A carreira de van der Meyde foi destruída pelo azar e pela farra

Hábitos boêmios e vida frenética fora dos campos abreviaram uma carreira que tinha tudo para ser brilhante. Revelação do Ajax nos anos 2000, Andy van der Meyde chegou a dar voos altos na Europa, mas acabou caindo anos depois sem nenhum pedaço do prestígio que sonhara.

Um dia você tem tudo o que um homem moderno poderia desejar. Um emprego que te motiva, muito dinheiro, ambições e o interesse de meio mundo no seu trabalho. Você é um jogador de futebol no auge da juventude e pode se dar ao luxo de estar na mira de grandes clubes ao redor da Europa. Você é uma estrela.

Para cada dez histórias de sucesso, dedicação e planejamento no esporte, temos duas ou três que dão conta de expor o fracasso ou a frustração. Ninguém é um ser humano pior por não conseguir chegar ao topo ou por ter potencial desperdiçado em algum momento da vida. O próprio Brasil é rico em produzir narrativas semelhantes e, verdade seja dita, nós temos pouco ou nada a ver com o que acontece fora de campo.

Mas o que fazer quando este declínio particular afeta diretamente uma ascensão de um esportista? Quer dizer, como eles conseguem ir da fortuna ao desespero em tão pouco tempo, com algumas decisões? O mesmo vendaval que traz boa sorte é o que sopra tudo que temos para longe. É mais ou menos isso que o holandês Andy Van der Meyde pode contar sobre sua meteórica trajetória no futebol.

Ele é um produto de uma das melhores e mais eficientes escolas para formação de atletas: o Ajax. E surgiu na última época em que os talentos transbordavam nas equipes juvenis do clube de Amsterdã. Andy começou sua caminhada em 1997, chegou a ser emprestado ao Twente e despontou de fato em 2001 com a camisa alvirrubra. Atuou com Rafael Van der Vaart, Zlatan Ibrahimovic, Wesley Sneijder, Mido, Hatem Trabelsi, entre outras figuras que marcaram o começo de uma década promissora.

Assim como os seus outros compatriotas lançados por Ronald Koeman naquela temporada, van der Meyde era cercado de expectativas por ter mostrado um excelente futebol nas beiras do campo, sendo um ótimo garçom e criador de jogadas. Era habilidoso, versátil. Não era um Bergkamp ou um Overmars, mas se virava muito bem. Logo, os olhos de vários dirigentes estavam voltados para Andy, convocado para defender a Holanda desde 2002.

O voo de Ícaro

Fã de um bom holandês, a Inter assegurou a contratação do ponta em 2003, sem esperar muito tempo para saber se ele era uma aposta certa ou não. Os italianos descobriram que ele ainda precisava ser lapidado e que seus lampejos poderiam ser mais úteis em outro lugar. A passagem de dois anos por Milão teve apenas 32 partidas de van der Meyde, que definitivamente não convenceu muita gente por lá.

A mitologia grega ajuda a entender o que aconteceu. Como podemos ver no mito de Ícaro, filho de Dédalo, que ficou preso com o pai no Labirinto após a morte do Minotauro. Para escapar, Dédalo construiu asas com cera do mel de abelhas e penas de gaivota para o filho. Ao empurrar o herdeiro, Dédalo avisou que ele não deveria voar perto do sol para não queimar as asas e tampouco perto do mar, pois elas ficariam pesadas demais para suportar o trajeto. Ícaro ignorou os conselhos e quis voar bem alto, muito acima do Mar Egeu. Dito e feito: os raios de sol derreteram as asas e Ícaro se estabacou nas águas.

Andy enxergou na Inter uma oportunidade dourada de estar entre os grandes talentos da Europa. A presença em partidas pela Holanda na Euro 2004 reforçou que aquele era o grande salto para o verdadeiro reconhecimento. Entretanto, ele talvez tenha ido rápido demais e com muita sede ao pote. Os seus demônios interiores ganharam vida a partir daquele ano ruim de 2005. Ele estava de saída da Inter e clubes como o Tottenham e o Monaco ficaram de olho.

As poucas chances pela equipe nerazzurri destruíram a confiança do holandês, que entrou em depressão e se jogou nos prazeres da vida e no álcool meses antes de assinar a transferência para o Everton. E ele foi tão de cabeça para o mergulho que não reuniu condições de voltar à superfície. Igualmente decepcionante no Everton, sofreu com lesões, atuações fracas e afundou-se de vez na bebida. Nem que ele quisesse poderia voltar a ser aquele antigo talento dos tempos de Ajax. Sua carreira estava ameaçada, aos 26 anos.

Má sorte, traição e outras drogas

Entre as polêmicas que van der Meyde se envolveu estão uma entrada emergencial em um hospital de Liverpool, no ano de 2006. Na ocasião, ele chegou às pressas com problemas respiratórios e descobriu que foi dopado enquanto bebia em uma casa de strip da região. O próprio Andy reconheceu que tinha um fraco por moças nuas e que frequentava estes locais quando se sentia triste na Inglaterra. O Everton multou o jogador, que dias mais tarde, teve sua casa roubada. Os ladrões levaram carros e até mesmo o seu cachorro. Como ele iria se reerguer com tudo isso acontecendo?

Para acumular ainda mais ao seu conturbado cotidiano, Andy tinha um quadro de alcoolismo grave, insônia e depressão. Também foi punido pela diretoria por roubar remédios do consultório médico do Everton na época mais punk de sua vida. Tudo isso já representaria um verdadeiro caos e a saída escolhida pelo atleta foi a esbórnia. Van der Meyde entendeu muito tempo depois onde era o fundo do poço.

Naqueles seis meses eu não vivi como deveria. Para mim, era uma forma de escapar dos meus dramas e não pensar em meus problemas. Podia fazer o que quisesse. Tinha um monte de dinheiro, poderia comprar o que me interessasse e ter as garotas que eu desejava. Era muito fácil. Mas aí você pode facilmente sair dos trilhos porque não há um limite e você faz o que bem entender. Eu passei muito tempo só saindo e bebendo, não pensei na minha realidade“, contou em entrevista após a sua aposentadoria.

Pior: quando estava recuperando a forma pelos Toffees, em 2007, Andy faltou a treinos do clube e foi repreendido. O drama de fundo era a doença de sua filha, que não pôde sair da maternidade após o nascimento. Eventualmente ela se recuperou, mas toda a situação fragilizou o atleta, que voltou a ter problemas com o álcool. Foram quatro anos na Inglaterra e diversos momentos turbulentos. Ao fim de seu contrato, em 2009, o atacante retornou para a Holanda. Ficou seis meses sem jogar enquanto buscava uma forma mais eficaz de tratamento para a filha. Quando as coisas pareciam se acertar, tudo desmoronou outra vez.

Antes tarde do que nunca

Careca e com alguns quilos a mais: este é o Andy renovado. E ele garante que aprendeu com os próprios erros

O casamento também foi para o beleléu depois que a esposa descobriu que ele tinha uma amante, uma stripper que ele havia conhecido em seus momentos mais obscuros em Liverpool. Sem a família, que voltou para a Holanda, ele ficou completamente abandonado em solo inglês. Mas não parou para contemplar a desgraça.

Foi o empurrão que bastava para que ele se envolvesse também com drogas, completando uma combinação bombástica para qualquer pessoa, que dirá um atleta com uma reputação a zelar. Cocaína, álcool, festas intermináveis com os amigos e outras irresponsabilidades eram a sua rotina. Reconhecendo que morreria se continuasse nesse ritmo alucinante, resolveu dar um basta na zueira.

O PSV surgiu em 2010 como uma esperança para recuperar os bons tempos, pois talvez em sua terra natal Andy pudesse levantar com suas próprias forças. Ele nunca fez nenhuma partida oficial com a camisa da equipe de Eindhoven. Sua última experiência no futebol foi pelo WKE, uma equipe amadora na pequena cidade de Emmen, ao fim de 2011. E só. Ele encerrou uma carreira que foi muito cedo comprometida por problemas pessoais.

Recuperado, o jogador pode até ter sido destruído pelas más escolhas, mas o homem Andy está firme e forte, longe das drogas e com uma relação bem mais saudável com a bebida. Hoje é visto tentando aconselhar jogadores a cuidarem melhor de suas vidas, sem excessos. Tenta evitar que outros sigam o seu tortuoso caminho. É Youtuber e tem um programa chamado “Bij Andy in de auto”, algo como “No carro com Andy”.

Em 2014, o careca voltou aos noticiários como árbitro de futebol, apitando a Copa do Mundo de Lingerie, que envolveu moças de oito países em uma competição. Certas coisas nunca mudam…

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