O instinto goleador de Mazzola que levou o Milan ao topo da Europa

Autor de 14 tentos na campanha do título do Milan pela Copa dos Campeões Europeus em 1963, José João Altafini foi crucial para o início da belíssima história rossonera na Europa. Seu recorde individual de gols na competição só foi quebrado mais de 50 anos depois por Cristiano Ronaldo.

O contraste do futebol moderno com os clássicos dos anos 1960 é cada vez maior. O esporte se globalizou, equilibrou algumas frentes e criou discrepâncias enormes em outras. Um dos torneios que mais sofreu alterações em virtude da nova ordem mundial foi a Copa dos Campeões Europeus, desde 1992 batizada como Liga dos Campeões da Uefa.

Para se ter uma ideia do efeito bombástico causado por José João Altafini na edição de 1962-63 do torneio continental, precisamos fazer um pequeno paralelo no tempo. Nos anos 1960, a Champions ainda estava se consolidando como a disputa mais relevante dentro do esporte europeu. E como a classificação para o campeonato se dava apenas pelo título nacional, podemos compreender que além dos vencedores das cinco principais competições (Itália, Espanha, Inglaterra, França e Alemanha), poucos clubes despontavam com favoritismo ou qualidade suficientes para arrancar até a decisão.

À parte disso, os portugueses e holandeses também ocupavam um papel de destaque, como Benfica, Porto, Ajax, Feyenoord e PSV. A comparação de formato é brutal. Tínhamos poucos esquadrões de nível realmente excelente, enquanto o resto dos concorrentes vinham de países menos favorecidos historicamente. Turcos, tchecos, suecos, gregos, belgas, quase todos eram massacrados pela evidente polarização do futebol para os grandes centros, já naquele dado momento. Portanto, se algum clube fora destes centros chegasse longe, era uma enorme façanha. Como foi o Steaua Bucareste campeão europeu em 1986 diante do Barcelona.

Outra coisa que precisa ser contextualizada é a fórmula da Champions. Até os anos 1990, um longo mata-mata definia os melhores do continente. Isso permitiu algumas zebras notáveis durante o caminho, algo saudável para equilibrar um pouco a balança. Parece impossível ver isso acontecendo nos nossos tempos, muito porque a fase de grupos é cada vez mais predatória e um reflexo do abismo que se abre entre grandes e pequenos de cada país. Sendo assim, os clubes naturalmente jogavam menos vezes por temporada nos tempos antigos. O Milan campeão de 1963, por exemplo, fez nove jogos até o título.

Mais de cinco décadas depois, o Real Madrid de Cristiano Ronaldo foi coroado campeão pela 10ª vez e o português anotou 17 tentos, fazendo do craque o maior artilheiro de todos em uma só edição. Mas aí entra a diferença de programação: Ronaldo precisou de 11 partidas para chegar a este número. O Real Madrid fez 13 jogos até a final contra o Atlético, derrubando Schalke, Borussia Dortmund e Bayern de Munique nas fases eliminatórias.

A máquina de Altafini

Altafini era um artilheiro nato e provou isso na arrancada milanista para o título europeu em 1963

Voltamos a 1963. Em seu caminho até a decisão, o Milan superou o Union Luxembourg, o Ipswich, o Galatasaray e o Dundee até chegar na decisão diante do Benfica de Eusebio. Portanto, foram menos jogos para Mazzola marcar, mas com um nível competitivo bem menor, em tese. Podemos discutir a força de cada um destes adversários como campeões nacionais que eram. Mas ainda assim, a tarefa parece um pouco mais fácil do que derrubar três dos melhores alemães e um rival citadino em um contexto como o de 2014.

Feita a contextualização, falemos de Mazzola, o personagem foco deste texto. Revelado pelo XV de Piracicaba, foi contratado antes mesmo de completar 18 anos pelo Palmeiras, onde pôde mostrar sua capacidade ímpar de balançar as redes. Campeão do mundo com o Brasil em 1958, começou a campanha do primeiro título mundial da Seleção com dois gols na primeira fase, mas se lesionou. Voltou a tempo de fazer uma partidaça nas quartas de final frente a seleção galesa, mas perdeu lugar no time titular para Vavá, que atuou nos dois últimos jogos daquela campanha.

À aquela altura, se sabia que Altafini, o Mazzola, era um talento inevitável. O Palmeiras o negociou com o Milan em 1958, meses após a Copa do Mundo. Na Itália, Mazzola brilhou rapidamente. Virou ícone rossonero e logo convocado para a Squadra Azzurra. Como tinha cidadania em virtude de seus pais serem italianos, o processo de naturalização foi facilitado e ele atuou em seu segundo Mundial pela Itália, em 1962.

O que nos leva à Copa dos Campeões de 1962-63. Artilheiro da Serie A em 1962 com 22 gols, Altafini chegou com moral para o torneio europeu. E cumpriu com a sua responsabilidade ao marcar cinco gols diante do Union Luxembourg, em Milão. O placar de 8-0 foi só uma prova do poderio ofensivo daquela equipe treinada por Nereo Rocco. Apesar de ser mais propenso aos princípios defensivos do catenaccio, o comandante sabia como armar um time letal nos contragolpes e nas tomadas ofensivas. No jogo de volta contra o Union, Altafini guardou mais três gols e foi alçado à artilharia da competição.

Mesmo passando em branco contra o Ipswich nos dois confrontos de oitavas de final (3-1 em casa e 1-2 fora), o atacante seguia muito prestigiado. Apoiado por Barison e Pivatelli nas pontas, o bomber milanista aprontou das suas contra o Galatasaray, pela fase de quartas de final. Um gol em Istambul e mais três em Milão (3-1 e 5-0) permitiram o avanço do Milan para pegar o Dundee nas semifinais. Restavam apenas quatro clubes na luta pelo troféu e o Benfica de Eusebio, campeão em 1961 e 62, despontava como o mais forte entre eles. Ao superar o Feyenoord, os lusitanos se credenciaram para a terceira final consecutiva em sua história.

Mora, Barison e Dino Sani resolveram o jogo para o Milan contra os escoceses, um 5-0 emblemático que eliminou os adversários já nos primeiros 90 minutos. Na volta, uma derrota magra para o Dundee não serviu para tirar a concentração do objetivo maior: a primeira taça europeia para os rossoneri. Altafini não marcou, guardando a sua última grande atuação para o encontro com os benfiquistas.

Em Wembley, as duas forças se mediram em um jogaço. O Benfica saiu na frente com Eusebio, aos 19 minutos. Era a receita para o tricampeonato deles, pelo menos até o intervalo. O Milan, no entanto, voltou diferente e com uma postura mais ofensiva. Era reagir ou levar mais gols da potência portuguesa liderada pelo sagaz Pantera Negra. Os Encarnados ainda criaram boas chances, mas esbarraram no paredão defensivo de Maldini, David e Trebbi.

Aos 14 minutos da etapa complementar, a resposta italiana: um rebote cai nos pés de Altafini, que emenda de primeira um chutão rasteiro no canto da meta de Costa Pereira. Era o empate milanista, após tantas chances desperdiçadas na pequena área. Valeu a máxima de que craque que é craque, cresce em momentos decisivos.

Na tensão de um duelo equilibrado com o Benfica, Mazzola fez seu nome na competição e em um lance fortuito, saiu sozinho para encarar o arqueiro rival. A frieza do goleador quase que parou o tempo em Wembley. Como se tomasse um chá, o camisa 9 teve tempo de entrar na área, ajeitar o corpo, mirar a finalização e bater no canto da meta para virar o jogo e consagrar o Milan. O seu 14º e derradeiro gol na Copa dos Campeões Europeus, justamente os que faltavam para transformar aquele time em um grupo vencedor.

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