A torta que acabou com o feitiço do Sutton United na Copa da Inglaterra

A história mais bacana desta semana, até o momento, é a do Sutton United, que foi eliminado pelo Arsenal na Copa da Inglaterra. Wayne Shaw, de 45 anos, goleiro reserva do clube, comeu uma torta enquanto o seu time perdia e virou herói por um dia pela simplicidade exposta. Mas a atitude foi punida e ele precisou deixar a agremiação para evitar problemas com a Justiça.

Pois é, na terra do melhor humor que este planeta já viu, o goleiro reserva de um time amador precisou deixar o clube porque a Federação Inglesa o ameaçava de punição por ter comido a tal torta. Além da façanha do Sutton ter sido interrompida pela vitória dos Gunners, por 2-0, Shaw virou alvo de investigação por parte da Football Association.

Esqueça aquelas expressões clichês como “o futebol respira”, “não é só futebol”, entre outras coisas que bombam na mídia todos os dias. O mais fascinante nessa história é que o homenzarrão é reserva do Sutton e tem 45 anos. Claramente acima do peso, ele é o símbolo de uma competição tão democrática que reúne clubes de alcance mundial e amadores que jamais apareceriam na TV se não fosse por esta oportunidade.

O Sutton dificilmente teria batido o Arsenal, mas Shaw ganhou projeção por não ter porte físico de atleta e pela sua idade, claro. Ele não iria jogar, mas pelo menos conseguiria alguma atenção sentado no banco. Restando menos de dez minutos para o fim, o Sutton estava sendo eliminado e Wayne apareceu todo pimpão nas câmeras enquanto se deliciava a cada mordida.

O problema é que o ato estava atrelado a uma casa de apostas, a Sun Bets, que abriu uma linha para seus clientes pagando 8 para 1 caso o goleiraço fizesse essa presepada ao vivo. Como na Inglaterra o combate à corrupção no esporte é ostensivo, uma investigação foi feita para apurar se Wayne sabia ou não da aposta. E ele admitiu saber do fato.

“Alguns caras me disseram mais cedo: o que aconteceu com aquela aposta de 8/1 sobre comer a torta? Eu falei que não sabia de nada, não tinha almoçado e nem feito meu lanche, então pensei que poderia ser uma boa. Como a SunBets estava oferecendo todo esse dinheiro para quem apostasse que eu comeria, pensei em sacanear eles e fazer de fato. Não podíamos mais fazer nenhuma substituição e o placar estava 2-0 contra. Fui até a cozinha do clube no intervalo, tinha tudo pronto, era uma torta de carne e batata”, relatou o atleta e preparador de goleiros do Sutton.

Tem caroço nessa torta

Curiosamente, a casa de apostas foi a patrocinadora pontual do clube na Copa da Inglaterra, o que derruba a tese de que “foi só uma brincadeira inocente”. Wayne manteve a versão e alegou que apenas seus amigos sabiam e deveriam ter apostado, mas que ele mesmo não se envolveu por saber que é proibido.

Isso não importou muito para a FA, que prevê em seu regulamento uma punição para jogadores que direta ou indiretamente influenciam ou facilitam o resultado de uma aposta em qualquer competição ou jogo oficial. “A integridade no esporte não é uma piada. Abrimos um inquérito para saber exatamente o que aconteceu“, disse um porta-voz da entidade ao jornal “The Guardian”.

A diretoria do Sutton também disse que não tinha conhecimento de um possível acordo entre o goleiro e a casa de apostas, e que apesar de Shaw ser uma pessoa exemplar, aparentemente a fama do momento subiu à sua cabeça, levando-o a cometer tal erro.

Em um país que tanto prega a disciplina e os bons modos, a investigação por parte da FA está sendo bem coerente ao inibir essa atitude que vai contra os princípios desportivos. Wayne, que está sob os holofotes, poderia ter se aproveitado disso de uma outra forma que não ferisse as regras do futebol. O fato da Sun Bets ter patrocinado o Sutton teria passado despercebido não fosse a misteriosa ligação entre a aposta de 8/1 com a torta.

Como o clube poderia sofrer uma sanção pesada, Wayne pediu seu desligamento nesta manhã, no que descreve o treinador da pequena equipe, Paul Doswell. Segundo ele, a onda de críticas ao goleirão foi suficiente para que Shaw ligasse emocionado para o dono da agremiação e pedisse desculpas, além de se demitir em caráter imediato.

É o fim da ciranda de Wayne Shaw, que conquistou o público como um personagem engraçado infiltrado num ambiente tomado por superatletas famosos, ricos e bem preparados fisicamente. Por uma torta ele acabou perdendo o status de ídolo daqueles que nunca são escolhidos nos times de bairro, na escola ou em qualquer outro lugar que discrimine gordinhos ou os garotos ruins de bola. Shaw foi por alguns dias o exemplo de que ainda é possível sonhar alto na vida, mesmo se você for um futebolista amador esquecido nos outros 363 dias do ano. Lamentável que este contexto revelado tenha acabado com toda a espontaneidade desta brincadeira.

Histórias como a do Sutton estão cada vez mais próximas da extinção. Uma pena que o clube tenha saído com a imagem arranhada da eliminatória contra o Arsenal. Coisas que só uma torta e uma aposta poderiam causar. A saga teve um final bizarro e condizente com tudo que vinha acontecendo com este nanico da quinta divisão local.

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