Antognoni: O maior dos craques italianos que nunca venceu um scudetto

A carreira do meia Giancarlo Antognoni foi marcada por uma grande injustiça: craque e capitão da Fiorentina nos anos 1970 e 80, ele jamais venceu o scudetto na Serie A. Campeão do mundo em 1982 pela Itália, o camisa 10 fez muito pelo futebol e pela Viola.

Em 1970, um garoto se destacava no modesto Astimacobi, na quarta divisão italiana. Se hoje em dia é muito difícil ter qualquer notícia do que acontece em competições abaixo da Serie A, que dirá 40 e tantos anos atrás. Este menino chamado Giancarlo foi convidado pelo barão Nils Liedholm para se juntar à Fiorentina, em 1972. Com apenas 18 anos, ele deu o grande salto de sua vida, algo que o colocaria entre tanta gente grande na Itália.

O tempo passa mesmo muito rápido. Da quase amadora quarta divisão, Giancarlo saltou para o estrelato. A Fiorentina o recebeu muito bem, se mostrou o melhor lugar para desenvolver um talento ainda cru, mas que até hoje é reverenciado pelos lados da Toscana. Antognoni fez seu nome muito cedo como titular. O impacto levou a equipe ao quarto lugar na Serie A, sob a capitania de outro monstro italiano, Giancarlo De Sisti. Foi com ele que Antognoni aprendeu a se portar como um jogador fora de classe.

Em 1969, a Fiorentina levantava o seu último título italiano. A torcida sonhou durante décadas com a repetição do feito e Giancarlo parecia o artífice perfeito para esta ambição. Conforme ia amadurecendo, o meia ganhava aplausos pela sua entrega e frieza. Um camisa 10 clássico que decidia partidas em uma fração de segundos com passes memoráveis.

Eternamente incompleto

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O currículo de Antognoni, no entanto, não é recheado de glórias e muitos títulos. O maior deles, sem dúvida, é o da Copa do Mundo de 1982. Titular e regente de um meio-campo ao lado de Gabriele Oriali e Marco Tardelli. Posicionado sempre ao centro, distribuía o jogo com qualidade incomparável, um carregador de piano. Fora isso, ele só conseguiu uma dobradinha em 1975, quando a Fiorentina levantou a Copa da Itália e a Copa Anglo-Italiana.

Entre os gigantes, Antognoni fez sua própria fama. Conduzindo a Viola a boas campanhas, sentiu o sonho do scudetto assoprar na sua janela em 1982, meses antes do tricampeonato mundial da Squadra Azzurra. Dono do time, empurrou a equipe de Florença para uma disputa ferrenha com a Juventus até a última rodada da Serie A. Ambos somavam 44 pontos, mas Giancarlo e seus colegas não conseguiram bater o Cagliari, na Sardenha, saindo apenas com um empate discutível em virtude de um erro claríssimo da arbitragem, que anulou um gol legal dos violetas. A Juventus fez a sua parte, venceu o Catanzaro e faturou o título.

A proximidade com a conquista e a forma como ela foi pelo ralo irritou a Fiorentina e a sua torcida. Eles diziam ter sido roubados pela Juventus, que se aproveitou da terrível falha do apitador para ficar com o campeonato. A realidade era animadora para o futuro, já que a equipe tinha um baita elenco. Além de Antognoni, jogavam em Florença o líbero Daniel Passarella, os zagueirões Pietro Vierchowod e Antonello Cuccureddu, os atacantes Daniel Bertoni, Francesco Graziani e Daniele Massaro.

Durante a década de 1980, o esquadrão foi se desmanchando. E nem mesmo a chegada de Sócrates mudou o panorama, em 1984. Afinal, o brasileiro sofreu com a adaptação, o frio e lesões durante toda a sua passagem pela Itália. Outros craques desembarcaram lá, e apesar de Antognoni ter sido muito regular, isso não foi suficiente para que a Viola tivesse outra campanha tão boa quanto a de 1981-82.

Antognoni, Sócrates e Passarella: o trio de craques da Fiorentina foi um fiasco

Pior para o italiano que os desentendimentos entre Sócrates e Passarella minaram o ambiente nos vestiários. Depois de 1982, ele conviveu com outro adversário duríssimo: as lesões. Mesmo na temporada do vice na Serie A, ele só atuou 16 vezes. O problema passou a ser mais frequente quando ele passou dos 30 anos.

A torcida não podia pedir mais de Antognoni. Ele entregou muito mais do que poderia. Fez vários gols de falta, de longa distância, cansou de mandar passes preciosos com as duas pernas, uma prova de sua versatilidade. O gênio das bolas fáceis brincava de futebol, mas jamais poderia ser campeão sozinho se o resto do time não acompanhasse. E esse talvez seja o melhor resumo de sua frustração pela Serie A.

Depois de 341 jogos pela Fiorentina na Liga, chegou a hora de dizer adeus. Aos 33 anos, Giancarlo optou por aceitar uma transferência para o futebol suíço, no Lausanne. Fez duas temporadas por lá e parou em 1989, entrando definitivamente para a história. A Fiorentina não teve muito tempo para sentir saudade de seu maestro, já que Roberto Baggio surgiu como um fenômeno no fim da década de 1980.

A Itália é que lamenta que não surgiu outro como Antognoni. Um cara capaz de concentrar várias qualidades de um meio-campista absolutamente subestimado por não ter sido campeão italiano. Outros jogadores bem menos marcantes que ele empilharam troféus por Juventus, Milan e Inter.

É fato que a Fiorentina jamais teria sido a mesma sem Antognoni, mas o contrário também se aplica? Quer dizer, e se ele tivesse aceitado as propostas de outros clubes do país durante os anos 1970 e 80? E se a segunda metade de sua carreira tivesse sido em Roma, Milão ou Turim? A fidelidade à Viola está acima de qualquer projeção neste sentido.

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