Vázquez por Hagi: A troca que projetou o craque romeno no Real Madrid

Gheorghe Hagi chegou ao Real Madrid em 1990 como uma grande aposta da diretoria. Vindo de grandes momentos pelo Steaua Bucareste, o meia chegou para ser um substituto de Martín Vázquez no clube merengue. O Real perdia um ídolo, mas lançava um craque para o estrelato.

Aos 27 anos, o romeno Gheorghe Hagi deixava seu país após excelentes temporadas com o Steaua. O destino era o poderoso Real Madrid, que vinha de um título espanhol em 1990 e mirava passos ainda maiores. Enquanto o Barcelona de Johan Cruyff não estabelecia domínio no país, o Real mexia seus pauzinhos para montar uma equipe competitiva dentro e fora da Espanha.

Para Hagi, uma boa Copa do Mundo na Itália serviu como credencial para a transferência. Naquele momento, a diretoria do clube optava por não renovar com Martín Vázquez, ídolo da torcida e que pedia um salário incompatível com a realidade da época. Pelo menos é o que o presidente Ramón Mendoza pensava.

Vázquez deixou o clube pela porta dos fundos para assinar com o Torino. Sua carreira nunca mais foi a mesma. Já a de Hagi…

Vázquez, que havia vencido cinco Ligas Espanholas e duas edições da Copa Uefa, fez uma temporada absurda em 1989-90 e também defendeu a Fúria no Mundial. Contudo, a torcida não queria só títulos nacionais. A obsessão com a Europa cobrava um alto preço. Com 24 anos, Rafa foi obrigado a procurar novos rumos no competitivo futebol italiano.

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O meia espanhol já era aclamado por sua criatividade, técnica e capacidade de armar jogadas. Mas acabou desprestigiado ao fim de seu contrato e assinou com o Torino, abrindo assim uma porta para que Hagi mostrasse seu verdadeiro potencial em um grande centro.

Gheorghe se converteu em titular rapidamente e atuou em 34 jogos na temporada, marcando quatro vezes. Seu papel como regente e artífice da linha ofensiva era quase o de um protagonista, mas o Real não tinha forças para buscar o bicampeonato nacional, muito menos o título na Copa dos Campeões. Os espanhóis foram eliminados nas quartas de final do torneio europeu pelo Spartak Moscou, após uma bela surra na capital russa, por 3-1.

O primeiro ano de Hagi não foi brilhante para o Real Madrid, que acabou o Espanhol em terceiro e de mãos vazias nas outras competições. Para a segunda temporada, um pouco mais maduro, Gica teve um pouco mais de satisfação pelo seu rendimento em campo. Ao todo, foram 50 jogos e 16 gols que ajudaram os madridistas a chegar longe nas semifinais da Copa Uefa, na decisão da Copa do Rei e ao segundo lugar no Espanhol.

O grande esforço em 1991-92 culminou em frustração com a derrota no dérbi contra o Atlético pela Copa do Rei. Hagi saiu aos 37 da segunda etapa com o Real perdendo por 2-0, gols de Bernd Schuster (outro velho conhecido da torcida) e Paulo Futre. Gheorghe nada pôde fazer para salvar sua equipe de uma derrota amarga no último jogo da temporada.

Na Liga, o Barça de Cruyff levou a taça por apenas um ponto, graças a um tropeço do rival contra o Tenerife, na rodada final. Era o auge do Dream Team, que além de jogar muita bola, tinha aptidão para a emoção. Naqueles anos, os catalães se especializaram em aproveitar vacilos dos rivais para acumularem títulos espanhóis de última hora.

A Copa Uefa de 1991-92 acabou nas semifinais e com um sabor de vingança para Vázquez. Ele reencontrou seu ex-clube pelo Torino e participou da virada que deu a vaga na decisão para os italianos. Em Madrid, Hagi abriu o placar, mas Casagrande empatou para o Toro. Restou a Fernando Hierro resolver a partida para os merengues com um gol aos 20 da segunda etapa.

Tudo parecia encaminhado, mas em Turim, os italianos deram o troco. Um gol contra de Ricardo Rocha deu a vantagem para os mandantes e Luca Fusi fez o segundo, aos 26, classificando a equipe grená. Vázquez teve de esconder os sorrisos para não parecer um traidor para os ex-colegas. Em breve, o destino reservou outra reviravolta para ele.

Hagi foi muito pressionado pelo insucesso na temporada e acabou pagando o preço, mesmo indo muito bem, sobretudo em seu segundo ano. O Real Madrid tem uma velha política de fritar ídolos e Gheorghe acabou liberado antes mesmo de conseguir alcançar este status. Foi para o Brescia e apesar do rebaixamento na Serie A, deu a volta por cima e saiu revigorado com o título na segunda divisão italiana.

O retorno de Rafa não foi tão glorioso quanto se pensava

A curiosidade disso tudo é que Hagi foi contratado para fazer o papel de Vázquez, lá em 1990. Dois anos depois, o romeno deixou o Santiago Bernabéu e uma vaga se abriu. O próprio Vázquez a ocupou, retornando de uma passagem mediana pelo Torino. Não que o Real Madrid tenha enxergado um erro em contratar Hagi, mas nem mesmo ele era capaz de fazer mágica para tirar a agremiação da sombra do Barcelona. Tampouco Vázquez, que voltou mudado da Itália e passou a sofrer com lesões que abreviaram sua carreira.

Do Real Madrid para o Brescia, do Brescia para uma brilhante Copa do Mundo em 1994, e dos Estados Unidos para o Barcelona. Ainda que não tenha sido campeão com a camisa blaugrana, Hagi deixou uma ótima impressão nos anos finais de Cruyff no Camp Nou. À aquela altura, ninguém mais duvidava de seu potencial como um camisa 10 astuto e que enxergava espaços impossíveis para a grande maioria dos jogadores.

Para encerrar com chave de ouro a sua passagem pelo futebol, Hagi levou o Galatasaray ao topo da Europa com o título da Copa Uefa de 2000 (frente o Arsenal) e a Supercopa Europeia em cima do Real Madrid, bagunçando com Roberto Carlos em atuação memorável. Um desfecho merecido para um atleta que sempre foi muito leal e determinado. Poucos trataram a bola com tanto carinho como ele fez ao longo de 19 temporadas.

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