O último Roberto Baggio: Os anos de Brescia

O rabo de cavalo mais famoso do mundo completa 50 anos neste sábado. Para comemorar, relembramos o seu icônico fim de carreira com a camisa do Brescia, onde foi ídolo e contracenou com outros craques de seu tempo. Roberto Baggio escreveu o fim de sua história com muita competência.

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Ainda que seja extremamente famoso, Roberto Baggio parece ser subestimado pelo que fez na carreira. O fato de ser muito marcado por perder o último pênalti na Copa de 1994 sempre acaba crescendo em relação ao resto de sua trajetória. Mas Roby merece ser lembrado como um dos grandes craques que a Itália já produziu.

Em 21 anos de carreira, ele defendeu os maiores clubes do seu país. O começo impressionante no Vicenza, a consolidação e o drama pessoal na Fiorentina, depois a passagem pela Juventus e uma saída polêmica, o título italiano pelo Milan, o ano com a camisa do Bologna, o fraco biênio pela Inter e um fim digno para uma referência em gols e armação pelo Brescia.

O tempo passou rápido para Baggio. Muito embora tenha mantido o mesmo penteado que lhe fez famoso, encerrou a carreira grisalho, mas com a mesma magia do seu auge, vestindo a camisa 10 dos biancoazzurri. Liberado pela Inter aos 33 anos, Roby teve a última chance de desfilar seu jogo. Era um jogador muito experiente e vencedor, que disputou três Copas do Mundo, rodou a Itália e quase todos ainda queriam seus serviços.

Ano 1: O redentor dos novatos

Estreia de Roby pelo Brescia foi emblemática: um empate em 0-0 contra a Juventus, seu ex-clube

Diferente do que parecia lógico para o momento, Il Codino (o Rabo de cavalo, em tradução livre) foi para ser capitão, titular, camisa 10 e maestro, qualidades que ele sempre teve e não sumiram no trecho final de sua carreira. Mesmo sofrendo com lesões, um reflexo do seu início sofrido na Fiorentina, Roby entregou bem mais do que podia. Na primeira das quatro temporadas pelo Brescia, teve o histórico Carlo Mazzone como técnico. E a equipe da Lombardia contava com alguns coringas do futebol italiano como Florin Raducioiu, os irmãos Antonio e Emanuele Filippini, Simone Del Nero e Igli Tare, sem falar no jovem e promissor Andrea Pirlo, onde foi lançado à Serie A.

Baggio era de longe o grande talento do plantel e disso ninguém duvidava. Ficou responsável por evitar o descenso do Brescia e fez isso com louvor. Estreou contra a Juve, passou em branco, mas marcou 10 gols na temporada de estreia, ajudando a agremiação a ficar em nono lugar na Serie A e alcançar as quartas de final da Copa da Itália. Os primeiros gols tiveram um quê de ironia: contra a Fiorentina, sua maior paixão assumida.

Diante da Juve, o golaço que atravessa gerações. Em lançamento de Pirlo (que surpresa), o fantasista recebeu, se colocou em posição na área, deu um leve toque para a sua esquerda e tirou de Van der Sar. Após o drible, que embasbacou toda a torcida presente, um toque leve para marcar. Pintura que teve a assinatura de um gênio.

Ano 2: Sai Pirlo, entra Guardiola

Quando o Brescia perdeu Pirlo para o Milan, a diretoria pensou em dar uma resposta à altura. Foi ao Barcelona buscar Pep Guardiola, de 31 anos, que queria respirar outros ares. O volante espanhol municiou o ataque formado muitas vezes por Baggio e Luca Toni. Roby, por sua vez, seguia fatal: teve menos jogos em virtude de contusões musculares, mas era estupendo com a bola nos pés. A média foi excelente: 12 gols em 15 partidas.

Sonhando em conquistar uma vaga para a Copa do Mundo, Baggio começou voando a temporada, mas antes do fim de 2001, sofreu uma lesão grave nos ligamentos do joelho e precisou parar por quatro meses. Mesmo voltando em tempo, rompeu o menisco contra o Parma, na semifinal da Coppa, em fevereiro de 2002. Os crociati levaram a melhor e depois bateram a Juve na decisão. Baggio se recuperou em abril e poderia ter sido convocado, mas o técnico Giovanni Trapattoni não lhe deu esta chance. A frustração não representou o fim de sua carreira. Do contrário, Baggio preferiu continuar até marcar o seu 200º gol na Serie A.

O Brescia lutou bravamente na Copa Intertoto, mas não conseguiu bater o Paris Saint-Germain na decisão. Com um empate em 1-1 na Itália, os franceses se classificaram pelo gol fora. Baggio entrou no segundo tempo e marcou de pênalti, cinco minutos depois do PSG abrir o placar com Aloísio. Vale observar que o torneio não tinha só um campeão, e assim o PSG, o Troyes e o Aston Villa foram vencedores da mesma edição.

O golaço como prêmio de consolo pela 9ª posição na Serie A foi este aqui, contra a Fiorentina, na vitória por 3-0 do Brescia no estádio Mario Rigamonti.

Ano 3: Na marca dos 300

Com Appiah e Guardiola, em seu penúltimo ano como profissional

Guardiola voltou de um rápido período na Roma e reforçou o Brescia para a temporada 2002-03. O elenco continuava quase o mesmo, mas com a adição do volante ganês Stephen Appiah e o técnico Gianni De Biasi, na segunda metade. Mazzone saiu para treinar o Bologna.

Em campo, Baggio seguia sendo muito regular. O time respondeu na Serie A com o nono lugar, mas na Coppa, um tremendo de um fiasco na eliminação contra o Ancona, na fase de 16 avos de final. Ao todo, ele marcou 12 gols em 2002-03, permitindo alcançar a marca de 300 na carreira, contra o Perugia, de pênalti.

O tempo não castigou Roby. Ele ainda sabia se posicionar muito bem para marcar um gol, tinha agilidade suficiente para dar seus últimos dribles e era um grande garçom para Igli Tare e Toni no ataque. Quem pôde jogar com ele um dia, atesta essa enorme qualidade para passes na medida.

O golaço de Baggio na temporada foi marcado contra o Piacenza, fora de casa. Poucos toques, muita frieza. Craque é craque.

Ano 4: A despedida

O fim não poderia ser mais apoteótico. Baggio chegava aos 37 anos e conseguia cumprir seu objetivo como atleta do Brescia: evitar que o clube fosse rebaixado. Com ele, puderam sonhar no meio da tabela, viveram a doce realidade de ter um gênio para se gritar o nome nas bancadas. É verdade que o corpo já não estava ajudando muito, mas com garra, Roberto teve um desfecho em alto nível, marcando 12 gols e dando 11 assistências.

Outro objetivo foi alcançado: o de chegar a 200 gols na Serie A. A vítima foi o Parma, pela Serie A. O camisa 10 ainda marcaria mais cinco até o fim da competição, se tornando o maior artilheiro do Brescia na competição. E não era só isso: Roberto ainda é o sétimo maior goleador da Liga, 13 anos após sua aposentadoria.

Era hora de parar. Os joelhos causavam dor demais e Baggio não estava rejuvenescendo. Nunca o Brescia havia chegado tão bem na tabela, que dirá na Copa da Itália. A realidade da equipe da Lombardia era lutar para não cair, mas com Roby foi diferente. É claro que ele merecia um time bem melhor ao seu redor, mas estamos falando de um nanico que quase nunca voou entre os clubes da elite.

O ato de fechar as cortinas não poderia ter sido em um palco menor. Contra o Milan, na última rodada, o San Siro acenou pela última vez a um legítimo representante do futebol arte. Aos 39 da segunda etapa, Baggio foi chamado para deixar o campo, o Brescia já perdia por 4-2 quando Giuseppe Colucci esperava na lateral para saudar o seu capitão. Abraçado por Maldini, o ídolo dos anos 90 abria caminho para que caras como Del Piero e Totti fizessem história.

O mais importante deste período no Brescia foi que ele assumiu e desempenhou muito bem o papel de protagonista. O nível mostrado nos últimos quatro anos foi acima da média, mesmo para um veterano que convivia com lesões. Baggio não foi atirado para o ostracismo quando saiu da Inter e ainda tinha muita lenha para queimar.

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