O Hamburgo só pode se apegar ao orgulho e à tradição

Fase delicada dos Dinossauros escancara a luta de um gigante contra o rebaixamento. Alternando entre campanhas medianas e ruins, o Hamburgo está mais um ano tentando sobreviver na elite para respeitar a sua tradição e o fato de ser o único fundador da Bundesliga a nunca ter sido rebaixado.

“Time grande não cai”, dizem orgulhosos os torcedores de Santos, Flamengo, São Paulo e Cruzeiro, os únicos que ainda não experimentaram a sensação de jogar a segunda divisão nacional no Brasil. Para estes, é uma maneira de se diferenciar de rivais que já passaram por este inferno. Verdade seja dita, time grande cai, sim, e não é um rebaixamento que muda isso. Mas cada um se apega ao que tem e assim é que construímos o conceito de rivalidade.

Na Alemanha, o Hamburgo é o único grande a nunca ter jogado a segunda divisão da Bundesliga. Membro-fundador da liga, o time do Norte já conquistou três vezes a salva de prata, três vezes a Copa da Alemanha, duas vezes a Copa da Liga e ainda tem em seu salão nobre um troféu da Copa dos Campeões Europeus, conquistado em 1983 após final contra a Juventus.

Até o início dos anos 2000, o clube era uma força competitiva, mas a perda gradual de prestígio levou a equipe para as posições inferiores da tabela. Em 2014 e 2015 o Hamburgo precisou jogar os play-offs contra o terceiro colocado da segunda divisão para não ser rebaixado. Em 2012, escapou por pouco, ficando em 15º. A agonia de sempre ficar por um fio parecia ter acabado com o 10º lugar na temporada passada, mas os hamburgueses voltaram a flertar com a tragédia este ano.

Como dizer aos quatro cantos que você tem orgulho de nunca ter caído, se todo ano você escapa por pouco? É como aquele seu amigo que sempre tirava notas baixas na escola, era aprovado somente após a recuperação e fazia piada dos que reprovavam. O papel patético dos Dinossauros na elite é um grande contraste com a arrogância do torcedor médio que aponta o dedo para os rivais para dizer que nunca caiu. Existe um relógio no Volkspark Stadion que exibe o tempo em que o clube está na elite alemã, talvez o último orgulho que eles podem ter em meio a tantos dramas.

Diferente de outras agremiações da Alemanha, o Hamburgo nunca atravessou situações de falência. Mas chegou muito perto disso em 1991, quando precisou vender o craque do time, Thomas Doll, à Lazio. Já nos anos 90, em várias ocasiões os Rothosen terminaram a Liga nas últimas posições, indicando que anos duros viriam pela frente.

O elenco parecia forte na segunda metade da década de 2000, mas uma ferroada vinda de um rival abalou de vez o clima para o HSV. Em 2009, duas semifinais foram perdidas para o arqui-inimigo Werder Bremen, na Copa Uefa e na Copa da Alemanha. Pela competição europeia, o Werder avançou com o agregado de 3-3 e gols fora de casa. Já na Copa doméstica, os pênaltis foram necessários para determinar o vencedor. O Werder, no entanto, só conseguiu ser campeão da Copa da Alemanha, ao vencer o Leverkusen por 1-0.

No ano seguinte, o Hamburgo se levantou e chegou longe na Liga Europa, novamente nas semifinais. O mau planejamento culminou na demissão do técnico Bruno Labbadia às vésperas do jogo decisivo diante do Fulham e os ingleses conseguiram vencer por 2-1 em Londres. Era a oportunidade do HSV jogar uma nova final continental, e melhor: em casa, como havia determinado o sorteio. Se eles iam ganhar do Atlético de Madrid de Diego Forlán, aí é outra história.

Tudo isso nos leva ao cruel fato de que o Hamburgo não é campeão de nada desde 2003, quando levantou a Ligapokal contra o Borussia Dortmund. O torneio, aliás, não tem caráter oficial e foi extinto em 2007. Era apenas um mata-mata festivo entre os seis primeiros colocados da temporada anterior na Bundesliga. Se desconsiderarmos este troféu, a seca vem desde 1987, quando os Dinos derrotaram os Stuttgart Kickers por 3-1 na final da Copa da Alemanha. Beiersdorfer, Kaltz e Schlotterbeck (contra), foram os autores dos gols do título. Muito pouco para quem se considera superior por nunca ter sido rebaixado.

Em 2017, o Hamburgo ocupa a 15ª colocação da Bundesliga e deve novamente ficar cercando a zona do descenso. Caso termine em 16º, terá de enfrentar outra vez o temido play-off para se salvar. A esperança é de que o time reaja e arranque até a terra firme. Nas últimas duas rodadas, foram dois triunfos contra o Leverkusen e o RB Leipzig (um sonoro 3-0 fora de casa). Por agora, são três pontos que separam o Hamburgo do Werder Bremen, o primeiro no Z3.

Sem poder comemorar muita coisa, o clube do norte segue uma triste sina até que um dia perca o seu último elo com a nobreza que tanto prega. Os ponteiros do relógio do Volkspark continuam girando, mas o rebaixamento se aproxima. Se escaparem em 2017, veremos aqueles velhos sorrisos amarelos dos torcedores que não aguentam mais protagonizar este papelão. E a versão alemã de Milton Neves (ou algo que o valha) aparecerá ao vivo na televisão local para vaticinar a verdade mais torta que o futebol conhece: “Ah, o meu Hamburgão é incaível! É o Dinossauro mais lindo do mundo!

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