Noite de Libertadores: Pela hora da morte

Foto: Globoesporte.com

Palmeiras e Atlético Paranaense comemoraram vitórias importantes na fase de grupos da Libertadores. O Furacão bateu o San Lorenzo fora, na raça, enquanto o Verdão esperou até o último minuto para fazer o gol que salvou a sua torcida da total desgraça.

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Mais sorte do que juízo

“Mais sorte do que juízo” costuma ser uma expressão usada com frequência para quem cobre a Libertadores. Porque muitos times sentam em cima de uma vantagem adquirida, se retrancam, passam o maior perrengue, mas saem de campo com a vitória. Este foi o caso do Atlético, mais uma vez nesta edição.

Fora de casa, o Furacão surpreendeu com um gol de Lucho González, um medalhão que até agora tem sido absolutamente fundamental no progresso da equipe. Um cara que sabe se posicionar, está condicionado a resolver partidas e tem noção do seu papel dentro do elenco. De cabeça, com um toque no cantinho da meta de Torrico, o campeão da Libertadores em 2015 deu três pontos importantíssimos ao Furacão na noite de quarta-feira.

O San Lorenzo ainda não conseguiu estrear dignamente na temporada, muito porque a greve de jogadores na Argentina atrasou em mais de dois meses o início das atividades em 2017. Se o Cuervo já havia pago o preço contra o Flamengo, na rodada passada, quando foi atropelado por 4-0, diante do Atlético só faltou o baile. Mas o preparo físico precário entrou em campo novamente e é o que pode ter separado os argentinos de um empate ou uma virada.

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A diferença dos Atléticos anteriores em relação a este é que o time de Paulo Autuori versão 2017 é cascudo, cascudo demais. Esqueça as entregadas de ouro contra o Deportivo Capiatá e a Universidad Católica em casa. Longe de Curitiba, o Furacão sabe se defender e também oferece suas garras para pelo menos marcar um gol. O roteiro foi bem parecido com a partida que deu o acesso à fase de grupos, no Paraguai, ante o Capiatá. Gol no início (de Lucho) e sufoco na segunda etapa, com Weverton praticando grandes defesas.

Para aliviar um pouco o coração rubro-negro, o jogo não era de vida ou morte. Porque se fosse, o pênalti cometido por Sidclei (de forma controversa) teria derrubado alguns soldados do exército de torcedores atleticanos. Felizmente para eles, Viatri jogou fora a chance e Weverton respirou tranquilo por alguns minutos. O capitão ainda salvou algumas bolas de balançarem as redes dos visitantes.

Quando falamos em “mais sorte do que juízo”, o exemplo maior é a finalização displicente de Lucho depois dos 40 e tantos do segundo tempo. O camisa 3 entrou sozinho na área, de cara para o goleiro, e na hora de matar o Ciclón, mandou por cima. Seria trágico e previsível que o San Lorenzo empatasse no lance seguinte, mas a defesa composta por Thiago Heleno e Paulo André se portou com extrema seriedade e afastou o perigo nos momentos mais turbulentos do confronto.

O que os atleticanos lamentaram semana passada virou motivação para uma justa reabilitação na segunda rodada, contra um campeão da América que ainda não acordou para a disputa em que está inserido. Quem quer chegar longe como o Atlético não pode ter medo de adversários assim. O primeiro passo já foi dado: ter Lucho González, Grafite, Paulo André e Jonathan no elenco como os campeões designados para a tarefa de colocar o Furacão no mapa sul-americano.

 O tanque que voa

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O Flamengo estreou bem demais e queria manter a escrita contra a Universidad Católica, no Chile. Nos domínios da equipe cruzada, o Fla bem que tentou furar o bloqueio e abrir o placar. Mas um festival de chances perdidas acabou custando caro. O nervosismo e muitas vezes até o preciosismo tiraram a clareza dos lances propostos pelos brasileiros.

A tranquilidade para pensar em alternativas e a agressividade no confronto com a defesa adversária que marcaram a goleada no San Lorenzo estiveram presentes, mas em menor escala. Como era mais organizada, a Universidad Católica suportou a pressão sem levar um gol. Um só do Fla teria feito toda a diferença e causado uma arrancada rubro-negra para o sexto ponto.

Como a Libertadores nunca é um conto de fadas nem para quem vence no final, os flamenguistas sentiram na pele o nervosismo de tentar, tentar e esbarrar em algum detalhe. Diego, então, nem se fala. Em uma falta banal cometida pela defesa cruzada, o meia colocou uma bola no travessão. De tanto desperdiçar oportunidades para construir o resultado, o Flamengo foi castigado.

Muralha, que já havia salvo o seu time em um mano-a-mano com Silva, não conseguiu se esticar o bastante para defender a cabeçada do Tanque, um tiro no canto da meta que abalou a confiança dos meninos de Zé Ricardo. O Fla foi bem mais envolvente e perigoso, mas a história deste confronto duríssimo em Apoquindo é mesmo dos mandantes que se aproveitaram de um momento favorável para balançar as redes.

E pensar que Buonanotte ainda fez uma bela fumaça na defesa carioca, fintando alguns adversários e chutando sem força em Muralha, já nos acréscimos. Teria sido ainda mais cruel um golaço quando ambas as equipes pareciam completamente sem pernas. O merecimento não é a palavra-chave para resumir este duelo. A resposta é a eficiência.

Atlético Paranaense e Católica lideram a chave com quatro pontos, seguidos pelo Flamengo, com três, e pelo San Lorenzo, ainda zerado. Vai ser bem encardido este grupo da morte.

Nervos de aço

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Difícil dizer quem sofreu mais com o jogo no Allianz Parque. Se os jogadores ou a torcida, que não pôde entrar em campo para ser o homem a mais em cada jogada. Desde o início, o Palmeiras procurou o gol que lhe daria tranquilidade nas ações, mas o ferrolho armado pelo Jorge Wilstermann dificultou demais a vida dos paulistanos até o fim.

A cada minuto, a cada falta não marcada, a cada entrada excessiva por parte dos bolivianos, a temperatura subia. O caldeirão palmeirense já fervia antes mesmo do intervalo, mas nada do gol sair. O desespero e a agonia se destacavam entre as sensações mais populares nas arquibancadas da Rua Palestra Itália. Mesmo superior, mais técnico e mais focado em perfurar a parede defensiva com uma enorme furadeira, o Palmeiras teve de esperar até o último suspiro dos 90 minutos para comemorar alguma coisa.

Nervos de aço. Haja paciência para não explodir após cada bola que voltava do ataque. Haja calma para não lançar qualquer cruzamento (e olha que foram quase 30) e acima de tudo, haja temperamento para não se irritar ainda mais com o juiz que não queria que houvesse futebol. Nem ele, nem o Jorge Wilstermann, obstinado a sair sem ser vazado, ainda que isso envolvesse dar carrinhos por trás completamente temerários. Ainda assim, nenhum atleta do lado visitante recebeu um cartão vermelho.

Não era só esperar pela vitória. Era suportar o stress massivo pela cera e pelas chances que iam pelo ralo. Borja, o homem gol, passou muito perto de marcar ao menos três vezes, mas não deu sorte. Capacidade não faltou, de certo. Entretanto, o Verdão não fez tudo certo. Estava previsível, não dava opções, usava as mesmas manobras de forma repetida e caía na armadilha da linha de impedimento traçada por Roberto Mosquera, uma velha raposa deste futebol sul-americano.

Também vale dizer que o Palmeiras bateu. Edu Dracena usou bem o braço, Mina chegou a rasgar a camisa de Alex Silva e Felipe Melo não economizou nos carrinhos e divididas enérgicas. Não cometeu faltas grotescas, apenas teve vontade demais e se recuperou de um primeiro tempo fraco. O grupo palmeirense não estava exatamente com a cabeça no lugar. Mas o abismo técnico se mostrou crucial.

Dudu, Borja e Tchê Tchê apanharam demais. Mas em uma falta dessas para matar tempo nos acréscimos, o Wilstermann foi punido por sua postura retraída demais. A defesa afastou um cruzamento que vinha para a pequena área, mas o rebote foi do time da casa. Borja foi derrubado e Keno ficou com a bola, rolou para Roger Guedes, que levou para o fundo e passou para trás. Mina, que chegou a fazer um gol de cabeça (anulado por impedimento), só tocou para as redes. Sem o batalhão de bolivianos à sua frente. Isso posto, eram 50 minutos do segundo tempo em um momento muito tumultuado por enrolações dos visitantes e reclamações de impedimento.

Foi legal, foi na hora do último trem, foi a redenção. Mina entregou a alegria palmeirense quando já se acreditava que a noite seria de cefaleia e corações pesados de tanta raiva. A Libertadores sempre foi assim e abençoada seja. É preciso dar mais do que suor para vencer nestes campos. A alma também farda, meus amigos.

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