, abraçando cada um, batendo no peito de Torres e dizendo: “Eu vim. Eu disse que viria. Eu disse que viria“. O Quilmes massacra o Godoy Cruz e o placar de 2-1 ficou barato com tantas chances criadas.

Envergonhado, um torcedor do Godoy Cruz enrola a faixa que preparou para aquela partida. “Messi pecho frio“, dizia o pedaço de trapo atrás do gol dos mandantes. Depois disso o próprio corneteiro aplaudiu o ímpeto e a entrega de Lio. Por que iriam querer estar do outro lado deste monstro sagrado? Nem um cego faria isso. O senhor que antes dizia que Lionel era um farsante apaga o novo cigarro, o quarto da noite. Está em casa, vendo pela TV a vitória convincente de seu querido Quilmes. Olha para o filho, dá um tapa na coxa do herdeiro, sentado no sofá. Desce um gole da cerveja e brada: “Que lidem com ele agora. O chacal está à solta“.

Há relatos de que este senhor teve queda de pressão quando o Quilmes enfrentou o Lanús na rodada seguinte. No placar, apenas um gol a zero para os mandantes. Um jogo histórico por si só, facilmente explicado pelo grande evento que comoveu e mobilizou jornais ao redor do mundo. Messi fez seu primeiro gol pelo clube argentino, de cabeça, não foi bonito, mas ninguém liga para isso. O primeiro de muitos? O que esperar de uma lenda em processo de redenção? O Quilmes pode sonhar ainda mais com ele?

Tudo sugere que sim. Tem muito mais vindo por aí nas próximas rodadas.

1 pensamento em “Vivendo a Master Liga: Messi não aguentaria um ano jogando pelo Quilmes”

  1. Muito bom Felipe. Muito interessante usar a Master Liga pra ilustrar uma história de ficção.Fico no aguardo para os próximos capítulos.

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