Noite de Libertadores: Uma estreia bem melhor que a encomenda

A fase de grupos da Libertadores está valendo. Com jogos bem movimentados, a competição sul-americana viu um gigante ser goleado, uma surpresa se dar mal em casa e mais uma parte da missão de recuperação da Chapecoense. A emoção voltou.

Um começo indigesto

Na altitude de Cochabamba, o Peñarol passou vergonha pela primeira vez. O pentacampeão da Libertadores visitou o Jorge Wilstermann, tomou um gol para cada título e um brinde pela incompetência. Três deles saíram logo no primeiro tempo, com meia hora de jogo. Os vacilos da defesa custaram muito caro e quando os carboneros precisaram de uma reação, faltaram pernas. Quer dizer, Gastón Rodríguez bem que tentou empatar sozinho o jogo, mas foi muito pouco para um time tão desorganizado.

Avassalador desde o início, o Jorge Wilstermann bem que lembrou os melhores times do mundo, mas as condições geográficas ajudaram. Quando o Peñarol se levantou do baque e tocou minimamente a bola, as coisas engrossaram. E foi a catimba que quase tirou os bolivianos da partida: Ríos, que havia marcado duas vezes, levou um pisão no pé enquanto estava caído, revidou e acabou expulso. Silva, o autor da agressão, saiu impune.

Os aurinegros pagaram pela malandragem com a mesma moeda, quando Boselli, que tinha acabado de entrar, levou dois cartões por bobagem e foi para o chuveiro sem nem sequer sujar o uniforme. E aí que a Libertadores fica fantástica. Não é só chegar lá, ter uma camisa tradicional e achar que as coisas acontecerão naturalmente. Pelo que vimos hoje, este foi um dos piores times que o Peñarol já colocou em campo nesta competição. A altitude foi só um agravante para uma noite completamente decepcionante dos uruguaios, considerados favoritos para avançar. Agora a lição é jogar com a cabeça erguida, sem soberba e no limite entre a seriedade e o descontrole. O que geralmente costuma ser fácil para os uruguaios.

O Jorge Wilstermann lidera a chave 5 e dificilmente será ultrapassado por Atlético Tucumán ou Palmeiras, que jogam nesta quarta-feira. A disputa vai ser mais acirrada do que parece.

Ressaca na noite curitibana

Foto: UOL

Tinha tudo para ser uma noite incrível para os atleticanos na terça-feira. Tudo. O Furacão estava confiante, com a faca entre os dentes, dominando todas as ações e cercando a Universidad Católica como numa roda de bobinho. Parece óbvio cravar que uma equipe com esta proposta saia vencedora de campo, mas ao fim dos 90 minutos, agora sem a pressão de um mata-mata, o Atlético errou feio, do mesmo jeito que havia falhado contra o Deportivo Capiatá. E em um grupo tão mortal, perder pontos em casa pode ser crucial.

Lucho González abriu as portas para uma partida fenomenal e a tendência era de um placar confortável. O Atlético entendeu a missão, enxergou logo a fragilidade dos Cruzados e trabalhou nisso. Gedoz e Otávio mostravam exuberância, habilidade e predestinação. Jonathan era outro que estava em todos os lugares, muito participativo. O relógio jogava a favor, cozinhando os chilenos no caldeirão rubro-negro, a cada ataque.

Mas a eficiência que tanto foi cobrada do Furacão em fases anteriores deu as caras novamente. Muitas descidas que acabavam em lamento por mínimos detalhes. A cada falha, o desastre se aproximava. Sabe aquela teoria que a gente tanto fala aqui no site, da Lei de John McClane? Então, valeu mais do que nunca.

Quando o segundo tempo se aproximava do fim, o golpe quase-fatal foi proferido. Nikão, que vinha errando demais, acertou um chutaço para ampliar a vantagem e dar tranquilidade à torcida. Aos 30 minutos, estava tudo teoricamente encerrado, mas os chilenos resolveram dar uma prova de coragem e valor. Llanos colocou-os de volta no confronto, com uma cabeçada. E dois minutos depois, Noir cutucou para a rede flertando com um impedimento. Em duas ofensivas, a Católica levou o seu pontinho para casa.

O drama foi tanto na Arena que os atleticanos não acreditavam. Nikão perdeu o terceiro gol de cara para a baliza, sem goleiro e sem ângulo. Uma peça do destino. Chocados com mais uma entregada no fim, muitos não viram quando Pablo recebeu um belo passe dentro da área, ajeitou e bateu. Mas a bola, maldita, subiu demais e acertou o travessão. Não dava mais. Um ponto para os dois. Um ponto que pode ser muito pouco em uma chave tão competitiva que ainda tem Flamengo e San Lorenzo. A sorte está lançada.

A Chapecoense não tem limites

Com o mantra #vamoschape às costas, a Chapecoense iniciou sua jornada sul-americana em 2017. Todos nós esperamos este regresso desde a tragédia de novembro passado. E ele veio com muita garra, alma e determinação em nome dos que partiram a caminho deste sonho. Quem gosta de futebol (exceto o pessoal do Zulia) teve de torcer para a Chape ser bem sucedida na sua estreia no torneio.

Foi um pouco complicado no começo, mas o jogo dos catarinenses fluiu. Um elenco de bravos jogadores convocados para o ano mais importante da história deste pequeno clube que saiu da última divisão para uma final continental diante do Atlético Nacional. Quatro meses depois de perder todo o seu time, lá estavam eles de novo, valentes e destemidos para retomar o que foi interrompido.

Forjada para a glória, a Chape começou a Libertadores com um gol de Reinaldo, uma falta ousada que foi parar dentro da rede dos venezuelanos, quase como um gol olímpico, do local onde foi batida. Limitadíssimo, o Zulia dependia de Savarino e o interminável Arango, mas não pôde com o encanto alviverde. Depois de alguns minutos sonolentos, Apodi entrou e encarnou o espírito que faltava para incendiar os colegas. Ele criou ou participou de pelo menos quatro lances de perigo.

À aquela altura, Luiz Antônio já tinha marcado o segundo, dando asas ao novo sonho da Chape. Reinaldo e Luiz Antônio, guarde estes nomes. Mais do que o de Arango, que fez o gol de honra do Zulia. Mesmo com o 2-1, os brasileiros carregavam o sorriso de satisfação de quem deu o seu melhor para representar esta que é a camisa mais popular do futebol destas bandas, a maior torcida do momento e certamente a melhor história em tanto tempo, superando tanto sofrimento.

A espera acabou. A Chape está de volta e tão forte quanto a última imagem que vimos na heroica classificação diante do San Lorenzo, na Sul-Americana em 2016. É difícil não se emocionar com as cenas de luta proporcionadas neste começo de Libertadores. E esta é só a primeira de muitas.

Apontaram para o céu e é para lá que olharemos toda vez que este gigante rolar a bola pelos gramados. A Chape é nosso patrimônio e cuidaremos dela como quem cuida de alguém querido. É no futebol que encontramos força para lidar com tantas mazelas e outras dores que possam vir. É no gol que temos o conforto para poder levantar amanhã e se preparar para qualquer desafio. Estamos contigo, chapecoenses.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *