O problema não é só o Leicester, é a gente também

Todos nós (ou a grande maioria) achamos uma porcaria que Claudio Ranieri foi demitido do Leicester, meses depois de conseguir algo fantástico no comando do clube. Entretanto, as milhares de críticas aos mandatários dos Foxes também mostram um certo desprendimento ao nosso próprio fanatismo pelo esporte.

Como você reagiria se fosse o seu time na mesma situação do Leicester, um vencedor em péssima fase e caminhando a largos passos para o abismo? Você também acha que o seu técnico campeão deveria ser mantido, contra todos os prognósticos? É uma pergunta objetiva que exige uma resposta objetiva. Sim ou não? Pois bem, acontece que o problema não está só na canalhice do Leicester, mas também em como agimos de forma predatória quando é o nosso time que vai mal das pernas.

A história de Ranieri e o Leicester é dessas coisas que nos permitem acreditar em um esporte diferente, mais justo e romântico, como era no passado. Tudo acabou da pior forma possível para o técnico, que nem verá o fim da temporada do banco de reservas. Muito se falou em “lealdade” e “gratidão”, mas essas qualidades são mitos no futebol. A derrota é o principal fator a destruir esse castelo encantado.

É natural que o apaixonado pelo futebol se sinta decepcionado com o Leicester pela demissão de Claudio, pois é uma forma tosca de tentar mudar algo errado no ambiente. O problema é que são os mesmos elementos que estavam presentes no incrível título do ano passado. Mas estamos mesmo na posição de exigir respeito a dirigentes quando somos nós que vaiamos os nossos campeões de ontem, que xingamos um jogador em sua primeira partida, que pedimos a demissão do nosso treinador com menos de um mês de temporada?

Estamos mesmo procurando um trabalho de longo prazo quando um técnico assume nossa equipe e já chega com olhares desconfiados e críticas sobre o seu passado recente? É muito difícil achar o nome perfeito para o cargo, são muitas variáveis. Por este motivo, contratar um técnico novo é sempre preferir por quem está vencendo. O problema é que quase nunca este cara vai estar livre no mercado. Queremos resultados e por isso apostamos nos medalhões, nos que garantem uma boa campanha.

Quem hoje pode garantir alguma vitória? Pep Guardiola, o cara mais consagrado do momento, vive apuros em sua passagem pelo Manchester City e está lentamente se acertando em sua temporada de estreia no futebol inglês. Se nem Guardiola é infalível, que dirá o senhor Ranieri ou outro cara aí sem currículo recheado de títulos.

Também é fácil exigir paciência do Leicester, de longe. Nenhum de nós torcia ou acompanhou o clube tempo o suficiente antes da Era Ranieri. Sem a ligação emocional de um torcedor, é moleza chegar aqui e criticar a postura da agremiação quando deixou de confiar no seu principal artífice após meses desastrosos na Premier League. É mesmo de cortar o coração se deparar com uma situação assim, de forma isolada. Mas analisando o contexto geral, não é como se nós pedíssemos paciência para os nossos cartolas quando a maré não é cheia o bastante.

Na primeira partida sem Ranieri, vimos a torcida do Leicester mostrar sua melhor face quando lamentou a saída do italiano, pediu empenho e o agradeceu pelo ano maravilhoso que tiveram. Isso tudo parece ter passado quando os Foxes bateram no Liverpool em uma atuação digna de um campeão inglês. Mas não foram eles que pressionaram a diretoria por uma mudança no comando técnico.

Ranieri tem seus problemas e sabíamos bem disso. Um cara que só ganhou duas Copas nacionais antes de chegar ao Leicester e que vinha de um frustrante trabalho na seleção da Grécia. Ele não é somente uma vítima nessa história, mesmo porque teve responsabilidade na forma como conduziu seu time desde o título. Continuar apostando no mesmo modesto elenco em uma temporada com inúmeras cobranças foi um tiro no pé. Comprovado pelo que estamos vendo deles em campo.

Chega de apelar para aqueles menes injustos e tacanhos sobre o treinador raiz x treinador nutella. Não é porque somos torcedores que a nossa incoerência será justificada. Ranieri no olho dos outros é refresco. Aqui no Brasil, na mínima demonstração de perda de força, ele seria demitido e ninguém lamentaria sua saída, porque não somos muito diferentes dos pomposos ingleses, para o bem ou para o mal.

Essa ilusão de que na Inglaterra a noção de planejamento é muito superior à nossa é prejudicial. Em que outro campeonato vemos tantos técnicos campeões sendo demitidos menos de um ano depois da glória? Pellegrini, Mourinho,  Van Gaal, agora Ranieri, todos foram para o olho da rua por não repetirem o sucesso na temporada seguinte ao título.

Em São Paulo ou em Manchester, a língua falada por cartolas é a do resultado. Você só não será incinerado pela crítica se continuar vencendo, mas sabemos como isso é difícil, mesmo para Real Madrid e Barcelona, dois gigantes que sentem isso na pele.

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