O reencontro final de Cruyff e Keizer, os dois maiores ídolos do Ajax

Ponta-esquerda de sucesso nos tempos dourados do Ajax, Piet Keizer só defendeu a camisa do clube amsterdanense em 13 anos de carreira. Ele foi o cara que viu Cruyff crescer e florescer como o maior de todos os tempos na Holanda. E a carreira não foi menos brilhante do que a do craque da camisa 14.

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Em 1961, o Ajax nem sonhava em ser o grande clube do planeta. O futebol da Holanda mal havia se desenvolvido e a filosofia que tirou o país do marasmo ainda era um embrião nos planos de Rinus Michels. Naquele ano, estreava uma das peças que mais colaboraram para o sucesso dos Godenzonen na década seguinte: Piet Keizer.

Grandão, cabelos ao vento, pinta de surfista americano. Piet começou a escrever sua belíssima história aos 18 anos. Era veloz, dominava o fundamento da finalização e do passe, características que lhe ajudaram a se consolidar nos primórdios do “Futebol Total”, em 1965. O seu primeiro título foi em 1961, na Copa da Holanda.

Pela Eredivisie, a primeira salva de prata precisou esperar até 1966, quando o Ajax rompeu o domínio do Feyenoord com a ajuda de Rinus Michels, o gênio por trás da revolução que tomava conta do continente. Cruyff, que só estreou em 1964, ainda era só um garoto temperamental que havia subido das categorias de base até o profissional. Juntos, os três começaram a traçar planos mais ambiciosos.

Com o tricampeonato holandês entre 1966 e 68, o Ajax começou a ganhar cancha na Europa. Tanto que fez a final da Copa dos Campeões Europeus em 1969, contra o Milan de Cesare Maldini, Gianni Rivera e Kurt Hamrín, perdendo por 4-1. Os bons tempos estavam chegando para os Godenzonen.

Keizer, em 1972: capitão do Ajax que bateu a Inter na decisão europeia em Roterdã

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Piet atuava bem ao lado de Cruyff na formação de Michels. A sintonia ajudou o clube a dar o passo adiante e dominar o continente, não só a Holanda. De uma vez, o fenômeno ficou irreversível e o Ajax caminhou avassalador para o tricampeonato europeu. Não só dentro de campo eles eram como irmãos, fora dele pareciam inseparáveis.

Cruyff brilhava muito mais, era um líder nato, um talento capaz de destruir qualquer time adversário. Sem Keizer, jamais conseguiria. E assim nasceu uma das grandes duplas que o futebol já viu. Algumas delas foram arrasadas por derrotas, mas essa só se desmanchou porque Michels foi embora para o Barcelona em 1971 e levou Cruyff também, dois anos depois. Restou a Keizer manter a regularidade já veterano depois de 1973, quando o clube venceu o último de seus troféus europeus naquela década.

De tanto se esforçar e tentar se sobressair perante o brilhante time que jogava, ficou marcado como o melhor do time na época. Sim, pois Cruyff era tão fora da curva que não podia ser comparado a nenhum outro companheiro. O jornalista holandês Nico Scheepmaker acompanhou de perto as proezas daquele grande Ajax e sem medo de errar, cravou: “Cruyff pode até ter sido o maior, mas Keizer era o melhor de todos“, uma afirmação corajosa que dá a Piet uma proporção muito maior do que a de mero ajudante de Johan.

Depois que Cruyff saiu do posto de jogador para ser uma lenda viva, em toda seleção dos maiores de todos os tempos que ele escalava, lá estava Keizer como o ponta-esquerda. Nas palavras de Johan, que viu de perto o seu potencial, era justo coloca-lo acima de outros gigantes do futebol. Esse era Cruyff, um homem sem medo de ser apedrejado pelos críticos.

Quando o Ajax trocou Michels por Stefan Kovacs, o estilo do romeno era bem menos popular do que o seu antecessor. Não foram poucas as vezes em que Keizer aconselhou os jovens do clube a não chegarem tarde ao hotel antes das partidas, tudo para não irritar Kovacs, um cara com estilo quase militar. Por este motivo, Piet foi considerado como o irmão mais velho de muitos dos atletas.

Com Kovacs, o Ajax foi bicampeão europeu em 1972 e 73, além de erguer o Intercontinental em 72, contra o Independiente. A última conquista relevante daquele período foi mesmo a dobradinha de 1973, com a vitória europeia e da Eredivisie. Depois disso, Cruyff pegou suas malas e foi embora para a Espanha, enquanto Keizer ficou com os cacos e a responsabilidade de continuar no caminho das glórias.

Kovacs seguiu para a França e foi substituído por George Knobel. Era o início de uma fase difícil, sem títulos, enquanto o Feyenoord e o PSV se apresentavam como fortes oponentes. Sem a força do furacão do Futebol Total, o Ajax decaiu e só voltou a ser campeão em 1977. Keizer não participou da campanha.

Em 1974, após uma briga feia com o técnico Hans Kraay, anunciou repentinamente a sua aposentadoria. E nunca voltou atrás. Ruud Krol, Wim Suurbier, Arie Haan, Ruud Geels e Johnny Rep continuavam lá, mas sem os grandes atacantes que fizeram do clube uma potência internacional, era difícil tirar alguma casquinha dos rivais.

Aos 32 anos, Keizer saía de cena para se afastar do futebol e cuidar da família. Durante muitas décadas, Piet atuou em amistosos festivos pelo Ajax, assim como Cruyff, que cansou de aparecer em jogos de despedida de atletas nos anos 1990 e 2000. São caras que simplesmente não podiam ficar de fora de nenhuma destas seleções da equipe de Amsterdã. Enquanto andassem, vestiriam o uniforme e iriam para o campo para sentir uma vez mais o calor da torcida e as reverências recebidas pelos serviços prestados.

Apesar de não ser exatamente uma estrela reconhecida no resto do mundo, muito por ter passado toda a carreira no Ajax, Piet é o maior nome do clube depois de Cruyff. Johan, por sua vez, ainda se dividiu entre o Barcelona e outros clubes que defendeu antes da aposentadoria, inclusive o Feyenoord, rival ferrenho dos Godenzonen.

A estrela de Cruyff se apagou em março de 2016, após uma longa luta contra um câncer de pulmão. O mesmo problema levou Keizer um ano depois, em 10 de fevereiro de 2017. A Holanda ficou carente de mais um grande ídolo, mas é certo que os dois finalmente se reencontraram em algum lugar, reeditando a famosa parceria dos anos 1960 e 70. Ambos deixaram um enorme legado e nunca mais serão esquecidos em Amsterdã. Que o time deles lá de cima esteja sempre tão encantador quanto aquele que aprendemos a admirar.

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