Félix: O bravo campeão que nunca foi uma unanimidade

Ser goleiro da Seleção Brasileira envolve muito mais contras do que prós. A pressão para manter o legado de grandes jogadores da posição massacra e destrói a fama dos que não tiveram tanto sucesso com a camisa canarinha. Mesmo campeão mundial na marcante e saudosa Copa de 1970, Félix sempre conviveu com críticas e contestações. Mas ele mesmo se dizia vencedor de toda e qualquer batalha em sua vida.

Já se passaram quatro décadas e uns quebrados, mas o Brasil de 1970 continua sendo aclamado como a maior reunião de craques que já venceu um torneio de grande importância. Aquele time treinado por Zagallo e esculpido por João Saldanha é a síntese do futebol clássico, da técnica refinada, de um estilo quase de cinema.

A Seleção de 1970 não era exatamente a meca dos atletas incontestáveis. Em sua defesa, notoriamente o ponto menos memorável da escalação, Félix liderava uma turma que, com exceção de Carlos Alberto Torres, passou pelo futebol sem grandes façanhas ou atuações de sonho. O goleiro atuou por 23 anos sem nunca ter sido uma unanimidade, sempre com alguma sombra ou um porém. Mas nem isso diminui a sua grandeza no esporte.

Para se ter uma ideia do que Félix Miélli Venerando foi submetido em sua trajetória como futebolista, é preciso se considerar o seu contexto e formação. O primeiro contrato dele como profissional foi assinado com apenas 17 anos, para atuar na Portuguesa, em São Paulo. Antes de subir para o time profissional, também fazia bicos como ponta-direita em equipes juvenis.

O futebol entrou de fato na vida de Félix como uma ocupação em 1953, dois anos antes de firmar sua assinatura com a Lusa. Ele defendeu o Juventus da Mooca, onde era reserva de ninguém menos que Oberdan Cattani, lenda do Palmeiras que encerrava seu ciclo pelo Moleque Travesso. No segundo ano de Juventus, Félix teve a chance de aprender um pouco com o paredão que foi Oberdan. Dessas parcerias que formam o caráter de alguém. Enquanto dividia sua vida como funcionário de fábrica, passou por um problema de saúde em 1954 e precisou operar uma hérnia, mas o Juventus se recusou a arcar com os custos e acabou dispensando-o antes mesmo do profissionalismo.

Félix, com a camisa do Flu. Era chamado de “Papel” pela magreza e agilidade ao praticar defesas monumentais

Dali, Félix seguiu para o Canindé, não sem antes chamar a atenção de dirigentes da Lusa em uma excursão com o Santos pela América do Sul. “Roubando” o arqueiro do Peixe, a equipe rubro-verde conseguiu um ídolo em potencial. Mas Félix era novo demais para ter alguma pretensão imediata e contentou-se com a vaga no elenco da Portuguesa, sendo reserva de Cabeção, que era presença constante nas convocações do Brasil.

Quando Cabeção estava ausente, Félix assumia a meta. Muito embora ele precisasse mostrar além de sua capacidade para convencer alguém de que era um ótimo goleiro. O destino fez das suas e Cabeção foi negociado pela Lusa em 1957, portanto dois anos após a chegada de Félix ao clube. O jovem chegou a prospectar a camisa 1, mas para a vaga de Cabeção veio Carlos Alberto, mais experiente e com passagem pelo Vasco. Mais drama: liberado pela Portuguesa, o nosso protagonista chegou a retornar aos juniores e ser emprestado para o Nacional da Barra Funda. Foram três anos pastando e sendo ofuscado por outros guarda-metas que hoje não dizem nada para o futebol.

Foi com o técnico Nena que Félix finalmente pode despontar, em 1961, já com 24 anos. Era deveras experiente, bem mais do que os anos como segunda ou terceira opção supunham. Perseverou. Sob o comando de Osvaldo Brandão, já estava consolidado na Lusa quando sofreu outro baque: uma luxação no ombro lhe afastou de combate por alguns dias, perdendo a posição para Orlando. Retornou só com a mudança de comando: Oto Glória apostava nele como seu titular em 1963. Nem assim a batalha de Félix para ficar debaixo da trave de alguma forma deu trégua. Os dois anos como primeira opção foram logo ameaçados com a chegada de outro arqueiro competentíssimo, Orlando, que vinha do São Cristóvão.

Na seleção, viveu pouco tempo. O necessário para ser o camisa 1 do Tri no México

Quando não era um outro goleiro que almejava o seu posto, as lesões eram o incômodo. Temendo ficar de fora na competição particular com Orlando, Félix atuou mesmo com furúnculos nas pernas, no limite da responsabilidade. Em entrevista à Placar, em 1976, ele conta que em um clássico com o Palmeiras, no Paulistão, sob muita pressão, retirou os curativos para tentar ser atendido pelos médicos e assim esfriar o ímpeto dos alviverdes.

A Lusa vencia por 2-1 e não podia conceder o empate. Acusado de fazer cera pelos adversários, ele se encharcou de sangue que saía das feridas, uma tática ardilosa para quebrar o ritmo dos palmeirenses que acabou funcionando. A atitude “suicida” facilitou o objetivo, a Lusa venceu e continuou brigando pelo Estadual. Sem ele, contra o Santos, uma derrota por 3-2 acabou com os sonhos de título para os lusitanos. A passagem de “Papel” pela Portuguesa se encerrou só em 1968, quando um convite do Fluminense lhe tirou de uma relação conturbada com a diretoria.

Em 1966, ficou sem jogar por quase um ano, barrado no clube paulistano e sem nem sequer receber. A picuinha foi resolvida e  o seu contrato foi renovado em 1968. Tarde demais, o Flu foi mais esperto para assegurar os seus serviços. Nesse interim, já era o camisa 1 da Seleção, mesmo com a fortíssima competição de Raul, do Cruzeiro. Algumas falhas pelo Brasil foram ignoradas e ele, apesar das críticas, seguia intocável na posição. Foi mantido por Aimoré Moreira a pedido do seu reserva Cláudio, do Santos, o segundo mais cotado para ser titular, em uma nobre atitude que determinou o que seria a parte final de sua carreira. Como não saiu do time, pegou o fim da década de 1960 e o início dos anos 1970, quando João Saldanha chegou e revolucionou o vestiário da Seleção, montando o embrião do time espetacular da Copa do México.

Pentacampeão estadual com o Flu, Félix também era o titular na conquista da Taça de Prata em 1970

Pelo Tricolor, provou por a mais b que era um goleiro de classe e nível internacional. E isso fortaleceu sua imagem como o principal nome do ofício no Brasil. Faturou a Taça de Prata em 1970 com o Flu e mais cinco Estaduais nos anos 70, marcou época, foi à Copa do Mundo, saiu campeão (indo bem demais contra a Inglaterra e falhando feio contra o Peru). Eternizado, não tinha muito mais o que provar. Isso não impediu que ele continuasse sendo apedrejado pelos mais céticos.

O próprio Saldanha, artífice de sua sequência na Seleção durante as Eliminatórias, deixou Félix de fora da lista final para a Copa, após amistosos de preparação para o Mundial. Ado e Leão despontavam como favoritos, além de Raul. Para a sorte do camisa 1 do Fluminense, Saldanha acabou caindo e dando lugar a Zagallo, que resolveu a injustiça. De outra forma, essa história nunca teria terminado em consagração.

Félix ainda teve seus brilhos após o Tri no México. Mesmo machucado várias vezes, como quando levou um pisão na coxa de Lula, do Nacional-AM em 1975, teve sequência na meta tricolor, aos trancos e barrancos. Viveu o início da era chamada “Máquina Tricolor” em reencontro com Rivellino e dividiu espaço com o jovem emergente Renato, relembrando muito o seu próprio começo lá no Juventus, nos anos 1950. O último troféu como titular foi no Carioca de 1975, depois cedeu a vaga a Renato.

Uma Copa do Mundo disputada e vencida, uma história sofrida que transcendeu as barreiras do futebol paulista e ganhou o Rio de Janeiro com defesas espetaculares e muita determinação. Félix é o primeiro nome que aparece quando qualquer pessoa tenta escalar o time de 1970, uma tradição que é passada de geração em geração entre amantes do futebol. A criança pode até não saber como era o rosto ou onde tal jogador atuava, mas sabe que Félix foi o goleiro daquele fabuloso esquadrão que fez do México o seu quintal. Sim, ele mesmo, Félix, o homem que por tanto tempo lutou para poder mostrar serviço e de tão obstinado, chegou ao Olimpo dos futebolistas.

Outros goleiros podem até ter desfrutado de mais oportunidades e mais tempo na Seleção, mas nenhum outro teve a honra e o timing da titularidade no momento mais tenro do Brasil em Copas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *