Krankl, o último grande tanque austríaco

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Um tanque de guerra. Centroavante com enorme presença de área, Hans Krankl foi o principal nome austríaco nas décadas de 1970 e 80 com o seu perfil combativo e chute potente. O vienense era especialista em furar bloqueios defensivos e até em encarar beques de força excessiva.

Quando Johann Krankl decidiu que seria jogador de futebol, a sua adolescência estava no auge. Como muitos outros meninos, ele preferiu deixar de lado os prazeres da juventude em troca de uma chance para viver da bola. E assim, com 17 anos, as rotinas pela base do Rapid Viena finalmente renderam uma oportunidade.

O ano era 1970 e a grande lembrança que se tem daquele ano é o incrível título brasileiro na Copa do México, com Pelé, Tostão, Jairzinho, Gérson e Rivellino em grande forma. O ano do Tri marcou um país. E marcou também Johann, que virou Hans assim que passou para o profissional.

A Áustria não era uma potência naquele momento. Passaram-se trinta anos ou mais desde que o “Wunderteam” liderado por Matthias Sindelar havia sido eclipsado quando o país foi anexado pela Alemanha. E um ano depois, se recusando a jogar sob a bandeira nazista, Sindelar e sua namorada foram assassinados pela polícia secreta alemã.

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Depois de Sindelar, nenhum outro futebolista nascido em solo austríaco foi tão emblemático quanto Krankl. O garoto, que tinha pinta de valentão do colégio, chegou ao profissional e mostrou explosão física. Robusto e exímio finalizador, começou a criar a sua fama no ataque do Rapid. A facilidade com que balançava as redes encantou os dirigentes do Wiener, que requisitaram seu empréstimo já no segundo ano de carreira. Foi lá que ele desandou a fazer gols.

De volta ao Rapid, jogou mais sete temporadas e ampliou o seu potencial matador. De repente, era comum vê-lo fazer 20 gols em uma temporada. Em 1974, por exemplo, anotou 42 tentos. A marca foi repetida em 1977-78, quando venceu a Chuteira de Ouro da Europa com a camisa alviverde. Curiosamente, neste intervalo de 1970 a 78, Krankl venceu apenas a Copa da Áustria em 1976, mas nada do título nacional. Depois da façanha, foi parar no Barcelona.

O Milagre de Córdoba

Veio então a Copa do Mundo de 1978, a grande marca na sua carreira. Pelos grupos, os austríacos sobreviveram a uma chave com Brasil, Suécia e Espanha. Na segunda fase, o chaveamento colocou Alemanha e Áustria frente a frente na segunda fase. A seleção de Hans não vencia os germânicos desde 1931. Apesar de ter sido eliminada por apanhar da Holanda e da Itália, a Áustria se vingou dos rivais e venceu um jogo por 3-2, que acabou com as chances dos alemães se classificarem. Krankl foi essencial nesta vitória.

A Alemanha saiu na frente com Rummenigge, mas um gol contra de Vogts na segunda etapa igualou o marcador. Foi aí que Krankl apareceu para fazer história naquele jogo que ficou conhecido como “O Milagre de Córdoba”.

Aos 66 minutos, um lançamento veio da esquerda e achou Krankl livre na grande área. Ele matou a bola ainda no alto e mandou uma pancada no ângulo da meta de Sepp Maier. Com este gol, a Áustria virou a partida. Mas ainda tinha mais do seu camisa 9. Hölzenbein empatou de novo e os germânicos voltaram e ter chances. Faltando dois minutos para o apito final, Krankl se aproveitou de um quique torto da bola e ganhou de Bonhof. Correu para a área e ainda entortou outro zagueiro antes de bater na saída de Maier. Um golaço, mais um para aquela tarde brilhante na Argentina. A Áustria venceu e somou os únicos dois pontos da fase. Holanda e Itália passaram para as semifinais.

A felicidade não estava em Barcelona

krankl-e-neeskens-barcaNo Barcelona, Krankl brilhou logo de cara, mas não teve o sucesso estrondoso que se esperava de um goleador internacional. Afinal de contas, a Liga Espanhola não era mais o seu quintal e as defesas não eram tão inocentes quanto as que ele encontrava na Áustria. Mesmo assim, Hans chegou com moral e meteu 29 gols no Espanhol, mais cinco pela Recopa Uefa e um pela Copa do Rei, somando 36 no total. O Barça terminou a temporada 1978-79 só com o título continental, conquistado em cima do Fortuna Dusseldorf.

O centroavante ainda teve uma temporada completa com a camisa dos catalães, mas não repetiu a boa forma de quando conquistou o Troféu Pichichi de artilheiro da competição. No ano seguinte, sofreu um acidente de carro e as lesões impediram que ele entrasse em campo com frequência. Foram apenas 12 jogos e que obviamente não foram suficientes para que ele se firmasse como titular. Em 1980, se recuperou, mas foi emprestado ao First Vienna, que sofria para se manter na elite austríaca.

Não adiantou ao pequeno clube vienense ter Krankl na sua linha de frente. O destino foi o rebaixamento em 1980, frustrando o jogador, que já estava quase entrando em depressão com tudo que acontecia com a sua carreira. O Barcelona ainda apostou nele uma última vez, em 1981, quando o clube venceu a Copa do Rei. Discreto, o austríaco acabou liberado. Uma nova chance apareceu para ele, novamente no Rapid Viena, onde teve seu auge.

A volta por cima aconteceu outra vez em verde e branco. Com cabelos grisalhos e um futebol que ficava mais técnico conforme o tempo passava, o camisa 9 chegou aos 36 gols na temporada já com três décadas completadas, em 1983. A média se manteve alta até 1986, quando foi se aproximando a hora de pendurar as chuteiras. Só nesta segunda passagem é que Hans conseguiu ser campeão austríaco, duas vezes seguidas, para compensar a injustiça da década anterior. Levantou o caneco em 1982 e 83 como capitão, além do tricampeonato da Copa da Áustria de 1983 a 85.

Foi também em 1985 que Krankl teve a chance de ser novamente campeão europeu. O desafio era mais complicado, já que o Rapid não tinha tradição alguma em competições internacionais. Entretanto, uma arrancada na Recopa Uefa trouxe uma participação inédita na final do torneio. O adversário foi o Everton, que levou a taça ao vencer por 3-1. Krankl fez o único gol dos vienenses, mas não foi suficiente.

Para consolidar de vez seu status como uma lenda atemporal na Áustria, Hans ainda defendeu o Wiener Sport Club, o Kremser e o Austria Salzburg até a sua aposentadoria, em 1989. O futebol se despedia de um gigante com mais de 450 gols na carreira, um homem que nasceu para ter grande relação com a bola e as redes.

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