O Aston Villa quase sem reservas que arrancou para a Europa

Com apenas 14 jogadores no elenco, o Aston Villa conseguiu a façanha de ser campeão inglês em 1981, ganhando o passaporte para uma participação na Copa dos Campeões Europeus. Não satisfeita em faturar o troféu em seu país, a equipe de Birmingham ainda deu o passo adiante para vencer a taça mais cobiçada do futebol europeu diante do Bayern.

Em 1980-81, a temporada do futebol inglês foi bem atípica. Ao fim da primeira divisão, o campeão era o Aston Villa, que encerrava um jejum de 71 anos sem o título na Liga. Atrás dos Villans, vinha o inspirado Ipswich Town de Bobby Robson. Mas não foi só isso que fez daquela edição da Football League um momento especial.

Sim, além de ser o último troféu do Villa na competição, teve todo um contexto bizarro. Treinada por Ron Saunders, a equipe contou com apenas 14 jogadores em toda a temporada. E eles foram campeões com quatro pontos de vantagem sobre o Ipswich. Aí que vem a mágica: além do fato de contar com poucos reservas, o os campeões não rodaram tanto assim o elenco, o que proporcionou várias formações repetidas do começo ao fim da disputa.

Dos 14 atletas à disposição de Saunders, apenas Jimmy Rimmer, Kenny Swain, Ken McNaught, Dennis Mortimer, Des Bremner, Gordon Cowans e Tony Morley estiveram em todos os 46 jogos daquele período, incluindo Liga, Copa da Inglaterra e Copa da Liga. Impressiona é que ninguém se machucou com gravidade, diminuindo ainda mais as opções do comandante.

A virada

Withe, o artilheiro daquele Villa que chegou tão longe

Foi tão na raça, mas tão na raça, que na rodada 38, o Ipswich bateu o Villa em Birmingham por 2-1 no confronto direto e assumiu a liderança, mas nem isso bastou para que os Tractor Boys de Robson ficassem com a taça. Nas partidas seguintes, o Ipswich tremeu e perdeu quatro de seus cinco confrontos, entregando de bandeja a taça para os Villans. Dono da camisa 9, o grandalhão Peter Withe foi o goleador daquela edição, marcando 20 vezes. Ele teve papel fundamental no segundo grande passo para a vitória.

Aos trancos e barrancos, Saunders escalava Rimmer, Williams, Swain, McNaught, Cowans, Gibson, Mortimer, Bremner, Withe, Morley e Shaw como seus homens de confiança entre os 11 iniciais. Um ano depois, os clarets se viam em um novo ambiente competitivo, na Europa, lutando pela taça. Eram anos gloriosos para o futebol inglês, que tinha o Liverpool como bicho papão e o Nottingham Forest como bicampeão em 1979 e 80. Em 1981, o Liverpool levou de novo e em 1982 foi a vez do Villa descobrir o gostinho do triunfo.

O formato antigo de disputa da Copa dos Campeões Europeus era bem favorável aos grandes ou qualquer equipe bem organizada. Como só os campeões nacionais jogavam, os países menos tradicionais enviavam representantes fracos para a disputa, o que permitia várias goleadas nas primeiras fases. Ao todo, os campeões ingleses fizeram nove partidas para ficar com o troféu orelhudo. Nenhum dos oito antes da final envolveu uma verdadeira potência continental. No máximo, o Dynamo Kiev, adversário nas quartas de final.

O caminho do Villa (reforçado e com 23 atletas após o título nacional) teve o Valur, da Islândia, o Dynamo Berlim, o Dynamo Kiev e o Anderlecht, sem falar no próprio Bayern de Munique, rival na decisão. Os bávaros também não tiveram grandes pedreiras, superando o Öster, da Suécia, o Benfica, o Universitatea Craiova, da Romênia e o CSKA Sofia. Entretanto, não foi exatamente tranquilo o desfecho da campanha vitoriosa dos Leões.

O assistente e o goleiro reserva

Withe e o goleiro reserva Nigel Spink foram os nomes do time campeão europeu em 1982

Em fevereiro de 1982, sem acordo para renovação de seu contrato, Saunders pediu demissão do comando técnico do Villa. O clube disputava as quartas de final na Champions, mas não ia muito bem no Inglês. Tony Barton, auxiliar de Saunders, assumiu a barca e acabou eternizado no maior título da história da agremiação. Menos de quatro meses depois, a incerteza deu lugar à euforia.

Para isso, precisamos contar um pouco do que foi aquela específica final europeia. Em Roterdã, o Aston Villa enfrentava o Bayern, três vezes campeão na década de 1970 e que causava certo temor por ter craques como Breitner e Rummenigge no time titular. O elenco jovem dos ingleses, no entanto, não sentiu o peso da decisão e tentou jogar de igual para igual com os metódicos alemães.

Mais drama. Aos nove minutos iniciais, o goleiro titular Jimmy Rimmer não suportou as dores no ombro. Mesmo medicado horas antes da partida, ele não pôde ignorar as limitações de movimento e precisou sair para dar lugar a Nigel Spink. Completamente frio, Spink foi testado exaustivamente pela linha ofensiva do Bayern, que sabia como isso poderia configurar uma vantagem. Detalhe: o arqueiro suplente só tinha feito um jogo pela equipe antes disso.

Tony Morley, o homem da costurada fatal em Weiner, antes da assistência para o gol de Withe

Não só pelo fato do reserva ter encaixado a atuação da vida, o Aston Villa ainda deu sorte quando o Bayern perdeu algumas chances chutando para fora. Entre elas, uma bicicleta de Rummenigge e uma descida em velocidade de Augenthaler, que saiu lá da sua defesa para causar um furdunço na área oponente. Um dos zagueiros do Villa, Swain, escorregou na frente de Augenthaler, abrindo espaço para uma infiltração. Mas o defensor germânico bateu mal e isolou para a linha de fundo.

A zebra estava querendo passear na Holanda, definitivamente. O Bayern insistia, mas não conseguia fazer o gol. Teve de tudo: cabeçada salvadora em cima da linha, Spink fazendo excelentes defesas e o ataque alemão falhando feio, desafinado. Até que aos 21 minutos da segunda etapa, o placar saiu do zero. Em troca de passes, o Villa botou os rivais na roda, Morley recebeu, bagunçou com Weiner na ponta esquerda e tocou para o meio da área. Desmarcado, Withe só teve o trabalho de cutucar para a rede. E olha que ele quase errou o alvo, quando a bola bateu na trave e entrou.

Rummenigge chegou a empatar o duelo, mas a arbitragem anulou o lance por impedimento. Não que os bávaros pudessem reclamar muito, já que o Villa também teve um gol anulado segundos antes do apito final. Assim era coroado o trabalho dos Leões, que saíram de um plantel escasso com 14 jogadores para a história da Copa dos Campeões derrotando um gigante.

O paredão Spink ganhou reconhecimento pela fantástica participação e ficou até a década seguinte como titular. Ele foi promovido à vaga depois da final em Roterdã e só deixou o Villa Park em 1996, quando saiu para o West Brom, aos 39 anos. Withe, atacante que já era veterano em 1981, jogou sem brilho por Sheffield United, Birmingham e Huddersfield Town, se aposentando em 1991 com a camisa do Villa. Morley, o responsável pelo passe para Withe, saiu em 1983 para defender o West Brom e rodou o mundo passando por equipes obscuras em Hong Kong (Seiko), na Holanda (Den Haag), nos Estados Unidos (Tampa Bay Rowdies) e em Malta (Hamrun Spartans), onde encerrou sua trajetória em 1990.

Estes três caras ajudam a explicar como aquele Aston Villa foi um ponto fora da curva na história das competições europeias. E da própria Liga Inglesa, por que não?

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